De grafitis de 6,5 euros a fogo posto e a um plano de atentado à bomba: como a "guerra-sombra" da Rússia contra a NATO está a evoluir

CNN , Nick Paton Walsh, Sarah Dean e Karolina Jeznach
11 jul, 08:00

Fogo posto em armazéns ligados ao fornecimento de armas à Ucrânia. Câmaras de vigilância onde a NATO treina as tropas ucranianas. Vandalismo brutal de carros de ministérios. Até um aparente plano de atentado à bomba falhado.

A Rússia tem estado envolvida numa "ousada" operação de sabotagem em todos os Estados-membros da NATO há mais de seis meses, visando as linhas de abastecimento de armas para a Ucrânia e os decisores por trás desse abastecimento, de acordo com um alto funcionário da NATO.

Vários responsáveis pela segurança em toda a Europa descrevem uma ameaça que está a propagar-se à medida que os agentes russos, cada vez mais sob escrutínio dos serviços de segurança e frustrados nas suas próprias operações, contratam amadores locais para cometerem crimes de alto risco, e muitas vezes dissimulados, em seu nome.

O responsável da NATO diz ter observado "uma escalada e um alastramento sem precedentes da guerra híbrida russa" nos últimos seis meses, que inclui "sabotagem física" da linha de abastecimento de armas da NATO destinadas à Ucrânia. "Abarca tudo, desde o ponto de produção e origem, ao armazenamento, àqueles que tomam as decisões, até à entrega efectiva", disse o alto funcionário da NATO. "É ousado. A Rússia está a tentar intimidar os (nossos) aliados".

O maior centro comercial de Varsóvia, o Marywilska 44, em chamas durante um incêndio enorme a 12 de maio de 2024. É "provável" que a Rússia tenha estado por trás do incêndio, de acordo com o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk (Dariusz Borowicz/Agencja Wyborcza.pl/Reuters)

A Rússia rejeita as alegações como infundadas, mas a sabotagem russa e a guerra híbrida estarão na agenda da reunião do 75.º aniversário da NATO em Washington, que começou na terça-feira. No entanto, não é claro como é que os Estados-membros vão expressar publicamente a sua indignação com aquilo a que os analistas classificam de nova "guerra-sombra" do Kremlin, uma vez que podem estar relutantes em dar a Moscovo uma vitória em termos de propaganda, ou fazer soar o alarme perante uma série de falhas de segurança em toda a Europa.

As recentes detenções de pessoas importantes revelam a natureza ad-hoc e desajeitada da evolução das operações dos serviços secretos do Kremlin desde o início da guerra na Ucrânia. No ano passado, 14 ucranianos e dois bielorrussos foram detidos na Polónia, num único caso, por suspeita de trabalharem para os serviços secretos russos. Um ucraniano que, ao abrigo da legislação polaca em matéria de privacidade, só pode ser identificado como Maxim L., de 24 anos, foi condenado a seis anos de prisão após semanas a receber tarefas de um supervisor russo, Andrzej, que nunca conheceu pessoalmente, mas que encontrou na aplicação de mensagens Telegram em fevereiro de 2023.

Inicialmente, Andrzej pagou-lhe 7 dólares em moedas digitais para que ele espalhasse graffitis contra a guerra na Polónia, disse Maxim. No entanto, as tarefas depressa se tornaram mais obscuras.

Maxim L. foi condenado a seis anos de prisão após semanas a receber tarefas de um intermediário russo que nunca conheceu pessoalmente, mas que encontrou na app de mensagens Telegram em fevereiro de 2023. A CNN desfocou o seu rosto em respeito da lei polaca (Jaroslaw Gorny/Imago)

‘Dinheiro fácil… parecia tão insignificante’

Numa rara entrevista com a CNN dentro de uma ala de máxima segurança da prisão de Lublin, Maxim diz que fugiu da Ucrânia para a Polónia numa tentativa frustrada de escapar ao desemprego e à pobreza. “Era dinheiro fácil”, diz sobre o trabalho que Andrzej lhe ofereceu. “E eu precisava desesperadamente de dinheiro.”

Maxim diz que não sentiu uma obrigação de lutar pela Ucrânia após a invasão russa em fevereiro de 2022. “Aquele país nunca fez nada por mim”, diz. “Não acredito que só porque nasces em determinado país, deves ir para a guerra por esse país. Não me interpretem mal: não sou pró-Rússia, não sou pró-Ucrânia, não só pró-nada.”

Andrzej começou logo a enviar a Maxim pins de localização de locais onde deveria colocar câmaras de vigilância ao longo dos caminhos-de-ferro perto da cidade fronteiriça de Medyka, através da qual a ajuda militar e humanitária fluiria para a Ucrânia. "Não pensei que nada daquilo pudesse causar qualquer dano real. Parecia-me tão insignificante", afirma.

Mais tarde, Andrzej pediu-lhe que incendiasse a vedação de uma empresa de transportes de propriedade ucraniana na cidade polaca de Biala Podlaska, no leste do país, o que Maxim diz ter simulado, tirando uma fotografia da vedação com pedaços de carvão que colocou para imitar os danos causados pelo fogo.

No entanto, Maxim apercebeu-se lentamente de que Andrzej era um agente russo, quando lhe foi dito para colocar câmaras no exterior de uma base onde a Polónia estava a treinar soldados ucranianos. "Foi aí que percebi que a coisa podia ser séria", diz ele. "Isso fez-me sentir desconfortável. Foi nessa altura que decidi demitir-me. Mas nunca tive hipótese. Fui preso no dia seguinte."

Os agentes de segurança interna da Polónia detiveram Maxim a 3 de março de 2023, após semanas de vigilância, desencadeada em parte pela descoberta de um recibo de bomba de gasolina que, segundo um funcionário polaco, Maxim tinha deixado cair acidentalmente durante uma das suas operações. Seguiram-se várias outras detenções, o que fez desta a maior operação de espionagem russa conhecida na Polónia nos últimos tempos, suscitando preocupações em Varsóvia quanto à extensão da infiltração de Moscovo. Em agosto último, foram detidos dois cidadãos russos por suspeita de recrutamento para o Grupo Wagner e, em maio último, um polaco e dois bielorrussos por alegado fogo posto.

Um outro polaco foi detido em abril de 2024 por posse de munições e por vigiar o aeroporto de Rzeszow Jasionka, um centro de transporte de armas da NATO para Kiev, num presumível plano para assassinar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que também utiliza frequentemente as instalações.

Os planos polacos juntam-se a uma série de incidentes em toda a Europa que, quando analisados em conjunto, retratam a ambição em larga escala das operações de Moscovo. A Rússia esteve "provavelmente" por trás de um ataque incendiário que atingiu o maior centro comercial da Polónia em maio, disse o primeiro-ministro, Donald Tusk, e foram manifestadas suspeitas sobre outro incêndio numa fábrica de munições, a sul da capital, em junho. As autoridades checas expressaram a sua preocupação com o envolvimento da Rússia em atos de pirataria informática e na perturbação das suas linhas de caminhos-de-ferro no ano passado.

Trabalhos de demolição na fábrica Diehl Metal Applications em Berlim, na Alemanha, após ter ficado destruída num incêndio que alguns acreditam ter sido provocado pela Rússia (Sean Gallup/Getty Images)

No mês passado, um incêndio suspeito atingiu uma fábrica de metais de um fabricante de produtos de defesa nos arredores de Berlim e um ucraniano pró-russo de 26 anos foi detido depois de se ter feito explodir com uma bomba caseira perto do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Um incêndio num armazém na zona leste de Londres, em março, levou a que dois homens fossem acusados pelo Serviço de Polícia Metropolitana de Londres de fogo posto e de assistência a um serviço de informações estrangeiro, nomeadamente a Rússia.

Embora não tenham sido traçadas ligações definitivas entre todos os incidentes e os serviços secretos russos, surgem unidos pelo aparente envolvimento de amadores ou pela pequena criminalidade destinada a espalhar o medo ou a causar perturbações.

Um ‘jogo bastante perigoso’

O alto funcionário da NATO diz que a sabotagem russa contra os Estados da NATO representa um "jogo muito perigoso se [a Rússia acredita] que estas coisas estão sempre abaixo do limiar do conflito armado", o que não desencadearia a ativação do artigo 5 da NATO, que dita que um ataque a um Estado-membro é um ataque a toda a aliança. "Descobrir onde está essa linha é um cálculo difícil e perigoso de fazer", diz o funcionário, acrescentando que a invasão da Ucrânia pelo presidente russo, Vladimir Putin, mostra que o chefe do Kremlin nem sempre está a receber bons conselhos militares.

A Rússia está a fazer uso de "toda a gama" de operações híbridas, adianta o funcionário. "Vemos de tudo, desde operações de alto nível na Europa, onde vimos até 400 mil euros pagos por algum tipo de atividade das secretas, até alguns lugares onde criminosos estão a ser contratados por alguns milhares de euros".

Uma ameaça semelhante tem crescido na fronteira da Rússia com a NATO, na Estónia, onde 10 alegados agentes russos foram detidos em fevereiro, depois de o carro do ministro do Interior ter sido vandalizado. O incidente foi o ponto alto do que as autoridades da Estónia dizem ser uma campanha de Moscovo que dura há vários anos para desestabilizar o seu pequeno vizinho da NATO, cuja população de 1,3 milhões de habitantes fala russo, de acordo com uma análise da UE de 2021.

Nos últimos meses, foi detetada interferência nos sinais GPS que impediu a aterragem de aviões civis e até as bóias que demarcam parte da fronteira da Rússia com a Estónia desapareceram, no meio de um apelo efémero de Moscovo para que as fronteiras marítimas fossem reavaliadas.

Harrys Puusepp, porta-voz do KAPO, o serviço de segurança interna da Estónia, diz à CNN que as atividades russas têm aumentado nos últimos meses. "Assistimos a um aumento significativo da sua atividade no último outono e, no inverno, conseguimos deter mais de 10 [suspeitos]. O número de pessoas envolvidas nas atividades híbridas [da Rússia] contra a segurança da Estónia aumentou de uma forma que nunca tínhamos visto antes".

O comissário diz que as operações estão a evoluir "para ataques físicos" e sugeriu que a guerra na Ucrânia pode levar a táticas russas mais agressivas nos próximos meses, se os operacionais forem transferidos para as zonas do Báltico.

"Temos de encarar os factos. A Rússia é suficientemente grande para ter recursos para travar uma guerra contra a Ucrânia e também para manter as suas operações de segurança contra os países europeus... contra nós. Há pessoas que participam na guerra contra a Ucrânia e depois são transferidas para outra região ou área. Têm mais experiência. A sua mentalidade é mais violenta. Talvez já não sejam tão pacientes a tentar obter resultados".

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