O major-general Ivan Popov está de regresso ao campo de batalha. Vai liderar um batalhão especialista em morrer

CNN , Tim Lister e Katharina Krebs
15 abr 2025, 14:24
Soldado

Tinha sido detido há dois anos por ter feito críticas à hierarquia militar russa. Agora foi libertado e deram-lhe um "cálice envenenado", "uma sentença de morte"

General russo afastado após críticas à hierarquia militar regressa ao campo de batalha – agora à frente de unidade composta por ex-reclusos

por Tim Lister e Katharina Krebs, CNN

 

Um dos generais russos mais críticos da hierarquia, e que foi destituído e detido após ter feito um ataque feroz ao Ministério da Defesa há dois anos, está de regresso à frente de combate, segundo o seu advogado.

Mas, de acordo com os meios de comunicação estatais russos, foi-lhe dado um “cálice envenenado”: o comando de uma unidade de ex-prisioneiros na linha da frente – um batalhão que sofreu perdas devastadoras na Ucrânia.

Há dois anos, o major-general Ivan Popov era o condecorado comandante do 58.º Exército Combinado no sul da Ucrânia, recebendo elogios pela sua liderança.

Depois cometeu um erro – enviou um áudio a alguns colegas em que criticava duramente a liderança do Ministério da Defesa, afirmando que tinha sido afastado por se queixar da situação.

“As forças armadas da Ucrânia não conseguiram romper as nossas linhas pela frente, (mas) o nosso comandante superior atingiu-nos pelas costas, traindo e decapitando miseravelmente o exército no momento mais difícil e tenso”, disse Popov nessa mensagem enviada em julho de 2023.

A maioria das suas críticas visava o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, Valery Gerasimov.

Popov afirmou que, ao queixar-se da falta de apoio de artilharia e de outros problemas, “os comandantes superiores sentiram perigo em mim e rapidamente, num só dia, fabricaram uma ordem para o ministro da Defesa, afastaram-me da cadeia de comando e livraram-se de mim”.

Kateryna Stepanenko, do Instituto para o Estudo da Guerra, sediado em Washington DC, nos EUA, afirma que a demissão de Popov “revoltou os ultranacionalistas russos, oficiais e veteranos, que acusaram o Ministério da Defesa de o afastar para encobrir problemas nas forças armadas russas”.

Na época, o topo da hierarquia militar estava particularmente sensível a críticas - menos de um mês depois da revolta fracassada do líder do grupo Wagner, o falecido Yevgeny Prigozhin.

E a situação de Popov ainda pioraria. Inicialmente foi enviado para a Síria como comandante-adjunto do contingente russo naquele país, mas em maio do ano passado foi detido por suspeitas de fraude, uma acusação que sempre negou.

O Ministério Público chegou a pedir uma pena de seis anos de prisão em caso de condenação e Popov foi oficialmente expulso das Forças Armadas. Ainda assim, os seus apoiantes mantiveram-se ativos na sua defesa.

Popov, detido por suspeitas de fraude, comparece a uma audiência no tribunal militar em Moscovo, Rússia, a 27 de maio de 2024 foto Evgenia Novozhenina/Reuters

Stepanenko acredita que o Kremlin “falhou, em grande medida, em convencer os ultranacionalistas russos, oficiais e veteranos da alegada implicação de Popov no caso de desvio de fundos, o que resultou numa reação persistente nas redes sociais”.

Popov chegou mesmo a escrever uma carta aberta ao presidente russo, Vladimir Putin, publicada pelos meios estatais no final de março, pedindo para voltar ao campo de batalha. Descreveu Putin como o seu “guia moral e modelo”, cujo exemplo “me fez finalmente compreender o significado das lendárias palavras: ‘cabeça fria, coração quente e mãos limpas'”.

O desejo de Popov foi agora concedido, ainda que com reservas.

Na semana passada, os meios de comunicação estatais russos noticiaram que o seu advogado e o Ministério da Defesa tinham chegado a acordo para permitir que Popov regressasse ao serviço ativo, em vez de enfrentar uma possível condenação.

O advogado, Sergei Buinovsky, foi citado pela agência TASS ao dizer: “Temos, juntamente com o Ministério da Defesa, uma moção para suspender o processo… com a decisão positiva de enviar Ivan Ivanovich para a SVO (Operação Militar Especial)”. Moscovo continua a usar este termo para se referir à invasão em larga escala da Ucrânia, lançada em 2022.

Ainda não foi confirmado se o tribunal militar aprovou o acordo, mas os apoiantes de Popov entre os bloggers militares russos celebraram.

“O lendário general de combate voltou à frente de batalha!”, escreveu Vladimir Rogov, um influente blogger.

Mas havia um senão. Popov não regressaria ao seu estimado 58.º Exército.

Na quinta-feira, o jornal russo Kommersant noticiou que Popov seria “enviado para a SVO - não como soldado raso mas como comandante de uma das unidades Storm Z”, citando uma fonte nas forças de segurança.

No mesmo dia, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, recusou comentar, durante uma conferência de imprensa com jornalistas, “a intenção do general Popov, acusado de desvio de fundos, de participar na operação especial”.

No entanto, Stepanenko descreve esta missão como “praticamente uma sentença de morte, pois o comando militar russo utiliza principalmente os destacamentos penais ‘Storm Z’ em assaltos frontais suicidas".

Militares ucranianos disparam contra tropas russas a partir de uma posição na linha da frente, perto da cidade de Toretsk, na região de Donetsk, Ucrânia, a 7 de abril de 2025 foto Oleksandr Ratushniak/Reuters

O Kremlin continua a apoiar o uso de prisioneiros em combate. Putin prometeu recentemente conceder estatuto de veterano aos membros da Storm Z.

“Vamos certamente resolver isso. Não vejo qualquer problema aqui”, disse Putin numa reunião no mês passado. “Tenho ótimas ligações, vou chegar a um acordo com o governo e com os deputados”, acrescentou.

À medida que as forças russas procuram aumentar o número de oficiais experientes na Ucrânia, recorrem cada vez mais àqueles que caíram em desgraça.

“Parece que Putin criou um novo sistema de redenção, no qual responsáveis e comandantes desonrados têm uma oportunidade de recuperar o favor do presidente, desde que confessem publicamente os seus crimes e se ofereçam para combater na Ucrânia”, afirma Stepanenko.

Popov nega as acusações que lhe são imputadas e o tribunal militar ainda não aprovou oficialmente o acordo entre a sua defesa e o Ministério da Defesa.

Mas está bem familiarizado com as notórias unidades russas de ex-reclusos - que desempenharam um papel central na ofensiva contra Bakhmut, em 2023, tendo sofrido enormes perdas no processo.

Quando liderava o 58.º Exército, Popov estava ligado a um batalhão de antigos prisioneiros conhecido como “Storm Gladiator”, uma unidade de assalto especial dentro do grupo Storm Z.

Esta unidade integrava “centenas de condenados com experiência militar prévia, que receberam treino de antigos elementos do Grupo Wagner e das forças chechenas ‘Akhmat’”, afirma Stepanenko. Mas sofreu baixas significativas nas chamadas “ofensivas de moedor de carne”, assaltos frontais de infantaria contra posições fortemente defendidas. Investigações indicam que os destacamentos da Storm Gladiator tinham uma taxa de sobrevivência de apenas 40%.

Quando regressar ao campo de batalha, Popov vai precisar de toda a sua experiência militar para manter vivo o seu batalhão de ex-reclusos - e a si próprio.

E.U.A.

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