Como uma invasão russa da Ucrânia também prejudicaria os norte-americanos

CNN ,  Análise de Stephen Collinson
15 fev, 10:02

O presidente Joe Biden passou o fim de semana a liderar o que parece ser um esforço final cada vez mais desesperado para impedir uma invasão russa da Ucrânia - uma incursão que pode ter graves consequências para a sua própria posição política.

Se o presidente Vladimir Putin ordenar a entrada dos seus tanques no país vizinho mais pequeno e democrático da Rússia, enviará ondas de choque por todo o mundo e desencadeará uma das piores e mais perigosas crises de segurança nacional desde a Guerra Fria.

E embora esta não seja a sua intenção principal, Putin causaria danos significativos ao prestígio de Biden e infligiria consequências em tempo real aos americanos num ano eleitoral já tenso - incluindo novos aumentos prováveis dos preços da gasolina já elevados, que muitas vezes atuam como um índice de fúria dos eleitores e da perceção da economia.

O conselheiro de segurança nacional do presidente norte-americano, Jake Sullivan, no domingo, resumiu um fim de semana em que o tom dos governos ocidentais que alertavam para uma possível invasão se tornou mais alarmante, exacerbando a sensação de que o crescimento russo em torno da Ucrânia ao longo de semanas pode estar a aproximar-se rapidamente de um momento decisivo.

"A maneira como aumentaram as suas forças e puseram tudo no lugar revela uma possibilidade clara de que haverá uma grande ação militar muito em breve", afirmou Sullivan a Jake Tapper no programa "State of the Union" da CNN.

Prevendo um cenário assustador de conflito em massa na Europa, Sullivan alertou que uma invasão começaria provavelmente com uma onda prolongada de ataques com mísseis e bombas que poderiam causar baixas civis significativas.

"Se a Rússia avançar, defenderemos o território da NATO, iremos impor sanções à Rússia e garantir que iremos emergir como um Ocidente mais forte, determinado e firme do que nos últimos 30 anos e a Rússia acabará por sofrer consequências estratégicas significativas pela ação militar", disse Sullivan a Tapper.

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, acrescentou que esta poderia ser uma semana fatídica, afirmando na Fox, no domingo, que os EUA tinham boas fontes de inteligência que apontavam para uma "oportunidade crescente para Putin".

Consequências domésticas

Os Estados Unidos não enviarão tropas para a Ucrânia para a defender. O antigo membro da República Soviética não pertence à NATO, a aliança que defende o mundo ocidental desde pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Portanto, o conflito direto entre soldados russos e americanos é improvável. No entanto, Biden ordenou vários milhares de soldados para a linha de frente dos estados da NATO para impedir qualquer imprudência russa - incluindo a Roménia e a Polónia, dois países que já estiveram atrás da Cortina de Ferro, mas agora são membros da aliança - para a fúria de Putin.

Uma invasão russa da Ucrânia derrubaria os princípios democráticos e a ideia de que as pessoas podem escolher os seus líderes – princípios sobre os quais os Estados Unidos construíram décadas de política externa. Esta situação poderia encorajar a China a agir contra a ilha democrática de Taiwan, que considera território chinês, num conflito com muito mais probabilidade de atrair os EUA para uma grande guerra do que uma invasão da Ucrânia.

Porém, de forma mais imediata, uma invasão russa poderia ter um impacto interno significativo nos Estados Unidos, pois traria mais consequências económicas e, finalmente, prejudicaria as hipóteses de Biden e dos seus democratas nas eleições de novembro.

O presidente prometeu ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, no domingo, que os EUA imporiam medidas que puniriam de forma "rápida e decisiva" a Rússia. Esta resposta transformaria a política externa americana e adicionaria mais uma crise à grande lista de tarefas do presidente norte-americano.

Pela primeira vez em 30 anos, os Estados Unidos e a Rússia - os dois países com os maiores arsenais nucleares - estariam num impasse direto. As tensões podem aumentar ainda mais se os Estados Unidos voltarem a matar russos. Houve apelos no Congresso para uma revolta na Ucrânia financiada pelos EUA para refletir aquela que foi liderada por Washington que ajudou a expulsar Moscovo do Afeganistão na década de 1980 e acelerou a queda da União Soviética. A Rússia responderia a tal campanha - e tem a capacidade de interferir nos objetivos dos EUA e na diplomacia em todo o mundo, inclusive em questões vitais como os desafios nucleares apresentados pelo Irão e pela Coreia do Norte, que têm o potencial de causar uma ameaça direta à segurança dos cidadãos americanos em breve.

Uma invasão russa da Ucrânia também pode fazer com que os preços do combustível subam e se traduzam numa consequência direta para os motoristas americanos nas bombas de gasolina. Os preços elevados da gasolina, atualmente em média de 3,48 dólares, de acordo com a American Automobile Association, têm contribuído para a queda da popularidade de Biden. O presidente não pode dar-se ao luxo de criar uma crise com potencial para os aumentar dias após dados importantes terem mostrado, na quinta-feira, que a inflação subiu 7,5%, revelando os piores números desde 1982.

Uma invasão russa também poderia fazer com que as ações caíssem de uma forma que afetaria a perceção dos eleitores acerca da segurança económica e da prosperidade, aprofundando as preocupações que prejudicariam ainda mais as esperanças dos democratas de evitar uma derrota numa eleição que poderia entregar a Câmara dos Representantes e o Senado aos republicanos. Além disso, Biden poderia enfrentar uma reação psicológica e política com um eleitorado já insatisfeito, se uma invasão russa da Ucrânia aumentasse a impressão de que o mundo está a ficar fora de controlo, fazendo com que ele e os EUA pareçam vencidos.

Os republicanos já tentam retratar Biden como fraco e dar a impressão de que os esforços dos EUA para convencer Putin a não invadir - incluindo a preparação das piores sanções que os EUA e o Ocidente já impuseram a Moscovo - falharam em influenciar o líder russo. O ex-presidente Donald Trump fez um comentário que se tornará comum se ocorrer uma invasão. Ele afirmou, numa entrevista à Fox no sábado, que Putin foi encorajado a desafiar os Estados Unidos por causa da evacuação caótica das tropas de Biden do Afeganistão.

“Quando assistiram a isto tudo, acho que se sentiram encorajados”, afirmou Trump. O antigo presidente afirmou também que teria impedido Putin de tomar tal posição, acrescentando: "Conheço-o muito bem, dou-me muito bem com ele. Respeitávamo-nos mutuamente." Trump afirmou que nenhum governo foi mais duro com os russos do que aquele que ele liderou. Embora o seu governo tivesse uma política forte em relação a Moscovo - incluindo o envio de armas para a Ucrânia - Trump, muitas vezes, parecia seguir a sua abordagem pessoal, que envolvia demonstrar adulação a Putin e adotar o ponto de vista do líder russo em questões-chave - incluindo a negação de Putin de se ter intrometido nas eleições presidenciais dos EUA em 2016.

Uma segunda presidência de Trump levantaria questões reais sobre o futuro da NATO, que se encaixariam novamente no objetivo de Putin de dividir, ou até mesmo destruir, a aliança. O New York Times relatou, por exemplo, em 2019 que Trump, numa conversa particular, falou sobre a saída da organização que ele criticava com frequência – uma medida que, se fosse concretizada, representaria uma grande vitória para a Rússia. Qualquer ação na Ucrânia que prejudique Biden pode ajudar Trump e a sua futura campanha, fator que pode entrar nos cálculos de um líder russo que já interferiu nas eleições dos EUA com o objetivo de ajudar o 45.º presidente.

Uma presidência que já tem problemas

Os comentários de Trump, no fim de semana, foram claramente destinados a indicar aos republicanos a forma como prejudicar Biden na eventualidade de uma invasão russa. O Partido Republicano passou meses a construir uma mensagem eleitoral centrada na ideia de que Biden é fraco e incompetente e que o mundo perdeu o respeito pelos EUA com a saída de Trump, o homem forte.

Biden transmitiu uma advertência direta a Putin sobre as ações dos EUA - incluindo sanções que podem prejudicar a economia russa no caso de uma invasão - numa chamada telefónica no sábado. No entanto, os seus contactos frequentes com o líder russo podem deixá-lo vulnerável a acusações de conciliação, se Putin ignorar os avisos dos EUA e cruzar a fronteira da Ucrânia.

Os líderes republicanos também querem chamar a atenção para os preços elevados da gasolina e de bens essenciais causados sobretudo pela pandemia para retratar a gestão económica de Biden como um desastre, apesar de ter revelado as estatísticas de empregos mais fortes das últimas décadas. Muitos dos eventos sucessivos que resultariam de uma invasão russa da Ucrânia poderiam ser benéficos para o Partido Republicano.

A presidência de Biden já está vacilante. O seu índice de aprovação caiu para 41% numa nova sondagem da CNN/SSRS divulgada na semana passada e uma invasão russa da Ucrânia aprofundaria a sensação de crise que já se abate sobre a Casa Branca. A história sugere que presidentes com tantos problemas sofrem derrotas pungentes nas eleições do seu primeiro mandato. A sondagem da CNN, realizada em janeiro e fevereiro, revelou que apenas 45% dos eleitores democratas e de inclinação democrata queriam que o partido reelegesse Biden em 2024, enquanto 51% preferiam um candidato diferente. Porém, não houve notícias muito melhores para Trump, com 50% dos eleitores republicanos e de inclinação republicana a querer que o Partido Republicano o reelegesse e 49% a preferir um candidato alternativo.

É improvável que Biden receba muita confiança da parte dos eleitores, apesar de alguns erros retóricos, pelo esforço bem-sucedido e multifacetado para unir os aliados da NATO dos EUA e construir um conjunto de sanções para Moscovo, se este invadir a Ucrânia.

Qualquer decisão da parte de Putin de desistir à beira de uma invasão e retirar as suas forças permitiria ao presidente argumentar, no período que antecede as eleições, que a sua força e liderança levaram a Rússia a recuar. No entanto, é improvável que o líder russo diminua a pressão sobre a Ucrânia - mesmo que não chegue a invadir - e, sem dúvida, planeia ser uma dor de cabeça constante para os EUA e Biden.

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