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Influenciadoras russas insurgem-se contra as políticas de Putin. "As pessoas têm medo de si"

CNN , Clare Sebastian e Anna Chernova
18 abr, 17:05
Influenciadora russa

Várias influenciadoras russas ligadas aos universos da beleza e do estilo de vida criticaram publicamente Vladimir Putin e o agravamento das restrições impostas pelo Kremlin, num gesto pouco habitual num país onde o medo, a censura e a repressão têm limitado fortemente a contestação

“Vladimir Vladimirovich, as pessoas têm medo de si.” Foram estas as palavras de abertura de uma publicação no Instagram dirigida ao Presidente Vladimir Putin pela influenciadora de beleza russa Victoria Bonya, conhecida pelas suas dicas de maquilhagem e conteúdos de estilo de vida.

“As pessoas têm medo de si, os bloggers têm medo de si, os artistas têm medo de si, os governadores têm medo de si. E o senhor é o presidente do nosso país”, continuou.

Num apelo direto a Putin — que afirma apoiar — Bonya enumera um vasto conjunto de problemas na Rússia. Entre eles, inclui uma alegada resposta lenta às cheias no Daguestão, acusações de que o governo geriu de forma brutal o abate recente de gado na Sibéria e o agravamento das restrições às redes sociais online. Esta última questão, afirmou na publicação de terça-feira, está a impedir as pessoas de comunicarem com os seus entes queridos. “Há uma sensação de que já não vivemos num país livre”, disse.

Até à tarde de sexta-feira, Bonya, que vive atualmente no Mónaco e tem a sua própria linha de cosméticos, acumulava 26 milhões de visualizações no seu vídeo no Instagram e mais de 75 mil comentários, muitos a elogiar a sua coragem.

Muitos dos que comentaram a publicação de Victoria Bonya no Instagram elogiaram a sua coragem. Victoria Bonya/Instagram

Outra influenciadora russa popular nas áreas de estilo de vida e beleza, conhecida como Aiza e também residente no estrangeiro, recorreu à sua conta de Instagram para apoiar Bonya, afirmando que as recentes restrições à plataforma de mensagens Telegram seriam um “duro golpe para a economia russa” e acrescentando outras críticas, incluindo impostos elevados e desigualdade. “Quanto dinheiro é preciso roubar para que seja suficiente?”, questionou, referindo-se “ao deputado médio que possui propriedades avaliadas em milhares de milhões, milhões de dólares e detém múltiplos passaportes (estrangeiros)”. Posteriormente, apagou o vídeo.

A contestação pública ao Kremlin surge numa altura em que várias sondagens recentes mostram uma quebra no apoio a Putin — que tem imposto restrições à internet enquanto prossegue a sua guerra prolongada contra a Ucrânia, num contexto de dificuldades económicas crescentes no país para a maioria dos russos, incluindo os seus apoiantes.

“Parece que algo está a mudar”, afirmou Tatiana Stanovaya, fundadora da empresa de análise política R.Politik. Mesmo numa sociedade tão habituada a restrições em tempo de guerra e a dificuldades económicas, disse à CNN, as falhas de internet móvel e o endurecimento contra o Telegram nas últimas semanas foram “algo mais próximo de um momento decisivo”.

As restrições à internet na Rússia intensificaram-se desde o início da primavera, levando o já fortemente controlado espaço informativo do país para território desconhecido. Interrupções recorrentes da internet móvel, que perturbaram a vida diária, incluindo nas maiores cidades da Rússia, Moscovo e São Petersburgo, coincidiram com o abrandamento do funcionamento do Telegram e novas medidas contra VPN, amplamente utilizadas no país para contornar restrições já existentes ao acesso à internet.

Responsáveis públicos afirmaram que os cortes de internet móvel fazem parte de um esforço de segurança para contrariar “métodos cada vez mais sofisticados” de ataque por parte da Ucrânia, com o Kremlin a prometer que, “assim que esta medida deixar de ser considerada necessária, o serviço de internet será totalmente restabelecido”.

‘Não suporto o que nos estão a fazer’


As restrições ao Telegram têm sido particularmente prejudiciais para os influenciadores online, que já tinham perdido quaisquer rendimentos provenientes do Instagram após a entrada em vigor, em setembro, de uma lei que proíbe residentes russos de fazer publicidade em sites bloqueados pela Rússia ou considerados “indesejáveis”. O Instagram foi oficialmente bloqueado em 2022, mas continua amplamente acessível através de VPN.

A 26 de março, Liza Moka, escritora e blogger russa nas áreas de estilo de vida e parentalidade, publicou um vídeo emocionado dirigido aos seus 900 mil seguidores no Instagram. “Não consigo continuar assim”, disse. “Não suporto o que nos estão a fazer, estes tiranos desligados da realidade.” Explicou que vive numa zona rural remota e que a única forma de trabalhar, ou de os seus filhos terem acesso à educação, é online.

“Quando digo aos meus filhos, que eduquei para serem patriotas, ‘meninos, tenho de ligar uma VPN especial para contornar aquilo que quem devia cuidar de vocês inventou, para que possam ir à porra da escola’, isto não faz sentido”, afirmou. O vídeo teve 2 milhões de visualizações.

“Espero não ir preso por causa deste vídeo”, disse um utilizador de Instagram de 19 anos, chamado Artyom, no início de março. Num vídeo que ultrapassou as 600 mil visualizações, afirmou estar “em choque” com o facto de a Rússia não só ter bloqueado redes sociais, como estar agora também a proibir o uso de palavras em inglês na publicidade. “Onde está a liberdade? Não compreendo as pessoas que ainda se dizem livres. Há cada vez menos oportunidades”, afirmou.

E não são apenas figuras das redes sociais a manifestarem-se. Várias colunas recentes em jornais criticaram duramente os cortes de internet impostos à população sem explicação adequada. Um artigo do “Nezavisimaya Gazeta”, no final de março, comparou abertamente os cortes às proibições de Estaline sobre certas investigações em genética e robótica.

A cientista política russa Ekaterina Schulmann, do Carnegie Russia Eurasia Center, em Berlim, sugere que as restrições à internet suscitaram mais comentários públicos por serem vistas como um tema relativamente apolítico, mas afirma que mudanças subtis no humor da população começaram ainda antes, impulsionadas sobretudo pela guerra na Ucrânia.

“Há vários sinais que mostram esta mudança de atitudes ao longo de 2025”, disse à CNN. “Assistimos à formação de uma maioria estável e crescente de pessoas que prefeririam ver a guerra terminar, mesmo sem alcançar os objetivos declarados, em vez de a prolongar.” Muitos russos também esperaram, acrescentou, que “o nosso aliado na Casa Branca resolvesse a situação e que a guerra terminasse com uma vitória nos nossos termos. Nada disso aconteceu.”

E isso está a afetar até aqueles que nunca tinham questionado os seus líderes, afirmou o jornalista de investigação russo Andrei Soldatov. “A fadiga da guerra é evidente mesmo entre patriotas”, escreveu em comentários à CNN. “As esperanças que tinham em Trump desapareceram.”

Bloggers sob pressão crescente


Compreender o impacto da opinião pública na Rússia é complexo, afirmou Schulmann, porque “numa autocracia não existe uma ligação direta e imediata entre o descontentamento das pessoas ou os seus desejos e… as decisões das autoridades”.

“Os cidadãos russos não são eleitores”, disse à CNN, classificando o resultado das eleições parlamentares previstas para este outono como “pré-determinado” por quem já está no poder.

Ainda assim, a resposta do Kremlin tem sido reveladora. Na quinta-feira, o porta-voz Dmitry Peskov comentou diretamente o vídeo de Bonya — algo pouco habitual — afirmando que “aborda muitos temas e está a ser feito trabalho sobre eles de forma separada… nada disso está a ser ignorado”.

Na conferência de imprensa diária de sexta-feira, o Kremlin rejeitou a ideia de que Putin esteja afastado da verdadeira dimensão dos problemas do país, como alguns bloggers sugeriram nos seus vídeos. “Putin é o chefe de Estado. A sua autoridade abrange o mais vasto leque de questões da agenda”, disse Peskov à CNN, evitando responder diretamente à questão de saber se acredita que os russos têm medo do seu presidente.

Com o rosto marcado pelas lágrimas, Bonya agradeceu a Peskov num vídeo publicado na quinta-feira e tentou distanciar-se da cobertura do seu apelo por meios de comunicação não aprovados pelo Kremlin — como a BBC e o canal de oposição russo TV Rain.

“Não sei o que me vai acontecer”, acrescentou, “mas só quero dizer que valeu a pena.”

A influenciadora de beleza Victoria Bonya agradeceu, em lágrimas, ao porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, depois de este afirmar que estava a ser desenvolvido trabalho sobre as questões que levantou no vídeo de terça-feira. Victoria Bonya/Instagram

Os bloggers na Rússia têm estado sob pressão crescente.

Em meados de março, o blogger pró-Putin Ilya Remeslo publicou um manifesto no Telegram em que classificava a guerra na Ucrânia como um “beco sem saída” e defendia que Putin deveria ser julgado. No dia seguinte, foi noticiado que tinha sido internado num hospital psiquiátrico em São Petersburgo.

No seu vídeo original, Bonya referiu também a sua preocupação com o caso de Valeria Chekalina, uma blogger popular conhecida online como Lerchek, cujo ex-marido, Artyom Chekalin, foi condenado na segunda-feira a sete anos de prisão por transferências ilegais de dinheiro. A própria Chekalina só viu a sua prisão domiciliária — imposta por acusações semelhantes — suspensa para poder receber tratamento para um cancro em fase 4.

Especialistas afirmam que poderão surgir novas medidas repressivas, sobretudo tendo em conta que a taxa de aprovação de Putin caiu mais de sete pontos desde o início do ano, segundo a empresa estatal de sondagens VCIOM. “Diria que talvez venhamos a assistir em breve a uma nova vaga de restrições, repressão, talvez mudanças institucionais, reestruturações de pessoal”, afirmou Stanovaya.

A questão central para a estabilidade do regime, defende Schulmann, é saber se os russos interpretam a atual situação — marcada por restrições à internet, dificuldades económicas crescentes e uma guerra sem fim à vista — como um estado normal ou como algo temporário e anómalo.

“O presidente é o status quo”, disse à CNN. “Se as pessoas gostam dele, então aprovam-no. Se começam a não gostar da situação atual, começam também a não gostar dele.”

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