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O "tau-tau" de Proença no Benfica não merece resposta "pura e dura"?

4 ago, 16:54
Pedro Proença na chegada da Seleção a Portugal após o Mundial 2026 (ANTONIO PEDRO SANTOS/EPA)
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O comentador da CNN diz que Fernando Seara já falou, mas neste momento o ex-presidente da AG dos “encarnados” não representa o Benfica e os áudios levantam muitas questões intrusivas que não devem ser varridas para debaixo do tapete

Caro Pedro Proença,

Contei duas as vezes que se pronunciou desde que saíram a público os áudios indecentes que todos conhecem: um comunicado publicado nos canais de comunicação da FPF e reflectido num post nas suas redes sociais e declarações à televisão no final da Supertaça.

Apesar de se ter pronunciado (a intervenção televisiva foi de bradar aos céus quando afirmou que “o cidadão Proença tem uma opinião que o presidente da FPF não tem”), o efeito final foi quase igual a… “fingir de morto”. Por uma razão simples: fugiu sempre ao cerne da questão: o alcance das suas palavras e do comportamento nessa reunião com responsáveis do Benfica.

Fingir de morto — pelo menos em momentos que antecedem a emissão da respectiva certidão de óbito — passou a ser um desporto muito observado nos últimos tempos em Portugal.  Não é uma actividade recente, mas está a agravar-se, como se tem visto nas últimas semanas no espectro político-futebolístico. 

Viu-se com o “caso Luís Neves”.

Está a verificar-se, agora, consigo, Pedro Proença, porque o comunicado que entendeu fazer como alegada resposta ao que foi tornado público, não foi nenhuma resposta, não foi nenhum esclarecimento, não foi uma tomada de posição firme, foi assim a modos de uma piadela de um disfarçado passarinho que acaba de sair da casca; foi, repito … “fingir de morto”.

Sabe o Pedro, como sabem alguns presidentes de clubes, que — neste país — vale a pena “fingir de morto”. Chama-se apostar na espuma dos dias ou no desgaste da memória, agarrados à experiência de que é preciso dar tempo à efervescência dos escândalos, porque é certo que, a seguir, vem o tempo da acalmia e da paz podre. 

Permita-me que lhe diga, cansado de tanta modorra e de tantos enganos no nosso futebol: tenha um rebate de consciência e assuma-se, homem!

Pedro Proença,

Não sou a favor, pois claro, da publicação de conversas que se têm num circuito fechado, em que aquilo que se diz e observa é suposto ficar entre as pessoas que participam neste tipo de reuniões, o facto de elas virem para o espaço público diz bem do carácter ou da falta dele de quem gravou as ditas cujas, mas isso não invalida que, uma vez conhecido o seu teor, independentemente dos efeitos de natureza jurídica, não se tirem as devidas ilações.

A negação do óbvio passou a constar do tal novo circuito olímpico relacionado com a modalidade de “fingir de morto”, mas as pessoas que preenchem determinados cargos, seja na política — principalmente na política e, em concreto, no governo — seja no futebol, não se podem colocar na posição de poderem fazer tudo, não apenas por uma questão de autoresponsabilidade, mas porque a sociedade precisa de referências que as guiem, contra as imparidades, os golpes baixos, os abusos de poder e as ilegalidades.

O mais grave, no primeiro áudio que chegou à praça pública, nem foi a forma como você,  Pedro Proença, tendo sido ex-árbitro internacional e na altura como candidato à presidência da FPF, desqualificou os árbitros e tratou o ex-presidente do Conselho de Arbitragem, José Fontelas Gomes, a quem daria, depois, o lugar de número 2 da sua Direção. Dar um prémio a posteriori a quem destratou de uma forma tão brutal é hipocrisia ou falta de carácter? 

Nem o mais grave foi a arrogância e o autoconvencimento de alguém que se acha sobredotado para todas as funções, utilizando a técnica de querer estar bem com Deus e com o Diabo. Um líder tem de se orientar segundo as suas mais profundas convicções e não se fingir nem de morto nem de falso amigo. E, de facto, o mais grave foi o à-vontade e o tom de ameaça que utilizou perante Fernando Seara (à data presidente da AG do Benfica, não do Cabeça Gorda, com todo o respeito pelo clube dos “chamuscos”) e Rui Costa, líder dos “encarnados”.

Então naquela hora um candidato (!) à presidência da FPF acha-se na condição de meter medo e ser prepotente perante o clube com mais adeptos em Portugal e aquele que gere mais receitas, atirando o seu decantado poder para cima da mesa, utilizando a Comissão de Instrutores para o efeito e… a caravana passa? Então é verdade que, desde a sua condição de ex-árbitro você conseguir amealhar um poder que lhe valeu que os mais representativos votassem em si, e ninguém lhe sai ao caminho, de uma forma directa e não através de subterfúgios manhosos? Razão está a ser dada um sócio do Benfica que, na última AG encarnada, perguntava a Rui Costa: “o que é que o Proença te disse?”, repetindo, “o que é que o Proença te disse?”, a tentar encontrar resposta para uma espécie de submissão do Benfica que aparentemente não está justificada. Ou estará?  O que é que nós não sabemos que justifique o silêncio? 

E sem nenhum tipo de dúvida, por aquilo que se sabe e é público: a ausência de resposta do Benfica é absolutamente inaceitável. Repito: I-NA-CEI-TÁ-VEL!

Pedro Proença,

A sua postura, no pós-Fernando Gomes, que tanto criticava, não obstante a distribuição de sorrisos e de elogios nas galas de proximidade e nas sessões de maquilhagem dos podres da bola lusa, não tem sido de pró-actividade, naquilo que o futebol verdadeiramente precisa, talvez porque o Pedro ache que é desta maneira que vai ter mais tarde ou mais cedo um cargo de maior relevância na UEFA e na FIFA, neste último caso, com Infantino, um péssimo exemplo na relação com os poderes maiores e nas cedências ao poder político, como se viu no último Mundial, com Donald Trump. Talvez a simpatia dê votos e mordomias mas o futebol necessitaria de outra humildade, de outra visão sobre um Mundo em que, para uns viverem no luxo dos milhões, outros têm de viver na lixeira dos tostões.

Pedro Proença,

Os áudios foram editados, eventualmente descontextualizados, mas nem você nem ninguém desmentiu que aquela era a sua voz. E essa revelou tiques de uma personalidade narcísica que não pode estar à frente do futebol profissional. Perante o que é do conhecimento público, você não podia ter-se limitado a fazer comunicados e, agora, dizer bem dos árbitros, depois de os ter humilhado. As pessoas não passam de bestas a bestiais, só para se tentar salvar o couro. Que pobreza! Não, Pedro, não era isto que o futebol esperava de si. Melhor dizendo: a “bolha do futebol”, numa parte, talvez esperasse isto de si, mas as necessidades reais do futebol são outras. E se, na verdade, em Portugal, no futebol e na política, escasseiam as atitudes decentes (como o de Jorge Coelho que assumiu a responsabilidade política de se demitir quando a ponte de Entre-os-Rios caiu), se você não consegue exercer um magistério positivo e livre perante o sector da arbitragem e é capaz de tratar os clubes (ou foi só o caso do Benfica?!…) da maneira como tratou o clube da Luz, então não está a fazer nada no cargo.

Pedro Proença,

Lamento muito dizê-lo, mas num país sério e com cultura de responsabilidade, depois do que se ouviu, você só tinha um caminho: promover uma AG e/ou demitir-se.

Tudo o resto vai ser “mais do mesmo”: esperar que a efervescência passe, porque há muito dinheiro a ganhar no futebol — e muito mais agora, a partir da FIFA e mais ainda em função da contra-resposta da UEFA.

Se houvesse vergonha e a Crítica ainda tivesse algum peso, você não sorriria tanto. Estaria preocupado. Mas o nivelamento por baixo da Crítica e o país que somos vão fazer que continue a olhar para si como um herói. 

Tudo tão faustoso e, afinal, tudo tão miserável!

Uma última nota: o timing de revelação dos áudios que colocam Pedro Proença a dar um tau-tau no Benfica tem relação com a tentativa de “golpe de Estado” no Conselho de Arbitragem?… Seja como for, e se o “veneno” foi estratégico, a única coisa que está a prevalecer é o tau-tau. Não assumido, mas que publicamente é uma facada no coração do Benfica, e os seus responsáveis, inclusive Rui Costa, têm de perceber isso. Mesmo considerando o que Fernando Seara já disse. É que Seara, neste momento, não representa o Benfica. E a resposta institucional, clara e inequívoca, ainda não aconteceu e… faz falta. Não apenas para a integridade do Benfica mas para a compreensão de todo este lamentável processo que ainda vai fazer passar muita água por baixo das… pontes.

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