Na Mensagem desta semana, dirigida ao presidente dos leões, Rui Santos também diz que pode ser perigoso não levar Frederico Varandas a sério
Eu acho, francamente, que o pessoal aqui em Portugal está a subestimar um pouco as capacidades do médico-militar Frederico Varandas.
Anda tudo enganado, ou a deixar-se enganar, porque o pessoal olha para o Frederico Varandas e acha que ele é uma espécie de “betinho de Alvalade”, habituado a comer cookies e a beber chá.
Veem nele uma extensão de uma monarquia de chaleira que posa muito — vai tendo aqui e ali uns arranques mais (ou menos) constitucionais, porque o futebol entra muito rapidamente em ebulição na cafeteira — mas que, de luva branca, é incapaz de permitir que aconteça alguma coisa à baixela da família.
Tipo… não parte um prato, e quando isso acontece (já aconteceu, e não me refiro aos Rugidos de Leão desta sexta-feira) é porque tropeçou, sem querer, na ponta de um tapete de seda de Caxemira.
Não o têm levado a sério, muito também porque quando deixou a direção clínica do Sporting e nos seus primeiros anos presidenciais herdou um leão descabelado, irritado, inflamado e, para lhe dar um ar de animal feroz, foi preciso fechar as portas do “zoológico”, se é que entendem, e o ato de presidir a um clube de futebol não se aprende nos livros, é preciso lidar com as realidades e o Frederico cometeu muitos erros até encontrar a chave de uma casa finalmente governável.
Sublinhavam-lhe a incapacidade para comunicar e ficava então a imagem do betinho que algumas vezes fazia um esforço para não ser betinho e os rivais não o levavam a sério.
Foi a sua fase 1 no Sporting.
A fase 2 de Varandas no Sporting começou quando contratou Ruben Amorim e no meio de muitas críticas a chave que encontrou para tornar a casa governável transformou-se em chave de ouro. E, a partir dali, ajustando a organização e deixando que ela fizesse o seu trabalho, engolindo os sapos que teve de engolir com Amorim e Viana, preparou-se para a fase 3, porque já não havia Ruben para fazer as despesas da comunicação, a estrela era o Amorim e o presidente era visto como uma espécie de figurante que ele verdadeiramente nunca gostou de protagonizar. E, de facto, não era, visceralmente, a cena dele.
Caro Frederico Varandas,
Posso achar que o sucesso lhe subiu um bocadinho à cabeça, mas não o subestimo porque os seus rugidos em Leiria foram, primeiro, uma óbvia declaração de guerra aos rivais, e uma resposta de metralhadora pesada às granadas arremessadas recentemente por Rui Costa e André Villas-Boas, e porque na desconstrução da ideia do MANTO VERDE (direta com a sua decantada competitividade), o Frederico está a arriscar muito, por um lado, mas está a ser inteligente.
A ARRISCAR porque esta época vale tudo e todos querem chegar ao primeiro lugar que dá acesso à Champions e às suas receitas diretas (o silêncio de Rui Costa em relação a Mário Branco e o silêncio de Villas-Boas em relação ao caso Veríssimo são a prova de que a pedagogia é menos importante do que o assalto ao arranha-céus);
A SER INTELIGENTE porque está a elogiar todos os titulares dos órgãos decisórios, desde o presidente da Liga (grande elogio!), ao presidente da FPF (idem), sem esquecer as comunicações do sector de arbitragem, colocando o presidente Luciano e o director-técnico Duarte nos píncaros da Lua, porque ele sabe muito bem que não é com fel mas com mel que se apanham moscas.
E os elogios passam (1) pelo treinador Rui Borges (“não precisa de dar shows de comunicação nas conferências de imprensa”); (2) pela forma como o Sporting encara a derrota (“aqui começa a diferença para os nossos rivais”); (3) pela forma como desagravou os efeitos do “canto dos Açores”; e (4) aquilo a que chamou o “vídeo da vergonha”, realçando as contradições de André Villas-Boas, que disse várias coisas num determinado sentido (de ética e transparência) em janeiro de 2024 e agora fica calado perante aquilo que aconteceu com Fábio Veríssimo no intervalo do FC Porto-SC Braga. Não foi de meias medidas: isto não é “lufada de ar fresco”, é bafio — é a hipocrisia no estado pior que o futebol português já conheceu.
Caro Frederico Varandas,
Eu não sei sinceramente onde vai parar (porque o sistema é falso e está muito longe de um estádio de regeneração capaz de tratar todos por igual) mas há uma coisa em que estamos de acordo: houve muito tempo em que os incidentes não eram descritos nos relatórios dos árbitros e dos delegados. E agora estão a ser.
Se isso servir para retificar comportamentos e se isso servir, também, para que todos tenham mais cuidados com ações e reações, o futebol português tem muito a ganhar.
É bom que os rivais levem a sério a asserção indireta de que “TENHAM ATENÇÃO, JÁ ESTIVE NO AFEGANISTÂO”, porque a “guerra” está aberta e quem esteve verdadeiramente na guerra pode levar alguma vantagem.
Uma recomendação para todos: tenham muito cuidado com a pólvora seca.