A Benfica SAD está acusada de corrupção ativa e fraude fiscal qualificada e o MP quer que o Benfica seja suspenso de todas as competições desportivas.
É uma acusação grave, gravíssima.
Este “caso dos emails” não é mais nem menos do que um mero exemplo das suspeitas sobre os níveis históricos de corrupção que se abateram no futebol português nas últimas décadas, e, como sempre, é preciso que as autoridades judiciais façam o seu caminho, sem nunca descurar o princípio da presunção de inocência e, também, o grau de consistência das provas.
A história do futebol português foi dominada, anos a fio, com as questões relacionadas com arbitragem e o seu controlo; com as questões implícitas à submissão dos pequenos clubes ao poder dos grandes, por uma questão de sobrevivência (algo que está subjacente à acusação do MP neste “caso dos emails” e que envolve o Vitória Futebol Clube (de Setúbal) e ao rasto do dinheiro e das comissões pagas no âmbito das transferências no mundo do futebol.
Vamos ver o que vão dar, judicialmente, todos os casos que emergiram no futebol em Portugal na última década, sendo certo que a baixa taxa de condenações no processo “Apito Dourado”, há 20 anos, determinou o que aconteceu a seguir em termos do comportamento padrão de um certo dirigismo na cúpula clubística do futebol em Portugal.
Não desculpa nada mas deve ser sinalizado o enquadramento histórico.
Serviu para lançar junto da opinião pública e das autoridades a ideia da existência de um fluxo corruptivo no futebol português e, antes da eclosão dos mais recentes casos a envolver o “Benfica de Vieira”, existia a convicção generalizada de um regime de quase total impunidade.
E hoje, até pelos efeitos já produzidos na Operação Pretoriano, no sentido de aliviar a pressão que coercivamente se fazia sentir não apenas junto dos agentes desportivos (fator determinante para um certo desanuviamento), há um halo de mudança na bola indígena, depois de Pinto da Costa ter sido fortemente penalizado em eleições no FC Porto e Luís Filipe Vieira se ter visto obrigado a demitir-se da presidência do Benfica, no seguimento da operação “Cartão Vermelho”.
Esse halo de mudança que se sente no futebol português, com a implementação de uma nova forma de estar dos dirigentes de cúpula como o são os novos players Frederico Varandas no Sporting e André Villas-Boas no FC Porto, ainda vai ter de administrar os efeitos e as decisões sobre os processos judiciais em curso, mas tendem a ser os precursores de uma nova era do futebol luso. Nada será como dantes.
Não há que contornar: Pinto da Costa (42 anos na presidência do FC Porto) e Luís Filipe Vieira (18 na do Benfica) traçaram as coordenadas que definiram o fenómeno de bipolarização do futebol indígena.
No bom e no mau, a ação de Pinto da Costa determinou o que ainda é hoje o futebol em Portugal e fez LF Vieira jogar o jogo dele.
A ideia propulsora foi clara: recentrar o poder na hostilidade. E quando Vieira chegou (em 2003) já Pinto da Costa tinha assegurado para o FC Porto 11 títulos de campeão nacional contra 6 do Benfica, 2 do Sporting e 1 do Boavista.
Luís Filipe Vieira, patrocinado pelo BES de Ricardo Salgado e talvez com a expectativa de se tornar o Dono Disto Tudo do futebol em Portugal (para isso tinha de destronar Pinto da Costa) chegou ao Benfica nesse momento muito conturbado do futebol português, com a chama do ‘Apito Dourado’ bem acesa.
E acabou por se tornar numa extensão comportamental de Pinto da Costa, no FC Porto. Uma tentativa de cópia falhada.
O “caso dos emails”, muito concretamente, expressa a ideia de um plano gizado por Luís Filipe Vieira para usar finalmente a força social do Benfica. E tudo tentou nesse jogo de influências, junto do poder político, entre ministros e governantes, com operações de charme junto de quem lhe poderia conceder vantagens, com uma diferença substancial para a lógica de Pinto da Costa: mais charme, mais sedução, menos hostilidade.
Independentemente das tecnicalidades jurídicas que são um pouco como a pastilha elástica e essencialmente dos timings da Justiça que não acompanham a velocidade de uma galopante indústria, a colocar em permanência o choque entre as boas e as más práticas no futebol, esta acusação deve ser levada a sério e não de ânimo leve, mesmo que no final o Benfica, por insuficiência de prova, não seja impedido de participar nas competições desportivas.
Nem que seja para delimitar o que era ‘normal’ no passado e o que deve ser encarado como “anormal” no presente e no futuro.
Os adeptos não podem pactuar mais com falta de transparência ou com operações de contornos duvidosos. É preciso fazer parar esta ideia de que o Estado e a Sociedade têm de se vergar ao poder do Estado-Futebol, no qual tudo é permitido.
Luís Filipe Vieira reagiu à notícia da sua condição de acusado pelo Ministério Público, dizendo que “os benfiquistas podem dormir descansados”.
Diz isso o ex-presidente, talvez com os olhos vermelhos. Não. Os benfiquistas não querem a imagem do Benfica manchada. E a solução não é adormecer. É colocar a ‘águia-cuco’ a despertar e programar os outros despertadores a tocar ruidosamente como alarmes, sempre que o Benfica seja envolvido em manobras que lhe causem dano, e não apenas reputacional.
Não pode haver qualquer dúvida sobre isso. A bem do Benfica mas também a bem do futebol em Portugal.
Continuar a atirar pedras para os telhados do vizinho é a melhor forma de adiar a resolução de problemas graves do futebol português. São os clubes grandes, cada qual, que têm de perceber que não deve ser dado espaço a manobras que potenciem a ideia de batotice. No campo e fora dele.