Porque é o 9 de maio um dia importante para a Rússia e o que significaria uma declaração de guerra?

CNN , Por Jack Guy e Anna Chernova
4 mai, 19:00
Vladimir Putin (AP Images)

A Rússia pode ter invadido a Ucrânia a 24 de fevereiro, mas o presidente Vladimir Putin insistiu que as suas tropas estão a realizar uma “operação militar especial” em vez de declarar guerra.

No entanto, as autoridades e os analistas ocidentais acreditam que isso pode mudar a 9 de maio, um dia simbólico para a Rússia, com uma declaração formal de guerra que abrirá o caminho a Putin para intensificar a sua campanha.

Que dia é o 9 de maio?

O dia 9 de maio, conhecido como “Dia da Vitória” na Rússia, celebra a derrota dos nazis no país, em 1945.

É assinalado com uma parada militar em Moscovo, e os líderes russos, tradicionalmente, assistem à parada do túmulo de Vladimir Lenine, na Praça Vermelha.

“O 9 de maio serve como uma exibição para os locais, uma intimidação para os opositores e uma forma de agradar o ditador no poder”, disse à CNN James Nixey, diretor do Programa Rússia-Eurásia da Chatham House.

As autoridades ocidentais acreditam há muito que Putin se irá aproveitar do significado simbólico e do valor da propaganda desse dia para anunciar quer uma conquista militar na Ucrânia ou uma grande intensificação das hostilidades - ou então, ambas.

O presidente russo gosta de simbolismo, e lançou a invasão da Ucrânia um dia depois do Dia do Defensor da Pátria, outro dia militar muito importante na Rússia.

O presidente russo Vladimir Putin fotografado a 7 de fevereiro. (Imagem Getty)

Uma preparação para a mobilização?

Putin tem muitas opções em cima da mesa, segundo Oleg Ignatov, analista sénior para a Rússia do Crisis Group. “Declarar a guerra é o cenário mais complicado”, disse ele.

Entretanto, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky - que não declarou formalmente guerra à Rússia - impôs a lei marcial na Ucrânia quando a invasão russa começou, no final de fevereiro.

Outra opção de Putin é promulgar a lei de mobilização na Rússia, que pode ser usada para iniciar uma mobilização militar geral ou parcial “em casos de agressão contra a Federação Russa ou ameaça direta de agressão, ou caso surjam conflitos armados dirigidos contra a Federação Russa.”

Isso permitiria ao governo não apenas reunir tropas, mas também colocar a economia do país em pé de guerra.

Veículos militares russos num ensaio para a parada militar, a 28 de abril. (Imagem Getty)
Soldados russos num ensaio para a parada militar, a 28 de abril. (Imagem Getty)

As tropas russas perderam pelo menos 15.000 soldados desde o início da guerra, segundo Nixey, e serão necessários reforços para que Moscovo atinja os seus objetivos na Ucrânia.

A mobilização pode significar alargar o serviço militar obrigatório para os soldados atualmente nas Forças Armadas, convocar os reservistas ou chamar homens em idade de combater que tiveram treino militar, disse Ignatov.

Mas também representa um grande risco para o governo de Putin, disse ele.

“Isso mudaria toda a narrativa do Kremlin”, disse Ignatov, acrescentando que a medida obrigaria Putin a admitir que a invasão da Ucrânia não correu como o planeado.

“É uma decisão muito arriscada”, acrescentou Ignatov, explicando que a mobilização em grande escala também prejudicaria a economia russa, já em dificuldades.

Além disso, pode diminuir o apoio a Putin no país, já que alguns russos apoiam a invasão da Ucrânia, mas não querem ir pessoalmente lutar, disse o analista.

“Se declararem a mobilização em grande escala, algumas pessoas não vão gostar”, disse Ignatov.

Putin pode ainda promulgar a lei da mobilização sem declarar oficialmente guerra à Ucrânia, disse ele.

Putin também poderia impor a lei marcial na Rússia, suspendendo as eleições e concentrando ainda mais o poder nas suas mãos, disse Ignatov.

Isso imporia regras como restrições à saída do país dos homens em idade de combater, o que também poderia não ser muito popular, acrescentou.

O que mais pode acontecer?

Se Putin não declarar guerra, pode optar por outras ações para fazer uma declaração que marque o Dia da Vitória.

As outras opções incluem anexar os territórios separatistas de Lugansk e Donetsk, no leste da Ucrânia, fazer um grande esforço para avançar em Odessa, no sul, ou declarar o controlo total sobre a cidade portuária de Mariupol, no sul.

Há também indicações de que a Rússia pode estar a planear declarar e anexar uma “república popular”, a cidade de Kherson, no sudeste do país.

“Ele (Putin) poderá declarar que o exército russo conseguiu algumas vitórias na Ucrânia”, disse Ignatov. “Pode tentar usar essa data para solidificar o seu apoio.”

No entanto, é difícil prever o que a Rússia e o seu presidente farão, acrescentou o analista.

“Todas as decisões são tomadas por um homem e alguns dos seus conselheiros”, disse Ignatov.

No entanto, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, disse na segunda-feira que há “boas razões para acreditar que os russos farão tudo o que puderem para usar” o 9 de maio para fins de propaganda.

“Vimos os russos duplicarem os seus esforços de propaganda, provavelmente, -  ou quase certamente, - como distração das suas falhas táticas e estratégicas no campo de batalha na Ucrânia”, disse Price num briefing do Departamento de Estado, na segunda-feira.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados