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Colunista e comentador

A Liga portuguesa - a fraude camuflada

3 ago, 19:02
Bola oficial 2022/23

Rui Santos elogia a qualidade do jogador português mas diz que ela é subaproveitada e não apenas por razões estritamente financeiras. A eficácia dos principais órgãos decisórios (Arbitragem e Disciplina) continua comprometida e enquanto for assim a Liga portuguesa continuará a ter pouco valor

O jogador português é um fenómeno, mas precisa de sair de Portugal para ser reconhecido.

Sim, é uma questão de dimensão, mas não é só.

Temos muitos treinadores e jogadores que elogiam a Liga portuguesa (sobretudo, quando andam por cá) mas a Liga portuguesa só é boa praticamente para olheiros e intermediários e sobretudo como plataforma de escala da América do Sul para a Europa.

É bom ganharmos todos consciência, definitivamente, que a Liga portuguesa, enquanto prova desportiva, é muito pouco atractiva e aliciante.

Pode ser rica tacticamente (os treinadores portugueses lêem muito bem o jogo e as equipas) mas é pobre em qualidade.

E é pobre em qualidade, porque o futebol não é só técnica e habilidade, e também não é só compreensão dos modelos tácticos.

O futebol também é físico (não confundir com dimensão atlética) e o físico impõe, ou não, intensidade.

A Liga portuguesa é pobre em intensidade e talvez seja por isso que, nas suas amarrações tácticas em baixo ritmo, a Liga portuguesa pareça ser, para alguns, uma prova evoluída.

Não é.

A Liga portuguesa tem aspectos positivos, mas é genericamente — e num aspecto orgânico muito relevante — uma fraude.

Uma fraude, desde logo, porque os órgãos decisórios não são eficazes.

Tudo passa pela Arbitragem e Disciplina e esses são de uma ineficácia tremenda.

Os árbitros têm medo e têm razões para ter medo. Não são livres, todos o sabemos e todos o ignoram.

A Disciplina está prisioneira dos clubes. São estes que aprovam os regulamentos, logo há um vício de construção de um princípio de isenção não corporativa que não está assegurado.

Temos uma Comissão de Instrutores, vital para a saúde da Disciplina no plano profissional, cuja constituição não se acha fora do âmbito dos clubes ou de quem os representa.

Temos um Conselho de Disciplina, que é uma joaninha (a merecer outros cuidados) entalada entre a CI e o TAD: tenta voar através de regulamentos obsoletos e sem qualquer tipo de exigência ou prevenção e é pisada constantemente pelo TAD, projectado-se para a opinião pública uma ideia de incompetência e ineficácia.

A joaninha assemelha-se hoje mais a uma barata. Tonta.

O princípio da fraude está num campeonato cujos dois principais órgãos decisórios não funcionam.

A aparência de fraude adensa-se quando se sabe a tremenda diferença de recursos entre as equipas que compõem a principal competição e a dependência que os clubes médios e pequenos ainda demostram em relação aos ‘grandes’.

Voltando ao início: a Liga portuguesa tem o lado de ajudar a fabricar jogadores que se afirmam no espaço internacional, como é o caso — a titulo de exemplo — de RÚBEN DIAS; alguns jogadores nem aquecem na Liga portuguesa e dão cartas noutros grandes campeonatos, como se vê através dos exemplos de JOÃO CANCELO, BERNARDO SILVA.

Temos agora os casos de VITINHA, FÁBIO VIEIRA e RENATO SANCHES, o que significa que a matéria-prima é boa (podíamos dar dezenas de outros exemplos), a nossa Liga é que é má, e não apenas por questões estritamente financeiras.

Falta-lhe credibilidade em redor do jogo.

É esta Liga (de reduzida credibilidade) que vai começar.

Sem drama: há alguns ténues sinais de mudança (ANTÓNIO SALVADOR pegou bem na proposta de TIAGO CRAVEIRO para lançar a discussão sobre o modelo competitivo; na verdade, é urgente mudá-lo) e temos sempre a possibilidade de… olhar mais para o futebol feminino enquanto os homens quiserem continuar a olhar para o seu umbigo.

O futebol feminino é uma tentação e começa a ser um desafio. Só falta começarem a pagar às mulheres, muito justamente, o que pagam os homens e vão ver.

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