Caro Luciano Gonçalves,
Esteve desde Maio de 2016 a Março de 2025 na presidência da APAF — Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol — e, portanto, conhece o meio como poucos.
Confesso-lhe, com toda a sinceridade, que não sei se isso é bom ou mau.
Deveria ser bom, porque experiência e conhecimento são ferramentas que, em tese, nos ajudam a tomar decisões compatíveis com aquilo que, num quadro de normalidade, é exigido de lugares de grande responsabilidade, como agora é o seu caso, como presidente do Conselho de Arbitragem, sucedendo a José Fontelas Gomes, mas… desconfio que seja mau.
Não é que não acredite nas suas capacidades e boa-fé. O que eu não acredito é neste sistema viciado que suporta todo o futebol, e não apenas em Portugal.
A base sistémica tutelada na Europa pela UEFA é a mesma, mas o caso português é pior, porque Portugal é um país de baixíssimas cultura e ética desportivas e, durante anos, o processo sobre o qual giraram árbitros e nomeadores estava absolutamente corrompido, porque árbitros e nomeadores estiveram capturados por quem mandava efectivamente no futebol, e havia ligações directas, de favores e amizades, que garantiam determinados árbitros para determinados jogos, subvertendo de forma dramática a verdade desportiva.
Há gente, ainda hoje, que não gosta de ouvir estas coisas (o que diz muito do país que somos) mas os factos - independentemente das consequências judiciais - estão ao alcance de quem se interesse por aprofundar o assunto.
Há cerca de um ano, as coisas mudaram um pouco, porque abrandou a coação direta e o foco das ameaças, a escala do medo foi reduzida, mas ainda há muita pressão social — e não só — sobre o sector da arbitragem e sabemos ambos que é verdade.
O Luciano conhece as personalidades, conhece os titulares das pastas com quem tem de entabular diálogo, conheceu ex-nomeadores, conheceu árbitros do passado, do presente e, eventualmente, alguns que neste momento lhes possa ser creditado algum futuro, mas desconfio que isso não seja suficiente, repito, porque o sistema não deixa.
E o que é o sistema? O sistema são as pessoas acima das máquinas e a pressão social, mediática, política e económica que as comanda.
Pode-se mitigar o efeito, através das máquinas e da tecnologia, da ação das pessoas que não se importam de introduzir na engrenagem factores de distorção das leis e colocá-las ao bel-prazer das suas conveniências e de grupos sociais que também não se importam nada com o afundamento da ética, se ganharem, mesmo que seja a qualquer preço?
Poder, pode-se… mas isso só se faz com gente de coragem que esteja disposta a travar uma luta que será sempre desigual, enquanto não chegarem ao topo das principais instituições pessoas que não se deixem corromper.
Sinceramente não acredito que Frederico Varandas, Rui Costa e André Villas-Boas sejam homens para se deixarem corromper, mas — se cada um do clubes a que hoje presidem vive momentos diferentes — tenho muitas dúvidas que eles sejam capazes de aguentar aquilo a que posso chamar a pressão social armada.
Varandas e Villas-Boas atacaram-na de frente, ainda têm resquícios (mais Villas-Boas) com os quais têm de lidar, e não é nada fácil fazê-lo — e Rui Costa está, nesse plano, a meio da ponte, e muito lamento que um clube com a dimensão e responsabilidade do Benfica não tenha feito frente a quem destrói, a quem incendeia, a quem usa indecentemente o nome do Benfica, prejudicando a sua reputação e também os seus recursos.
A pressão social dos adeptos que querem ver a sua equipa ganhar é outra coisa, pode ser vista como uma coisa benigna e, se não for armada, as competências presidenciais não têm, de se queixar de mais nada senão de si próprias e das equipas que as acompanham.
Portanto, caro Luciano Gonçalves, você tem atrás de si ou colada a si próprio, a imagem de um futebol indecente, mas talvez seja o primeiro presidente de Conselho de Arbitragem a beneficiar de um clima de maior desanuviamento.
Isso já é suficiente para não se assistirem a más arbitragens e às pressões (em comunicado) do costume?
Não, não é suficiente, como se viu agora nesta jornada, nomeadamente nos Açores e no Estádio da Luz.
Contribuiu para isso? Lamento dizer-lhe, mas contribuiu: a nomeação de Cláudio Pereira para o Santa Clara-Sporting é um caso de absoluta ausência de senso e ainda estou para tentar perceber como é que você embarcou nessa canoa furada.
Muitos não gostam que o afirme, mas cumpriram-se 15 anos no passado mês de Janeiro que fui para a AR com uma petição para sensibilizar o País para a necessidade de se colocar alguma vergonha naquilo que se estava a passar no futebol português — e também, com menor regularidade e constância, nalgumas Ligas europeias, Campeonatos da Europa e do Mundo.
Por muito que se diga o contrário, o VAR já evitou nos últimos anos escandaleiras maiores e de certo modo já cumpriu o seu papel. Como os Estádios em Portugal: em 2004 eram uma coisa revolucionária, mas em 2025 muitos estão ultrapassados. Hoje, na videoarbitragem, o processo está quase obsoleto e Pedro Proença, presidente da FPF mas, acima de tudo, “homem da arbitragem” sabe disso e tem de actuar urgentemente.
Temos estádios na I Liga em que, através da forma como são colocadas as câmaras, não garantem fiabilidade absoluta. E a benevolência perante isso é dramática.
Caro Luciano Gonçalves,
Essa é outra coisa com que você vai ter de lidar e escolher o papel que quer protagonizar: você é o primeiro presidente do Conselho de Arbitragem de uma instituição que tem como presidente da Direção um ex-árbitro: Pedro Proença.
Talvez seja melhor interiorizar já se está preparado para fazer parte de um órgão em que vai ter um papel meramente operacional e para ‘pequenas questões’. Não vai mandar nada. E das duas, uma: ou se mete a si próprio numa jarra e não se preocupa com isso ou se, na verdade, tem outras expectativas, o melhor é repensar a sua vida.
Mas sabe uma coisa? Não é que o aconselhe, mas acredite que percebo: mais vale ser esqueleto no futebol do que esqueleto numa remediada empresa de construção civil ou numa caixa de supermercado. Com toda a dignidade que todas as profissões encerram.
Só lhe peço uma coisa: os árbitros podem ser mais ou menos fracos, mas muito passa pela vontade dos nomeadores.
Não ajude a pré-fabricar campeões.
