"Rainha da Cripto" enganou investidores em milhares de milhões de dólares. Depois, embarcou num avião e desapareceu

CNN , Faith Karimi*
23 jan, 11:44
Ruja Ignatova num evento para investidores da OneCoin, em 2016. em Londres. Créditos: Cryptoqueen/Facebook

Ruja Ignatova entrou no palco com um vestido de baile vermelho-escuro adornado com brilhos pretos. Feixes de luz piscaram, bolas de fogo explodiram e "Girl on Fire" de Alicia Keys tocou nos altifalantes.

"Parece uma rapariga, mas ela é fogo. Tão brilhante, que pode queimar os seus olhos - é melhor olhar para o outro lado", podia ouvir-se na canção enquanto uma Ignatova radiante agradecia à multidão que aplaudia na Arena Wembley de Londres.

Foi em junho de 2016, quando a criptomoeda era uma palavra emergente e os investidores estavam a fazer uma grande aposta. Ignatova autodenominou-se "Cryptoqueen" ("Rainha da Cripto", na tradução em português) e divulgava a sua empresa, a OneCoin, como uma rival lucrativa da Bitcoin no crescente mercado de criptomoedas.

"Dentro de dois anos, ninguém mais falará da Bitcoin", disse, enquanto os investidores aplaudiam e assobiavam.

Dezasseis meses mais tarde, Ignatova embarcou num avião em Sófia, Bulgária, e desapareceu. Não foi mais vista desde então.

As autoridades dizem que a OneCoin foi um esquema em pirâmide que lesou várias pessoas em mais de 4 mil milhões de dólares, depois de Ignatova ter convencido investidores nos EUA e em todo o mundo a darem muito dinheiro à sua empresa. Os procuradores federais descrevem a OneCoin como um dos maiores esquemas de fraude internacional jamais perpetrados.

Ruja Ignatova é uma das 10 fugitivas mais procuradas pelo FBI - e a única mulher atualmente na lista. Créditos: FBI

Ela é agora uma das 10 fugitivas mais procuradas pelo FBI, ao lado de líderes de gangues e assassinos, e é a única mulher atualmente na lista. Dos 529 fugitivos na lista do FBI desde o seu lançamento em 1950, ela é uma das 11 mulheres mais procuradas de sempre.

Ignatova e os seus associados "enganaram vítimas inocentes em milhares de milhões de dólares, alegando que a OneCoin seria o 'Assassino da Bitcoin' ['Bitcoin Killer' no original]", afirmou Damian Williams, o principal procurador de Nova Iorque, numa declaração no mês passado.

"Na verdade, as OneCoins não valiam nada. As suas mentiras foram concebidas com um único objetivo, conseguir que pessoas comuns em todo o mundo entregassem o seu dinheiro tão arduamente ganho."

Ela sabia que era um esquema desde o início

Desde que Ignatova desapareceu em outubro de 2017 que o seu rosto está bem destacado no site do FBI e nos principais meios de comunicação social em todo o mundo. Ela é também uma das fugitivas mais procuradas na Europa.

A acompanhar a sua fotografia no site do FBI está a seguinte informação: "Acredita-se que Ignatova viaja com seguranças armados e/ou associados. Ignatova pode ter feito cirurgias plásticas ou alterado a sua aparência".

O FBI diz que escolhe os fugitivos para a sua lista com base na extensão dos seus registos criminais e no quão perigosos podem ser. Mas também destaca os fugitivos pouco conhecidos para maximizar o benefício da publicidade do programa a nível nacional.

O departamento federal recusou-se a fornecer mais detalhes à CNN para além dos documentos do tribunal, que não atribuiu um advogado a Ignatova. "Este caso é uma investigação em curso. Não podemos comentar para além do que já foi divulgado publicamente", disse Daniel Crifo, porta-voz do gabinete do FBI em Nova Iorque.

Mas os documentos do tribunal detalham uma narrativa arrebatadora: como Ignatova e o cofundador da OneCoin Karl Sebastian Greenwood estavam alegadamente conscientes desde o início de que o seu ambicioso negócio era um esquema em pirâmide.

"A criptomoeda OneCoin foi criada com o único objetivo de enganar os investidores", disse o agente especial fiscal John R. Tafur, em comunicado.

Ignatova autointitulava-se "Rainha da Cripto" ("Criptoqueen", em inglês) e divulgava a sua empresa OneCoin como uma rival lucrativa da Bitcoin no crescente mercado de criptomoedas. Créditos: Procuradoria de Nova Iorque

Enquanto Greenwood e Ignatova trabalhavam no conceito da OneCoin, referiam-se a ele em e-mails como uma "moeda de lixo", segundo documentos do tribunal. Estes mostram também que Greenwood descreveu os seus investidores como "idiotas" e "loucos" num e-mail ao irmão de Ignatova, Konstantin Ignatov, que também participou no esquema e assumiu a liderança da OneCoin depois do desaparecimento da sua irmã, de acordo com a investigação.

"Pode não ser (algo) realmente limpo ou em que eu normalmente trabalhe ou mesmo do qual me possa orgulhar (excepto contigo quando ganhamos o dinheiro)", escreveu Ignatova a Greenwood em 2014.

Ela também propôs uma estratégia de fuga caso tudo corresse mal, dizendo num e-mail de 2014 a Greenwood que eles deveriam "agarrar no dinheiro, fugir e culpar outra pessoa".

Desde muito jovem que Ignatova queria ser rica

Ruja Ignatova, 42 anos, é cidadã alemã, mas nasceu na Bulgária, onde o seu pai era engenheiro e a sua mãe professora.

No livro "The Missing Crypto Queen" ("A Rainha da Criptomoeda Desaparecid", na tradução literal), a autora Jamie Bartlett detalhou a sua ascensão desde um modesto início ao estrelato empresarial.

Quando era criança, a sua família mudou-se para a Alemanha, onde Ignatova se distinguiu como aluna e passava o seu tempo livre a estudar e a jogar xadrez, escreveu Bartlett. Os colegas de turma descreviam-na como inteligente, motivada e distante.

Ignatova ganhou uma bolsa de estudo para uma universidade em Konstanz, onde conheceu e casou com um colega de Direito. Ela disse que não queria ter filhos, escreveu Bartlett, porque eles iriam atrapalhar a sua aquisição de riqueza.

Ela também disse às pessoas que queria ser milionária aos 30 anos.

"Ela queria desesperadamente ser rica, devorando mesmo livros, em jovem, sobre como ganhar dinheiro", escreveu Bartlett.

Depois de estudar Direito Europeu na Universidade de Oxford, Ignatova conseguiu um emprego em Sófia como consultora da McKinsey & Company, empresa internacional de consultoria de gestão.

Os clientes confiavam nela e relacionavam-se com a sua origem humilde e desejo feroz de ser rica, escreveu Bartlett. A sua fluência em línguas, incluindo russo, alemão, inglês e búlgaro, também ajudou.

As aparências eram importantes para Ignatova, que costumava comparecer em eventos com vestidos de gala, batom vermelho e diamantes pendurados nas orelhas.

"Tudo exibia sucesso e glamour", escreveu Bartlett. "Ela era obcecada pelo estilo e pela imagem."

Konstantin Ignatov declarou-se culpado de fraude e outras acusações relacionadas com a empresa da sua irmã. Deve ser condenado em fevereiro. Créditos: Instagram de Konstantin Ignatov

OneCoin terá prometido aos investidores um retorno de cinco a dez vezes mais

As criptomoedas como a bitcoin são ativos digitais criados e geridos por uma rede global e descentralizada de computadores em vez de um banco ou governo. O bitcoin, por exemplo, é "extraído", ou criado, por criptógrafos profissionais.

É uma indústria em grande parte não regulamentada e altamente volátil, e as opiniões dos especialistas sobre a viabilidade da criptomoeda variam. Os defensores, de um modo geral, acreditam num futuro em que as economias funcionem com moedas digitais validadas pela comunidade e não por um banco central. Os críticos rejeitam-no e, no mínimo, consideram-no um investimento de alto risco.

Em 2014, Ignatova e Greenwood, o seu cofundador, começaram a apresentar a OneCoin a investidores na Europa, Nova Iorque e em todo o mundo. Realizaram webinars e conferências online onde incitaram potenciais investidores a depositar fundos numa conta que permitiria a compra de pacotes OneCoin, de acordo com a acusação federal.

A OneCoin operava como uma rede de marketing multinível na qual os investidores recebiam comissões pelo recrutamento de outros para a compra de pacotes de criptomoedas. Os pacotes eram distribuídos por vários níveis de rendimento, desde o "iniciante" até ao "magnata".

Ignatova e os seus associados prometeram aos compradores um rendimento cinco ou mesmo dez vezes superior ao investimento, de acordo com os documentos judiciais.

O cofundador da OneCoin, Karl Sebastian Greenwood, visto em 2016. Mais tarde, declarou-se culpado de fraude online, associação criminosa para cometer fraude online e branqueamento de capitais. Créditos: Procuradoria de Nova Iorque

Seguiu-se um frenesim de compras. Só entre o quarto trimestre de 2014 e o quarto trimestre de 2016, os investidores deram à OneCoin mais de 4 mil milhões de dólares, disseram os procuradores federais, citando os registos obtidos no decurso da investigação. Cerca de 50 milhões de dólares vieram de investidores nos EUA.

"Ela cronometrou na perfeição o seu esquema, capitalizando a especulação frenética dos primeiros dias da criptomoeda", disse Williams, o principal procurador federal de Nova Iorque.

A OneCoin não foi criada como as outras criptomoedas, indicaram ainda os investigadores federais. Foi gerada simplesmente por um software.

Num e-mail enviado a Greenwood em agosto de 2014, Ignatova escreveu: "Não estamos a criar nada na verdade, estamos apenas a dizer m.... às pessoas."

O valor da OneCoin não se baseava na oferta e procura do mercado como as outras criptomoedas, explicaram também os procuradores, era simplesmente manipulado em privado pela própria OneCoin.

E foi então que tudo desabou

O negócio de fachada começou a desabar em 2016, quando alguns investidores tiveram dificuldade em vender as suas OneCoins para recuperar os investimentos originais, dizem os documentos do tribunal.

Começou a espalhar-se a notícia de que o negócio era um esquema. Os meios de comunicação social começaram a fazer perguntas. Investigadores internacionais e federais envolveram-se.

Não é claro o que aconteceu com o casamento de Ignatova. Mas o FBI disse que ela soube que a OneCoin estava a ser investigada depois de ter colocado escutas no apartamento do seu namorado americano e descoberto que ele estava a cooperar com uma investigação federal sobre as práticas da sua empresa.

Em outubro de 2017, o Departamento de Justiça dos EUA acusou Ignatova de fraude online, associação criminosa para cometer fraude online, fraude no investimento em valores mobiliários e associação criminosa para cometer branqueamento de capitais, cada uma das acusações com uma pena máxima de 20 anos de prisão. Uma juíza federal de Nova Iorque emitiu um mandado de captura para a sua detenção.

Menos de duas semanas depois, a 25 de outubro de 2017, embarcou num voo comercial de Sófia, Bulgária, para Atenas, Grécia, segundo documentos judiciais.

Depois, desapareceu, deixando os seus parceiros de negócios a arcar com as culpas da empresa falida.

O FBI disse acreditar que ela pode ter viajado com um passaporte alemão de Atenas, possivelmente para os Emirados Árabes Unidos, Alemanha, Rússia, Europa de Leste ou mesmo de volta à Bulgária. E oferece uma recompensa de 100.000 dólares (mais de 91 mil euros) por informações que levem à sua detenção.

"Ela fugiu com uma quantia enorme de dinheiro", disse Michael Driscoll, o diretor-adjunto do FBI em Nova Iorque, aos jornalistas. "O dinheiro pode comprar muitos amigos, e eu imagino que ela esteja a tirar partido disso."

Os seus associados não tiveram tanta sorte. Greenwood foi detido em julho de 2018 na sua casa em Koh Samui, na Tailândia, e extraditado para os EUA. Declarou-se culpado em dezembro de fraude online, associação criminosa para cometer fraude online e branqueamento de capitais. Está na prisão e enfrenta uma pena de 20 anos por cada uma das três acusações, quando for sentenciado em abril.

O irmão de Ignatova, Konstantin Ignatov, foi preso em março de 2019 no Aeroporto Internacional de Los Angeles. Tinha viajado para os EUA em negócios e preparava-se para embarcar de volta à Bulgária quando cinco homens de fato o algemaram e levaram para uma sala de interrogatório, onde foi questionado sobre a sua irmã desaparecida, escreveu Bartlett.

Ignatov declarou-se culpado de associação criminosa para cometer fraude online, branqueamento de capitais e fraude online. A sua sentença deve ser conhecida já no próximo mês de fevereiro.

A OneCoin foi encerrado e o seu site já não está ativo.

Mas a sua fundadora, a mulher de vestidos compridos e jóias vistosas, fugiu às autoridades. Mais de cinco anos depois de a "Rainha da Cripto" ter descido de um avião na Grécia, o seu paradeiro permanece um mistério.

*Allison Morrow contribuiu para este artigo.

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