Derradeiro tratado nuclear entre EUA e Rússia prestes a expirar enquanto Trump e Putin trocam ameaças de testes

CNN , Kylie Atwood
16 nov, 13:30
O Presidente Donald Trump e o Presidente russo Vladimir Putin chegam para uma conferência de imprensa na Base Conjunta Elmendorf-Richardson, a 15 de agosto, em Anchorage, Alasca. Andrew Harnik/Getty Images

Após mais de três décadas de dissuasão e não-proliferação, o mundo está à beira de uma nova corrida ao armamento nuclear

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, passaram as últimas semanas a trocar ameaças de retomar os testes nucleares, uma escalada iniciada pelas declarações de Putin sobre os testes do míssil nuclear Poseidon no final de outubro.

Dias depois, Trump declarou que havia ordenado o primeiro teste nuclear dos EUA em três décadas.

As declarações públicas dos líderes em tom de provocação, incluindo uma resposta russa de que também exploraria a possibilidade de retomar os testes de armas nucleares, aumentaram as preocupações globais sobre uma nova corrida ao armamento nuclear. Nos bastidores, ambos os lados também estão de olho num prazo crítico que está a aproximar-se: 4 de fevereiro, quando o único acordo de controlo de armas nucleares remanescente entre as duas nações vai expirar.

O tratado New START limita ambos os países a um máximo de 1.550 ogivas nucleares de longo alcance implantadas em sistemas de lançamento, incluindo mísseis balísticos intercontinentais, mísseis balísticos lançados por submarinos e bombardeiros. Após uma prorrogação de cinco anos assinada pelo então presidente norte-americano, Joe Biden, o tratado deve expirar no início do próximo ano, com poucos indícios de progresso rumo a um novo acordo.

Segundo quatro fontes familiarizadas com a reunião, o Conselho de Segurança Nacional de Trump convocou uma reunião com especialistas em armas nucleares durante o período que antecedeu a cimeira entre Trump e Putin que teve lugar em agosto.

A discussão abrangente incluiu os potenciais benefícios de alargar o limite atual de armas nucleares implantadas que os EUA e a Rússia acordaram, a possibilidade de expandir o tamanho do arsenal nuclear dos EUA e o status da tríade nuclear dos EUA, disseram as mesmas fontes.

A Casa Branca queria estar preparada para qualquer possível discussão nuclear entre os dois líderes dos maiores arsenais nucleares do mundo.

Contudo, a reunião dos líderes terminou sem nenhum avanço para o fim da Guerra da Ucrânia ou o anúncio de qualquer novo acordo sobre armas nucleares.

Quando Putin propôs publicamente uma extensão do único acordo duradouro de controlo de armas nucleares entre os EUA e a Rússia semanas depois, Trump respondeu positivamente. "Parece-me uma boa ideia", disse.

Ainda assim, mais de um mês depois, nenhum dos lados afirma que as negociações para atingir esse objetivo estejam em andamento.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse na quarta-feira que há conversas sobre "potencialmente" falar com a Rússia sobre o tratado.

A Rússia suspendeu a participação num mecanismo de monitorização crucial do tratado em 2023, embora este já estivesse essencialmente paralisado devido à recusa da Rússia em permitir inspeções às suas instalações nucleares. Essas inspeções foram suspensas durante a pandemia de Covid-19, mas nunca foram retomadas após o seu término, em grande parte devido à oposição dos EUA à invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Ainda assim, ambos os lados parecem ter mantido a adesão ao limite do tratado para armas nucleares estratégicas.

As questões sobre se esses limites permanecerão em vigor surgem num momento em que os russos estão a testar novos sistemas nucleares – embora não haja relatos de testes de ogivas – e em que os chineses estão a desenvolver e a expandir rapidamente o seu arsenal nuclear e balístico.

Um teste atómico subterrâneo fotografado a 23 de março de 1955 no Campo de Testes do Nevada, perto de Yucca Flats. foto Comissão de Energia Atómica dos EUA via AP, Arquivo

Os especialistas não estão preocupados com uma calamidade repentina caso não haja uma forma de limite acordado, mas seria a primeira vez em décadas que os EUA e a Rússia poderiam implantar armas nucleares de longo alcance sem restrições. E essa situação poderia desencadear erros de cálculo perigosos.

“A maior preocupação é que, pela primeira vez desde 1991, os EUA não tenham qualquer restrição mútua com a Rússia em relação a armas estratégicas”, diz Corey Hinderstein, vice-presidente de estudos do Carnegie Endowment for Nuclear Peace. “A par da contenção, vieram também muitas outras verificações mútuas – e ficar cego desta forma pela primeira vez em mais de 30 anos pode levar a mal-entendidos, erros de cálculo e falta de envolvimento que poderia ser importante para evitar uma crise.”

Alguns especialistas apontam que um acordo político entre os dois lados para manter o limite do tratado sobre armas nucleares implantadas seria eficaz e poderia ser feito de uma forma relativamente rápida.

As autoridades russas indicaram que o país não insistirá indefinidamente na sua proposta de prorrogação. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia classificou a sugestão de Putin de renovar uma “oferta limitada por um período limitado” em pelo menos uma reunião privada, segundo uma fonte familiarizada com as declarações.

Os EUA não responderam oficialmente à proposta da Rússia, adiantaram duas fontes. Há uma crescente pressão republicana para que não se concorde com uma prorrogação do acordo, mas Trump expressou interesse em definir limites para armas nucleares e controlo de armas não apenas com a Rússia, mas também com a China.

“O presidente decidirá o caminho a seguir em relação ao controlo de armas nucleares, que ele próprio esclarecerá a seu tempo”, aponta um funcionário da Casa Branca. “O presidente Trump falou repetidamente sobre como lidar com a ameaça que as armas nucleares representam para o mundo e indicou que gostaria de manter os limites para armas nucleares e envolver a China nas negociações de controlo de armas.”

Prorrogar ou não prorrogar

Os testes russos do drone submarino Poseidon, movido a energia nuclear, e de um míssil de cruzeiro com capacidade nuclear ocorreram logo após a proposta de Putin de alargar o tratado, numa aparente tentativa russa de pressionar os EUA a negociar. Mas as ações foram "contraproducentes", explica um funcionário americano.

Embora o desenvolvimento das armas não estivesse coberto pelo tratado, "testá-las frustrou as autoridades americanas, que viram a ação como uma demonstração de força por parte da Rússia", adianta o funcionário.

"Eles também perceberam claramente que prorrogar o Novo START não impediria a Rússia de realizar mais testes desses sistemas", acrescenta a mesma fonte.

Na verdade, esses testes afastaram ainda mais Trump da possibilidade de discutir um acordo subsequente com Putin, dizem fontes.

Altos funcionários dos setores nuclear e energético deverão reunir-se esta semana com Trump para tentar dissuadi-lo de realizar testes de ogivas nucleares, num esforço para encontrar uma saída para a crescente retórica nuclear, como noticiado em exclusivo pela CNN.

Alguns legisladores democratas instaram Trump a trabalhar para substituir o tratado, e há uma urgência renovada após as declarações de Trump e Putin sobre os testes.

Mas outros legisladores, e alguns especialistas, argumentam que Trump não deve prolongar o acordo.

“O Novo START limita os EUA aos níveis de armas nucleares implantadas de 2011, então, se uma extensão só é aceitável se estivermos confiantes em ter limites de acordo com um mundo que já não existe”, diz Frank Miller, diretor do Scowcroft Group, que trabalhou durante décadas em política nuclear e controlo de armas no Pentágono. “A questão é que o acordo atual impede os EUA de fazerem o upload – que é colocar mais ogivas nos nossos mísseis para atingir a China e a Rússia simultaneamente – e tira o ímpeto da modernização.”

Há algumas preocupações sobre a capacidade da comunidade dos serviços de informação dos EUA de manter uma avaliação precisa do arsenal nuclear da Rússia se o tratado deixar de estar em vigor.

“Quando deixa de haver um tratado, deixar de haver a obrigação legal de monitorizar o cumprimento do tratado, e é possível que a confiança dos EUA no que a Rússia está a fazer se deteriore lentamente com o tempo”, ressalta Jon Wolfsthal, diretor de risco global da Federação de Cientistas Americanos.

A complicar o cenário das negociações entre EUA e Rússia está o interesse de Trump em potencialmente incluir a China num acordo tripartido – uma ideia que a sua administração tentou ativamente promover durante o seu primeiro mandato.

Na altura, funcionários do governo Trump acreditavam que a China poderia envolver-se de forma efetiva se os EUA e a Rússia concordassem em congelar, por um período de um ano, a produção de novas ogivas e a implantação de ogivas nucleares, explica um ex-funcionário. A China também estava a começar a conversar com os EUA sobre o assunto, embora a um nível muito baixo.

“Acreditávamos que, quando a China começou a envolver-se em conversas sobre conversas, se havia resignado à inevitabilidade de ter de negociar eventualmente – e estávamos a construir a influência para levá-los a isso”, aponta o mesmo funcionário.

Só que quando Biden venceu as eleições em 2020, os chineses e os russos recuaram das negociações discretas. Biden rapidamente prolongou o New START por cinco anos, colocando a questão diretamente nas mãos de Trump mais uma vez.

Com o programa nuclear chinês em andamento, muitos acreditam que a China não vai sentar-se à mesa de negociações até que alcance a paridade com os EUA em termos de quantidade de armas nucleares que o país possui, o que se espera que aconteça em 2030.

"Somos a maior potência nuclear, algo que detesto admitir, porque é horrível. Seria uma situação terrível se tivéssemos de usar essas armas. A Rússia é a segunda, a China está num distante terceiro lugar, mas conseguirá alcançar-nos em quatro ou cinco anos", disse Trump no início deste mês. "Talvez estejamos a trabalhar num plano para a desnuclearização dos três países."

As autoridades americanas afirmam que não há nenhum plano em andamento para impulsionar um acordo trilateral.

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