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Pizzi na florista entre rosas e espinhos (vejam lá se não se picam)

6 ago, 16:39

Rui Santos televiu a entrevista do ex-jogador do Benfica e reflecte sobre um importante ‘momento televisivo’: fofo mas felizmente real

Sem papas na língua: PIZZI sabe que foi corrido do Benfica, percebe-se que está magoado e percebe-se também que revela alguma dificuldade para controlar a dor.

Normal.

A entrevista desta semana ao Canal 11 pareceu um tapete de rosas, mas as pétalas, que foram tantas, não esconderam totalmente os espinhos.

A aparência nem sempre traduz o que o coração sofre.

Vejam lá se não se picam com aquilo que televi.

PIZZI não foi um jogador qualquer no Benfica.

Jogou e fez jogar mas, apesar do que jogou e fez jogar, nunca conseguiu o estatuto que talvez a sua personalidade não o tenha deixado alcançar.

PIZZI nunca conseguiu afirmar-se em pleno, como figura incontornável e histórica no Benfica, talvez porque na verdade nunca foi um líder e, quando deu ares disso, no rescaldo imediato da frustração vivida no Dragão, não lhe perdoaram.

JORGE JESUS não podia sair da Luz com a consagração de PIZZI como vencedor da peleja.

Aqueles abracinhos da ordem entre RUI COSTA e JESUS, na hora da despedida, não podiam ser apenas palmadas aparentemente afectivas. Tinham de ser acompanhados por qualquer coisa mais palpável.

Mais palpável foi a necessidade de deixar cair PIZZI.

RUI COSTA não podia consentir que o ‘novo Benfica’, alicerçado no pensamento em valores como a unidade e a coesão, pudesse dar sinais de concordância perante alguma insubordinação ou lá o que aquilo foi (no Dragão)…

Quando se percebeu que a reacção de PIZZI no Dragão tinha correspondido à gota de água que fez transbordar a gota do copo da saturação (do Benfica em relação a JESUS), a opção foi, subtilmente, deixar cair o treinador e deixar cair o jogador que também foi — percebe-se agora — bode expiatório.

“Senti que o meu ciclo no Benfica tinha terminado” - deixou escapar PIZZI, entre pétalas. “Era preciso libertar o Pizzi do Benfica e o Benfica do Pizzi” - enfatizou.

Nem mais. É a conclusão mais pragmática que se podia ter.

A vida é feita de bons e maus casamentos e de separações. Não há ninguém que consiga parar o sopro dos ventos.

“Não me senti empurrado” - disse o Luís Miguel, PIZZI para os mundos que nos rodeiam. Todos temos momentos em que não queremos assumir as mágoas. Os seres humanos são assim, máquinas imperfeitas, umas com graus de imperfeição que arrepiam.

(Não precisas de assumir, Luís Miguel. Só te quero dizer que percebi e não vou em cantigas).

Bode expiatório conveniente para quem foi importante no passado mas que já não fazia a diferença perante Darwins & C.ª.  

Confesso que cheguei a pensar: JESUS esgotado, PIZZI elevado.

Mas não.

Aliás, basta ver como PIZZI falou de ANDRÉ ALMEIDA e RAFA, confirmando-se sinais de afinidade na cabina.

Só RAFA resistiu. A velocidade de RAFA foi mais importante do que ser amigo de PIZZI.

O peso de se fazer a diferença ou não.

Na entrevista, e talvez seja isso que conta, PIZZI disfarçou bem e mostrou uma tranquilidade e uma lucidez dignas de registo.

Depois do amolecimento de JESUS em relação ao tema, o testemunho de PIZZI serviu para colocar uma pedra sobre o assunto.

Cada um para o seu lado: um na Turquia, outro nos Emirados.

A certeza na Luz de que, com cada um para seu lado, há mais condições para SCHMIDT triunfar.

RUI COSTA fez de primeiro-ministro numa remodelação governamental e acabou por ser salomónico e conseguiu sair do jardim com a ideia de ter transformado espinhos em pétalas.

Os jardins não precisam apenas de ser tratados. Precisam de manter a boa aparência e há cada vez mais especialistas dito neste mundo digital.

A entrevista que PIZZI concedeu na passada quinta-feira, na Áustria, ao Canal 11, para além de ter sido um bom momento de televisão — eram escusados tantos auto-elogios da moderadora, em estúdio —, demonstrou como a censura prevalece em Portugal.

Uma coisa tão simples (uma conversa entre um jornalista e um jogador de futebol) corresponde a uma manobra muito mais difícil do que aquela que MÁRIO FERREIRA protagonizou no espaço.

Ir ao espaço é difícil; dar entrevistas e azo à(s) liberdade(s) não deveria sê-lo.

Esta entrevista faz pensar nas diversas censuras que amordaçam Portugal.

Ela só foi possível, em ‘território neutro’, porque anda no ar um ambiente de paz podre que a todos parece condicionar.

Sorrisos e elogios de pacotilha, encomendas nem sempre sem remetente, fazer crer que o futebol é puro e os pecados devem ficar fechados a cadeado no armário.

O problema não está nos pecados; é de quem ousa falar neles. E isso é muito mau num ‘país de liberdades’ e em decantada democracia.

Esta entrevista foi possível no contexto de um mundo e de um ecrã cor-de-rosa, perfumado, porque há meios para isso, porque não é preciso apresentar resultados, porque basta pedir para fazer acontecer e, num contexto de concertação funcional e sistémica, a partir da qual é possível fazer transmissões, ter os protagonistas disponíveis, fazê-los sorrir para nos fazerem sorrir, mesmo em escalões secundários, que as televisões comerciais não podem chegar, há um grau de satisfação a contrastar com quem tem de fazer contas, gerir recursos muitas vezes na adversidade, sem a UEFA a ajudar.

Quem tem de fazer televisão entre o paraíso de que vos falo, em versão 11.0 e o inferno de quem se quer afirmar aos gritos, com rasteiras e até vinganças pessoais, misturando coisas de inegável valor jornalístico com toneladas de ligeireza, em versão 8.0, precisa de ter nervos de aço e um rumo muito bem definido.

Esta entrevista só foi possível porque PIZZI é hoje treinado por um homem de carácter, CARLOS CARVALHAL, que tem mundo e saber, e percebe que o futebol não pode ser uma prisão (quase perpétua) para os seus intérpretes, e esta coisa de condicionar e controlar as entrevistas, através deste séquito de algozes das liberdades, é uma coisa medieval, que se banalizou perante a cumplicidade de quase todos.

É um escândalo a céu aberto que todos consentem.

A entrevista de PIZZI deveria ser um ensinamento para os presidentes dos clubes em Portugal, que precisam de perder esta sedução de controlo total (em relação a pessoas e instituições) e perceber que os jogadores também pensam, também têm vontades, e precisam de adquirir, eles próprios, sem serem mandados, sentido de responsabilidade quando são chamados ou têm a iniciativa de se pronunciarem publicamente.

As pessoas são pessoas. Os jogadores são pessoas. Ousar tomar-lhes o cérebro, seja através do mecanismo de lhes arranjar clube para ganharem (mais) dinheiro, seja para não os deixarem revelar algumas realidades, é tão mau quanto viver em escravatura ou reduzir a nada a capacidade de escolha.

O futebol em Portugal será muito melhor quando for um acto normal e deliberado não permitir que os gabinetes de comunicação sirvam para promover o terrorismo comunicacional, o ódio e a mentira.

PIZZI falou e falou bem. Num contexto construído para o efeito, é verdade, mas mais vale este, com raios de luz a entrar na gruta quase invisitável, do que a encenação a que parece estarmos sujeitos.

Sujeitos e predicados.

Eu gosto do PIZZI, eu gosto do Canal 11, eu amo a liberdade.

Posso?

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