Quem é, afinal, "Maria Adela Rivera" - a espia russa que se fez passar por socialite para se infiltrar numa base da NATO

CNN Portugal , FMC
28 ago, 17:35
"Maria Adela" a espia russa que enganou membros da NATO e da Marinha dos EUA

Espia russa apresentava-se como socialite e designer de jóias. Esteve durante anos infiltrada no comando conjunto das forças aliadas da NATO, sediado na cidade italiana de Nápoles

Apresentava-se como descendente de pai alemão e mãe peruana, e natural da cidade de Callao, no Peru. Durante décadas viajou pelo mundo com o nome de Maria Adela Kuhfeldt Rivera, afirmando ser designer de jóias. Acabou por se estabelecer durante uns anos na região italiana, onde vendia as suas criações e festejava com membros da NATO e da Marinha norte-americana.   

Bellingcat, em cooperação com vários jornais, como o La Repubblica, em Itália, e o Der Spiegel, na Alemanha, concluíram que, na verdade, a conhecida “Maria Adela Rivera” era uma agente infiltrada da GRU (Glavnoye Razvedyvatel'noye Upravleniye, ou serviço secreto militar russo).   
 

O líder da investigação, Christo Grozev, explicou numa entrevista ao The Guardian que o nome de “Maria Adela” destacou-se quando este analisava uma base de dados de passagens fronteiriças obtida por um grupo de hackers bielorrussos da oposição ao regime de Alexander Lukashenko. Entre os vários passaportes com nomes russos, o nome latino chamou à atenção.

Ao aprofundar a questão, descobriu que a alegada agente já teria usado mais do que um passaporte russo, sendo que os documentos tinham números próximos a outros que a GRU tinha fornecido a outros espiões e que tinham sido divulgados. 

A utilização de passaportes russos nestes casos não é comum, contudo, terá sido a solução encontrada depois de “Maria Adela” não ter conseguido adquirir a cidadania peruana. Em 2006, os serviços do Peru rejeitaram o pedido por perceberem que se sustentava em informações falsas.   

Mantendo o nome, foi viajando com a identidade falsa e com o passaporte emitido pela Rússia. À procura de respostas, os investigadores questionaram diversas pessoas que tiveram contacto com a socialite e, segundo relataram, “Maria Adele” contava que teria sido levada pela mãe para ver os Jogos Olímpicos em 1980 na União Soviética e, posteriormente, abandonada, ficando aos cuidados de uma família russa. Segundo afirmava, o pai adotivo abusava dela e foi por isso que quis sair do país e refugiar-se no continente europeu.   

Movimentando-se pela Europa, chegou a viver em Paris e Roma, acabando por se instalar, em 2013, na região de Nápoles, onde construiu a sua boutique de jóias e de artigos de luxo, a Serein - marca que já havia registado em Paris. Descrita como uma mulher “cosmopolita e autoconfiante” conseguiu ganhar um certo estatuto social, levando-a a várias festas formais, onde travou conhecimentos com funcionários da NATO e com representantes da Marinha dos Estados Unidos. Foi em Itália que a construção da sua história mais ganhou cor e que a carreira se elevou.   

Foi graças ao convite que recebeu para ser secretária na filial de Nápoles do Lions Clube Internacional - potenciado por ser considerada uma “conexão internacional vibrante” - que conseguiu travar relações com vários membros da NATO, o que incluía não apenas americanos, mas também funcionários e oficiais belgas, italianos e alemães.  

Alguns desses contactos prestaram declarações à Bellingcat, referindo que a mulher narrava uma história “pouco convincente”, que tinha uma vida pessoal caótica e que certos factos da sua vida eram de difícil explicação. Como tal, alguns afirmaram que mantinham as conversas com a “Maria Adela” restritas à sua vida amorosa e em contextos sociais, mantendo um certo cuidado nas informações partilhadas.   

A investigação descobriu ainda que "Rivera" deixou o país italiano a 15 de setembro de 2018, com destino a Moscovo, especulando que terá sido retirada da sua missão por medo que tivesse sido comprometida. No dia anterior ao seu desaparecimento, a Bellingcat e a Inside (parceira de investigação), publicaram um artigo em que denunciavam as identidades dos perpetradores de envenenamentos do agente Sergey Skripal e do fabricante de armas búlgaro Emilian Gebrev, alegando que estavam relacionados com os serviços secretos russos.   

Depois de traçados alguns pontos da vida mascarada de Maria Adela Kuhfeldt Rivera, os investigadores procuraram pistas sobre a verdadeira identidade, desconfiando que, afinal, se trata de Olga Kolobova, uma filha de um coronel da Rússia.   

Não se sabe ao certo se “Maria Adela” conseguiu, nos seus vastos contactos sociais, acesso a alguma informação relevante e perigosa, nem se tem a certeza se permanece ainda na Rússia.  

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