opinião
Colunista e comentador

Lama e traições - (e) os clássicos do futebol português

9 mar, 12:21
Futebol

Rui Santos não poupa nas palavras para dirigir a sua Mensagem aos presidentes do futebol nacional num tempo de ‘clássicos’ entre os principais emblemas do futebol luso

A semana que antecedeu o Benfica-FC Porto e o SC Braga-Sporting que acabaram ambos empatados foi uma semana negra, não apenas (por causa dos antecedentes) mas principalmente pelo que aconteceu no jogo da Taça entre ´leões’ e “dragões”, com a equipa de Alvalade a tomar avanço na eliminatória pelo golo marcado por Luís Suárez, de penálti.

Há sempre quem goste de ver os presidentes embrulhados na lama, cada qual a dizer tudo o que lhes apetece, sem limites, assim a modos como o adepto que não quer saber de nada, desde que ganhe a qualquer preço: com pressões, com antijogo, com alegações de erros de arbitragem às vezes justas outras vezes claramente falaciosas e enganosas e com acusações de palavras e comportamentos inadequados, quando, a esse nível, estão cheios de telhados de vidro.

Villas-Boas e Varandas sujaram-se na lama, na sequência do que foi o jogo de Alvalade para a “Taça” e pareciam garotos pequenos - passe a expressão - à porrada.

A falta de maturidade comportamental como dirigentes de primeira linha foi tão grande quanto desajustada da formação académica de cada qual: o presidente do Sporting é militar e médico, actividades de grande responsabilidade que obrigam a uma preparação muito séria do ponto de vista da utilização do sabre e do bisturi; o presidente do FC Porto licenciou-se na área das ciências do desporto e, com todo o respeito, não pertence aquela plêiade de ex-jogadores que, independentemente dos seus talentos, nunca leram um livro na vida.

Isso aumenta-lhes o grau de incumbência num plano de máxima responsabilidade e foi isso que não aconteceu.

Não se pode falar de uma inflamação momentânea, pontual ou esporádica, enquadrada num deslize ou num desvio que, se não for regra, mereceria a nossa relativização.

O problema é que se trata de um padrão.

Um padrão que se enraizou no futebol português durante décadas e que protagonistas de outra geração e aparentemente com outros princípios iriam derrubar, em nome de um futebol mais despoluído, mais sério e mais respeitoso entre todos os intervenientes.

Uma desilusão que corresponde a um dos 3 problemas crónicos do futebol em Portugal há décadas:

  1. Falta de classe nas lideranças, quando elas existem;
  2. Falta de competência no sector de arbitragem, muito presente no jogo de Alvalade. O árbitro Cláudio Pereira e o VAR Manuel Oliveira destruiram a tese do C. de Arbitragem, segundo a qual todos os árbitros que chegam à primeira categoria estão em condições de apitar qualquer jogo entre equipas profissionais. Não estão. Já se sabia que não estão;
  3. Falta de cultura de jogo e não de anti-jogo.

Uma desgraça quando hipocritamente surgem depois os discursos da solidariedade institucional e da defesa dos interesses do futebol português.

Falso.

Postiço.

Ofensivo.

Para quem ajuda a manter o futebol e sem nenhuma preocupação em atrair novos públicos, sobretudo mais jovens, hoje em dia seduzidos com tantas outras atividades bem menos tóxicas e divertidas.

E agora uma palavra directa para os presidentes:

Caro André Villas-Boas,

Estará minimamente feliz por ter saído inteiro da Luz, mas não sei o que se passou tão repentinamente consigo porque de uma época, a primeira, para esta, o seu comportamento mudou e tornou-se feroz.

Podia ser uma ferocidade nos limites, positiva, genuína e verdadeira, defensora da legitimidade. Mas não. A mentira não cola no discurso que fez durante a campanha eleitoral durante a qual afirmou, com ênfase, que (e cito) “queremos devolver ao FC Porto a transparência e a credibilidade”.

Não é com factos que aconteceram no intervalo do jogo com o SC Braga e más práticas como aquelas que aconteceram no último jogo no Dragão com o Sporting que se defende a transparência e a credibilidade.

O discurso mudou tanto que AVB nem parece AVB. E se AVB representa e é aquilo que tem revelado nos últimos tempos, então mais valia deixar Pinto da Costa cumprir o seu sonho de ser presidente do FC Porto até ao fim dos seus dias.

Farioli e Villas-Boas endureceram o discurso com tudo, algumas vezes com razão; outras vezes fazendo pressão em cima de factos sem qualquer adesão à verdade, como você, André, fez logo após a derrota em Alvalade. De tudo o que disse, só se aproveitou a denúncia que fez em relação ao gesto de “roubar” de Luís Suárez, porque isso sim foi defender legitimamente os interesses do FC Porto.

O resto foi ruído, poeira e falta de rigor, até na forma como criticou o golo do Sporting antecedido de uma falta que não cabia na validação/invalidação do único golo do clássico.

Lamentável.

E não se esqueça de uma coisa que lhe vou dizer aqui, olhos nos olhos: foi você que levou o ex-chefe da claque dos SD à prisão. As concessões que entretanto tem feito no sentido de aproximar o seu discurso ao de PdC nunca vão apagar ou mitigar os efeitos deste facto.

Ele nunca lhe perdoará. E você não está a perceber isso.

Você será sempre considerado (por ele e outros) como traidor. Aliás, deve estar farto de ouvir essa designação.

Perder a coerência ainda o deixa numa posição mais frágil e por isso repito que este crescente nervosismo só será atenuado com a vitória no campeonato e nesse plano o resultado de há pouco na Luz deixa-o naturalmente numa situação de maior conforto.

Caro Frederico Varandas,

Quero dizer-lhe que, em relação ao passado, compreendo algumas das suas observações sobre a forma como outrora se mantinham as hegemonias e, como sabe, tive muitos problemas com isso, enquanto outros, agora tão activos no comentariado noutras têvês, se mantiveram calados e com medo de represálias.

Acompanhei-o na sua luta contra o poder das claques (processo que ainda decorre), mas não posso validar a forma como se expressou aos microfones da comunicação social, nomeadamente como repetiu para AVB a expressão “cobarde, cobarde, cobarde” (mesmo que tenha esse entendimento).

O que é isto? Um médico e um militar não confundem indignação com ódio. E a sua prestação, nesse contexto, foi infantil, com a tal nota de ódio, que julgo estar mais relacionada com a equipa-sombra de AVB do que propriamente com o próprio AVB.

Defender o Sporting é mantê-lo num plano de elevação no discurso, o que conseguiu fazê-lo durante muito tempo, talvez porque Amorim fez - enquanto esteve em Alvalade — as principais despesas de comunicação e tratava dos efeitos da actuação da equipa-sombra que referi.

Um oficial (ainda por cima médico) quando deixa de ser cavalheiro no topo da pirâmide da proclamada mudança deixa de ser oficial, a menos que se sinta ameaçado de “morte futebolística”. O seu comportamento tem algo a ver com o facto de estar a ver comprometida a sua ambição futebolística, na conquista do tão almejado “tri”? Apesar do resultado em Braga, é cedo para conclusões desse tipo. Mas os resultados não podem esconder tudo — e esse deveria ser o entendimento dos presidentes nas suas posturas (não) institucionais.

Caro Rui Costa,

Neste clássico com o FC Porto estava em causa a decapitação final, ou não, do Benfica neste campeonato. Ou até a sua recandidatura mais forte ao título. Quando mais precisava da melhor versão do “Benfica de Mourinho”, ele ausentou-se durante tempo a mais. A primeira parte foi abaixo do razoável e assim fica tudo muito difícil em relação ao objectivo principal. Considerando as incidências do jogo e respectivas supremacias, o empate foi um bom resultado, mas este jogo era mesmo para ganhar, embora o objectivo do segundo lugar adquira agora uma importância… capital.

Uma palavra final e rápida, em jeito de pergunta, aos presidentes da FPF e da Liga, em função de tudo o que tem acontecido neste campeonato:

Caros Pedro Proença e Reinaldo Teixeira,

Não sentem nem um pingo ou pico de vergonha serem titulares máximos de instituições como a FPF e a Liga e não terem uma palavra de reprovação sobre o tipo de abordagem e comportamento públicos que temos assistido nas últimas semanas? É isto que querem para o futebol português? Nem sequer um ai de indignação? Um alerta? Chamam a isto liderar ou apenas estão preocupados na conservação dos vossos lugares e mordomias?

Que tristeza! Os “clássicos” são apenas o padrão clássico da bola indígena: muita lama, traições, pouco respeito e, também, quase sempre… pouco futebol, muitas vezes baseado no “jogo subterrâneo”.

Não há ninguém que tenha consciência disto e tome a iniciativa de dizer que o rei vai nu?

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas