Várias cidades russas têm registado bloqueios de internet, que começam a irritar os cidadãos comuns. Putin diz que as interrupções estavam “relacionadas com o trabalho operacional para prevenir ataques terroristas”
Quatro anos após a invasão em grande escala da Ucrânia, a Rússia enfrenta uma onda de descontentamento.
Os bloqueios de Internet nas cidades russas têm irritado os cidadãos comuns, e começa a ser evidente uma reação pública contra o presidente russo, Vladimir Putin.
A Rússia superou as dificuldades económicas da guerra, enquanto os seus serviços de segurança mantêm os protestos sob controlo. E o conflito no Médio Oriente deu um impulso inesperado ao esforço de guerra russo através da subida dos preços do petróleo.
No entanto, o aparelho repressivo do Estado russo parece estar a entrar em ação. Nas últimas semanas, as autoridades policiais lançaram uma nova ronda de detenções e rusgas policiais de alto nível. E, em paralelo, o governo russo tem ressuscitado os fantasmas do passado soviético.
O exemplo mais recente aconteceu na terça-feira, quando agentes do Comité de Investigação da Rússia invadiram os escritórios de uma das maiores editoras do país e detiveram funcionários, após uma investigação criminal de um ano sobre o que as autoridades alegam ser um caso de "propaganda LGBTQ+".
A editora Eksmo é proprietária de uma chancela chamada Popcorn Books, que publica ficção para jovens adultos.
Um dos seus títulos parece ter atraído especial atenção: “Summer in a Pioneer Tie” (Verão numa Gravata de Pioneiro), um best-seller de 2021 que conta a história de um romance queer entre dois jovens num campo de férias soviético.
As autoridades detiveram várias pessoas ligadas à editora no ano passado; a chancela Popcorn Books foi encerrada em janeiro.
A Rússia de Putin há muito que se mostra hostil ao que considera ideias ocidentais perigosas, com o líder do Kremlin a posicionar-se como defensor dos valores tradicionais.
Em 2023, o Supremo Tribunal russo declarou aquilo a que as autoridades russas chamam “movimento LGBTQ internacional” uma organização extremista, impondo penas criminais potencialmente graves para o ativismo LGBTQ – ou, aparentemente, no caso da Eksmo, para o ato de publicar.
A agência de notícias estatal russa TASS noticiou que os principais executivos da Eksmo foram libertados sob fiança após interrogatório. Mas o sector editorial não é o único lugar onde o espaço para a liberdade de expressão está a diminuir na Rússia.
No início deste mês, a polícia fez buscas na redação do Novaya Gazeta, um jornal independente cujo cofundador ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2021.
A agência de notícias estatal russa RIA-Novosti, citando o Ministério do Interior, noticiou que o jornalista Oleg Roldugin foi detido para interrogatório no âmbito de um processo-crime sobre o alegado uso indevido de dados pessoais. Roldugin nega as acusações.
O efeito intimidatório do caso é evidente.
O jornal Novaya Gazeta foi obrigado a encerrar a sua edição impressa após a invasão da Ucrânia em 2022, mas continua a publicar online; a operação policial pressiona ainda mais o que resta da imprensa livre na Rússia.
Partilhar notícias independentes na Rússia já é difícil. O governo proíbe plataformas populares de redes sociais, como o Facebook e o Instagram, e pressiona para impor uma aplicação de mensagens controlada pelo Estado, chamada MAX, como portal padrão para serviços digitais. E a operação contra o Novaya Gazeta ocorreu no mesmo dia em que o Supremo Tribunal russo classificou a Memorial, uma organização de defesa de direitos humanos de renome, como “extremista”.
Em comunicado, o responsável pelos direitos humanos da ONU, Volker Türk, afirmou que a classificação “criminaliza efetivamente o trabalho crítico em matéria de direitos humanos” na Rússia.
Enquanto o ataque à imprensa está em curso, as autoridades estão também a ressuscitar antigos símbolos de repressão política. Há poucos dias, a Academia do FSB da Rússia, onde Putin treinou para ser agente do KGB, foi renomeada em homenagem a Feliks Dzherzinsky, o temido fundador da polícia secreta soviética.
O derrube da estátua de Dzherzinsky em frente à sede do KGB, em 1991, foi um dos atos simbólicos que marcaram o fim da União Soviética. Mas as autoridades na Rússia parecem determinadas a abraçar o passado sombrio e totalitário do país.
Na quinta-feira, a Reuters noticiou que as embaixadas da Polónia, Estónia, Lituânia e Letónia emitiram um protesto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, após o desmantelamento de um complexo memorial na cidade siberiana de Tomsk, dedicado às vítimas da polícia secreta soviética. E, no início deste mês, a Rússia provocou indignação ao instalar uma exposição que, segundo alguns analistas, profanava o Memorial de Katyn, local da execução em massa de prisioneiros de guerra polacos pelos soviéticos em 1940.
Mas se o governo russo está a ressuscitar os fantasmas do passado soviético – e a tornar a vida dos russos comuns muito mais inconveniente – o próprio Putin demonstra indiferença pública.
Na quinta-feira, Putin quebrou o silêncio sobre os apagões digitais que atingiram a capital do país no início de março.
"Não posso deixar de mencionar o que as pessoas também estão a enfrentar nas grandes cidades – é raro, mas infelizmente acontece", declarou. "Refiro-me a certos problemas e interrupções de internet nas grandes áreas metropolitanas."
Putin indicou que as interrupções na Internet – que afetaram o comércio eletrónico e tornaram muitas aplicações e serviços eletrónicos inacessíveis – estavam “relacionadas com o trabalho operacional para prevenir ataques terroristas”. Ao mesmo tempo, o presidente russo também pareceu sugerir que a necessidade de o público ter acesso à informação era limitada.
“A ampla divulgação de informações ao público com antecedência pode ser prejudicial para o desenvolvimento operacional, porque os criminosos, afinal, ouvem e veem tudo”, afirmou. “E, claro, se a informação lhes chegar, ajustarão o seu comportamento e os seus planos criminosos”.
Por outras palavras, a vida em tempo de guerra significa tolerar alguns inconvenientes. E a intensificação e o aprofundamento da repressão da vida civil por parte dos serviços de segurança russos mostram poucos sinais de arrefecimento.