Brent Renaud, o jornalista americano que morreu na Ucrânia e que estava habituado à guerra

13 mar, 23:30
Brent Renau. (Photo de Todd Williamson/Invision para IDA/AP Images)

Tinha 50 anos e um dos currículos mais invejáveis do jornalismo, tendo escrito, fotografado e filmado para meios de comunicação como HBO, NBC e The New York Times. Brent Renaud morreu, este domingo, durante um ataque russo em Irpin, perto de Kiev

Estava em reportagem num dos subúrbios de Kiev. Procurava mais uma história em mais um cenário de guerra. Acabou por ser ele a história. Pelos motivos mais funestos. E fúnebres: Brent Renaud, jornalista, videorepórter, cineasta premiado, foi abatido a tiro este domingo durante um ataque russo em Irpin, no extremo noroeste de Kiev, Ucrânia, enquanto circulava de carro com um colega de profissão e um civil ucraniano. 

A morte do jornalista foi primeiro denunciada por um colega da France-Presse, depois avançada pelas autoridades ucranianas, depois confirmada por um médico que se encontrava no local. 

O jornalista norte-americano estava no país ao serviço da revista Time. Foi a própria publicação que confirmou a situação, esclarecendo que Brent Renaud estava naquele país a fazer um trabalho sobre a crise de refugiados no mundo inteiro.

"Os nossos corações estão com os entes queridos do Brent", escreve a publicação, que destaca o papel "essencial" dos jornalistas na cobertura de situações deste género.

Brent Renaud foi jornalista em várias agências de notícias e meios de comunicação americanos, como HBO, NBC e The New York Times, e foi distinguido com dois dos maiores prémios de comunicação e jornalismo nos Estados Unidos, o DuPont Award e o Peabody, que venceu com a série Last Chance High, que mostrou a violência e as lutas emocionais dentro das escolas de Chicago e cuja reportagem foi divulgada no site Vice. 

A última publicação que Brent Renaud fez nas redes sociais remonta ao dia 8 de março, estando já na Ucrânia.

Esta não era a primeira guerra que Brent Renaud acompanhava de perto, no risco iminente de um ataque. Nem o primeiro trabalho de risco que fazia. O jornalista fez reportagens no Afeganistão e no Iraque, tendo ido juntamente com o exército norte-americano. Reportou o caos no Haiti, após o tsunami, e entre muitos outros lugares locais. Também mostrou e denunciou a violência dos cartéis de drogas no México, relatou a turbulência política no Egito e na Líbia e deu a conhecer o mundo das drogas em algumas escolas nos Estados Unidos, conta o The Independent.

Brent Renaud foi um dos bolsistas da Nieman Foundation for Journalism da Universidade de Harvard em 2019. 

Nas últimas duas décadas, Brent Renaud produziu filmes e programas de televisão com seu irmão Craig Renaud. Os dois, que tiveram várias indicações para Emmy, cresceram em Little Rock, no estado de Arkansas, onde fundaram o Little Rock Film Festival, um evento anual de cinema e cultura, e que permeia as melhores narrativas, documentários e curtas-metragens, que podem ser criados por cineastas e jornalistas de todo o mundo.

De momento tinha em fase de pós-produção do documentário Haiti Hospital, com base na reportagem que fez com o irmão para o The New York Times aquando do sismo seguido de tsunami que abalou a região.  

Cliff Levy, editor-chefe adjunto do The New York Times, jornal para o qual Renaud não trabalhava desde 2015 - apesar de ter na sua posse um cartão de imprensa em nome do jornal no momento em que morreu -, foi um dos primeiros a reagir à morte do colega nas redes sociais.

“Acabo de sair do local na beira da estrada perto de Irpin, onde o corpo do jornalista americano Brent Renaud estava debaixo de um cobertor. Os médicos ucranianos não puderam fazer nada para ajudá-lo. Polícia ucraniano indignado: ‘Diga à América, diga ao mundo, o que eles fizeram com um jornalista’”, escreveu no Twitter Jane Ferguson, colaboradora na revista The New Yorker.

Com Brent Renaud estava o jornalista norte-americano Juan Arredondo, que ficou ferido mas já está a receber tratamento. Num vídeo que gravou momentos depois do ataque, Arredondo disse que Renaud foi “alvejado” no pescoço e “deixado para trás”. No momento em que gravou o vídeo, Juan Arredondo ainda não sabia que o colega estava morto.

À CNN Internacional, o conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos Jake Sullivan considerou o acontecimento como “chocante e horrível” e como “mais um exemplo da brutalidade de Vladimir Putin e das suas forças”, revelando que os Estados Unidos estão a trabalhar para agravar as sanções até agora impostas.

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