Rui Santos não entende muitas das críticas feitas e considera que José Mourinho está a fazer um trabalho sério no presente que… estava por realizar ao nível de uma "nova mentalidade", tão necessária há anos no futebol encarnado
Dizem que Mourinho não aceita a critica… mas qual crítica?!
O mundo mudou muito nos últimos tempos e as pessoas estão agarradas a si próprias e cada vez há mais a sensação de que, dia a dia, semana a semana, mês a mês, o que mais interessa é a auto (re)eleição do “umbigo de ouro”, na área do comentariado — e não apenas no desportivo.
São os novos tempos.
Passou a entender-se, em democracia, que o pluralismo pressupõe quantidade e não qualidade. A diversidade deve pressupor qualidade — e a qualidade deve obedecer a alguns critérios que merecem ser redefinidos.
O problema é que a sociedade acha tudo normal: não sei se é o medo das minorias, se são os lóbis assentes no somatório das parcelas da mediocridade que constroem a ideia de que, sem eles, nunca teriam qualquer tipo de protagonismo sustentado e, por isso, se sou a favor de que a Crítica deve constituir um exercício de liberdade, o problema é que a liberdade pressupõe responsabilidade — e essa está a ser desprezada, ou por quem tem agências de comunicação e precisa de fazer as suas opções selectivas; ou porque a língua de Camões já não vive sem o cravo e a canela ou porque as minorias menos classicistas já não têm o mínimo pudor em discriminar as maiorias.
O mundo está virado do avesso e as principais vítimas são os Mourinhos que apresentam obra e são tratados como atrasados mentais, nas mãos e na língua destes oportunistas.
Não querem saber de nada, daquilo que as pessoas fizeram por si próprias para atingirem patamares que deveriam ser de centralidade nas suas carreiras, sobretudo quando estão em causa figuras que fizeram alguma coisa para projectar a imagem do País, mas hoje em dia o que está na moda são sinais de diversidade que nem sequer têm a humildade de reconhecer e agradecer a preferência. São ingratos e dizem mal de quem lhes dá a oportunidade e — como dizer? — a distinção.
E, depois, neste quadro, acham-se os maiores sabichões (como diz Mourinho) e, por isso, ficam muito indignados quando não são compreendidos ou colocam uma pose de chocados, quase invocando direitos constitucionais.
Não se pode interpretar a não realização de conferência de imprensa para o jogo de Moreira de Cónegos apenas como uma questão de gestão, enquadrada num clima normal, entendida por todas as partes.
Ela assume um significado político-estratégico que José Mourinho e o Benfica devem assumir sem tibiezas.
(Fala-vos quem já foi alvo de sérias discriminações, de quem já foi perseguido, de quem já foi estigmatizado com designações às quais a corporação nunca ligou ou protegeu e até atacado por alguns que por ora estão muito chocados com as palavras de Mourinho, que foi tratado abaixo de cão.
Esse direito à liberdade eles conhecem.
Estou farto de ver injustiças protagonizadas por gente sem um mínimo de humildade e preparação, que se acham no direito de dizer tudo o que lhes vai na cabeça perante pessoas que em pouco ou muito tempo fizeram mais do que a sua própria existência.
Achados tipo génios, porquê? A pseudogenialidade deve ser considerada uma equação de empatia destravada?
O exercício de reconstrução de um Benfica à sua maneira, competitivo, exigente, sério, já se sabia que não ia ser fácil. A vantagem do trabalho de Mourinho é que está a lançar as sementes não apenas para um Benfica mais forte para esta época mas para mudar a mentalidade da equipa e até do clube para os próximos anos.
Foi sempre isso que disse, nesta tribuna, que o Benfica precisava.
De um líder com experiência, com mundo, com títulos acumulados e que não estivesse acomodado. Só alguém com esta personalidade pode mudar as coisas nas bases e entre as elites do Benfica.
Os que acham que as suas “palmadas” nos jogadores foram ou um exercício de arrogância ou má gestão, não percebem que tudo tem um propósito e nada foi por acaso.
O exemplo que dá todos os dias, expresso na entrevista que deu à Benfica FM, traduzem aquilo que é e quer ser.
Só digo uma coisa ao treinador do Benfica: continue o seu trabalho e deixe os “sabichões”— autoconvencidos em cima do império do nada — continuar a dizer as “bojardas” de que fala.
Nietzsche dizia que “o erro é o caminho para a verdade” (e nisso temos de ser todos humildes), mas o problema é quando vemos que a maldade — como dizia Santo Agostinho — é um fruto da fraqueza humana. E é essa que tem de ser combatida.
NOTA - A identificação de jogadores jovens que têm estado nas convocatórias de Mourinho podem ser uma forma de recorrer a soluções que o plantel mais sénior não contém, mas são também uma opção clara de reconhecimento de qualidade.
Mourinho não faz fretes e se, como pretende, conseguir introduzir jovens jogadores com uma nova mentalidade competitiva (abordagem mais concentrada e mais agressiva, no bom sentido), o Benfica está a antecipar o futuro. E é isso que muitos não compreendem, e observam essa visão como submissão ou vassalagem.
A antecipação é um risco, ter razão antes do tempo não é bem visto em Portugal, mas o tempo repara tudo. Talvez seja para muitos difícil de engolir, mas a dedicação de Mourinho está a reparar o Benfica. Agora e, repito, a pensar no futuro.