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Se foi mesmo um míssil russo a abatê-lo, o avião da Azerbaijan Airlines não tinha de ficar desfeito logo no ar? Sim e não

27 dez 2024, 18:00

Tudo parece apontar para a Rússia, mas a Rússia não confirma nem desmente um possível envolvimento na queda de um avião da Azerbaijan Airlines. A Reuters noticiou que o avião foi abatido por um sistema russo de defesa antiaérea, os EUA alinham com a tese a companhia aérea diz que houve “interferência física e técnica do exterior”, os especialistas veem indícios de “aselhice” e de algo pior: “Não foi um bando de pássaros, de certeza”. Morreram pelo menos 38 pessoas

Um avião comercial a sobrevoar um espaço aéreo outrora frequentado por drones ucranianos devia ter sido devidamente identificado e não foi. E está aqui a possível falha número um. Esse mesmo espaço aéreo devia ter sido encerrado ainda antes do incidente e não foi. E está aqui a possível falha número dois. Culpar pássaros pelo despenhamento de um avião comercial quando há imagens de perfurações- está aqui a falha número três. A “azelhice”, que ainda não se sabe se foi humana ou técnica, veio do sistema de defesa antiaéreo de Moscovo, dizem os especialistas, que dão força à tese de ‘mão’ russa no abate do avião da Azerbaijan Airlines.

O tenente-general Marco Serronha considera que o mais plausível é que tenha havido um “descontrolo” por parte da defesa aérea russa no incidente que envolveu o Embraer 190 da Azerbaijan Airlines. Mas isso não seria motivo para que a aeronave se desfizesse no ar? Sim e não. Há ainda muitas dúvidas, sobretudo sobre a falha dos russos, mas uma coisa é certa, diz MArco Serronha: “Aconteceu aqui alguma coisa de muito estranho - e não é um bando de pássaros, de certeza”. As duas caixas negras do Embraer 190 da Azerbaijan Airlines já foram recuperadas, mas ainda antes de se conseguir saber o que podem provar, esta tese de que foram os pássaros a causar a queda do avião comercial começou a perder força poucas horas depois do acidente, quando os Estados Unidos colocaram em cima da mesa a hipótese de o avião ter sido abatido por russos. E o próprio New York Times diz ter visto imagens de perfurações no avião que jamais teriam sido causadas por pássaros.

Os norte-americanos asseguram que há indícios de que um sistema russo atingiu o voo J2-8243 da Azerbaijan Airlines antes de este se ter despenhado perto de Aktau, no Cazaquistão e que tal aconteceu devido a um erro de identidade, muito por culpa daquilo que dizem ser resultado de unidades russas mal treinadas que disparam negligentemente contra a utilização de drones pela Ucrânia. 

Andriy Kovalenko, chefe do Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia - parte do Conselho de Segurança e Defesa Nacional ucraniano -, e especialistas britânicos em defesa antiaérea - citados pela BBC Radio 4 - reforçam esta teoria de abate lançada pelos Estados Unidos e pela agência Reuters. Fontes do governo do Azerbaijão confirmaram igualmente à Euronews que um míssil terra-ar russo causou a queda do avião e o canal AnewZ noticia que uma investigação preliminar concluiu que o avião foi atingido por estilhaços de um míssil terra-ar do sistema de defesa Pantsir-S da Rússia. 

“Este tipo de situações pode acontecer, mas àquela distância e, sendo uma aeronave civil, parece-me que houve um erro do operador de radar - que identificou aquela imagem como sendo a de um drone ucraniano e foram dadas ordens de abate”, afirma o major-general Isidro Morais de Pereira, acrescentando que “houve erro ou humano ou técnico”.

Se a tese do abate russo for verdadeira, porque é que os sistemas antiaeréos falharam? 

O site Flightradar24 diz que o avião em causa foi “exposto a interferência e falsificação de GPS perto de Grozny” - cidade destino do avião - e que os vídeos do acidente também “indicam possíveis problemas de controlo com a aeronave”.

Os alegados problemas no controlo do avião da Azerbaijan Airlines parecem ser explicados pelo eventual embate do míssil ou dos seus fragmentos. Mas se atingiu o avião comercial, então algo falhou. E o mais certo é que tenha sido o sistema de identificação.

“Os sistemas de defesa antiaéreos funcionam com uma linha de vista, fundamentalmente ligados a radares. Quando o radar deteta um determinado aparelho, pode ser um drone ou avião, pode haver erros de identificação, pode haver um erro do operador do próprio radar, que pode identificar de forma errónea um determinado alvo aéreo e dar ordens para ser abatido como se fosse uma aeronave inimiga”, explica o major-general Isidro Morais de Pereira, que diz que “não é normal que aconteça um incidente destes - mas pode acontecer”.

Embora defenda que há “uma neblina sobre algo que a prazo terá de ser esclarecido” - até no que diz respeito à rota que o avião fez depois do alegado embate com o míssil -, o comandante João Fonseca Ribeiro também aponta o dedo a uma possível “falha do sistema de comando e controlo da defesa antiaérea” russa na hora de identificar os alvos, mas diz que faltam pormenores para saber em que consistiu essa falha. 

O tenente-general Marco Serronha explica, por seu turno, que “os sistemas antidrone que a Rússia está neste momento a utilizar são susceptíveis” a erros, podendo por isso estar na origem do  “descontrolo” relatado. 

O tenente-general refere-se ao Pantsir-S1, o que tem vindo a ser associado a este caso. “É um sistema de mísseis que tem uma versão para sistema antidrone”, afirma, dizendo que se trata de “um sistema que está montado em cima de um camião, que tem uma série de tubos, e a própria ação dos radares permite que o sistema automático daquilo faça a escolha dos alvos e vão saindo mísseis para determinados tipos de alvo”. “Pode ter havido ali algum descontrolo”, admite o tenente-general, apesar de dizer que é “estranho” o facto de a Rússia não ter interditado o espaço aéreo e não ter deixado o avião “aterrar no aeroporto mais próximo”, sabendo que aquela seria uma zona crítica.

“A Rússia devia ter fechado o espaço aéreo sobre Grozny mas não o fez”, crê Andriy Kovalenko, chefe do Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia, parte do Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia, especulando que as autoridades do Azerbaijão possam estar a tentar encobrir a verdadeira razão por trás do acidente, incluindo os buracos no avião, uma vez que seria "inconveniente" culpar a Rússia.

“Naquele espaço aéreo, aquele tipo de rota é usado por aeronaves civis. Houve ali aselhice por parte da guarnição das armas antiaéreas da região”, diz o major-general Isidro Morais de Pereira, defendendo que o espaço aéreo não deveria estar aberto.

Porque é que o avião não ficou totalmente destruído?

Os vídeos do acidente mostram o avião a dar voltas erráticas em torno do aeródromo antes de se despenhar. Ao atingir o solo, o avião incendiou-se, com alguns passageiros a saírem dos destroços pouco depois. Para Tiago André Lopes, especialista em Relações Internacionais, “a ideia de que foi um míssil terra-ar russo dos sistemas defensivos” não explica o facto de o avião não ter ficado totalmente destruído, uma vez que, a confirmar-se essa teoria, “teria levado a uma tragédia total e não parcial”.

Então, porque é que o avião não ficou totalmente destruído? Ora, esta é mais uma das muitas questões sem resposta. E parte dessa resposta depende do míssil - ou dos destroços de míssil - que terá atingido o avião. “O avião não ficou totalmente destruído e isso tem uma explicação”, explica Isidro Morais de Pereira. Em causa está o facto de haver “vários tipos de armas antiaéreas”, umas em que “os mísseis vão atrás das fontes de calor e que atingem os motores do aviões” e outras que “acabam por explodir por aproximação, nem precisam de tocar no alvo aéreo”, pois “lançam um conjunto de pequenos pedaços metálicos cilíndricos que atingem a fuselagem do avião, o suficiente para o avião se despenhar”.

Sobre este ponto, o major-general Agostinho Costa diz que, a confirmar-se a tese de que o avião foi atingido por mísseis russos, em causa pode estar o “míssil MPADS do tipo Stinger” que tem “um quilo de explosivo” e, por isso, “eventualmente pode ter sido a causa do acidente”, até porque, explica, “o avião não apresentava danos visíveis até aterrar” - e por isso Agostinho Costa questiona a teoria inicial de que a causa terá sido o “sistema de defesa aérea local”, o Pantsir-S1, uma vez que este tem “20 quilos de explosivo”, o suficiente para fazer com que o avião explodisse no ar em caso de embate. 

No entanto, o major-general Isidro Morais de Pereira diz que o Pantsir-S1, apesar de ter uma grande carga de explosivo, pode, na verdade, ter estado na origem do acidente, uma vez que é um drone que “explode a uma distância curta”.

Dos 68 passageiros que seguiam neste voo, algumas sobreviveram e o Cazaquistão já ordenou uma investigação ao incidente, assim como o Kremlin, que defende que “qualquer incidente de aviação deve ser investigado”, mas ainda não confirmou ou rejeitou qualquer envolvimento direto no incidente.

Se esta tese de abate se confirmar, esta é a segunda vez numa década que as forças russas destroem uma aeronave comercial - antes foi o MH17, na Ucrânia.

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