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A Mensagem de Rui Santos para a sede da Liga: quando o presidente é colocado “atrás do pilar”… está tudo dito!

17 fev, 20:08

O comentador da CNN diz que há coisas elementares que não podem acontecer mas que acontecem porque ninguém regula ou enfrenta os excessos dos clubes 

O Sporting venceu o Famalicão por 1-0, com um golo de cabeça à ponta-de-lança de Daniel Bragança, que estava há oito minutos em campo quando desferiu — na reta final do desafio — o cabeceamento decisivo; horas antes, o FC Porto na Madeira tinha vencido o Nacional por igual marca, através de um golo, também de cabeça, de Bednarek, com uma hora de jogo, depois de um canto cobrado por Gabri Veiga, que estava há um minuto em campo para substituir o desinspirado Rodrigo Mora; e, na antevéspera, no que diz respeito à luta pelo título, na qual o Benfica reentrou porque o FC Porto perdera cinco pontos nas duas jornadas anteriores, o conjunto de José Mourinho foi aos Açores vencer o Santa Clara por 2-1, depois de ter estado a ganhar por 2-0 e, no começo da segunda parte, Trubin ter deixado escapar a bola sem nenhuma justificação, a não ser aquela em que o futebol é pródigo: tudo muda de um jogo para o outro; o que não muda é a imagem de herói que Trubin construiu no último jogo europeu do Benfica perante o Real Madrid quando nos últimos instantes foi fazer de cabeça um golo improvável, que esta terça-feira no relvado da Luz, outra vez perante a equipa merengue, será recordado por todos no estádio e na imprensa internacional.

As coincidências que o futebol gera: uma jornada de baixa produção do FC Porto e do Sporting, a acusar a ausência dos seus homens-golo, Samu entre os portistas, por ter contraído uma lesão grave, o que constitui um sério problema para Francesco Farioli, e Luís Suárez entre os “leões”, por ter sido suspenso com um jogo de castigo, depois de ter cumprido no Dragão uma série de cinco cartões amarelos. Solução: Daniel Bragança (mais improvável) a resolver o que estava difícil e Bednarek a confirmar que, é de facto, o grande líder da defesa do FC Porto, por mais que alguns queiram atribuir esse estatuto ao recém-chegado Thiago Silva. 

Só o Benfica, afinal, fez jus ao seu homem-golo, Pavlidis, não apenas porque entre os três foi o único que esteve em campo, mas também porque foi decisivo na partida — o melhor em campo — por ter marcado um golo, o inaugural, também de cabeça, e por ter sido o protagonista central da jogada do segundo golo, com uma jogada de excelente nível junto à linha de fundo. O Benfica fez uma boa primeira parte, parecia a salvo de qualquer surpresa, mas no regresso das cabinas Trubin deu um ‘frango’ e Mourinho teve de reformular a estratégia porque a equipa deu sinais de alguma perturbação e foi preciso acionar os mecanismos do Benfica mais conservador para garantir os três pontos.

Três pontos que, afinal, todos garantiram, mas sem qualquer centelha de brilhantismo. E esta é a chave para a Mensagem de hoje: a falta de qualidade futebolística achada nesta jornada 22, que o Gil Vicente de César Peixoto teve a capacidade de quebrar, não apenas vencendo o SC Braga em Barcelos (2-1), mas jogando um tipo de futebol que deve ser sublinhado e valorizado, que lhe permitiu para já fixar-se na quarta posição da Liga.

Há muito que sabemos que temos um problema de qualidade na Liga portuguesa e há muito que sabemos que os nossos clubes mais representativos têm demasiados altos e baixos e, se as diferenças não são grandes, basta comparar com as principais ligas europeias para perceber que o futebol está cada vez mais macrocéfalo 
e talvez esteja a evidenciar alguma perda de qualidade geral, bem acentuada entre nós, muito por força de calendários gigantescos que penalizam os jogadores e a falta de tempo para treinar e planear.

Mas esse não é o nosso maior problema, como observamos no último FC Porto-Sporting e de cujo jogo ainda aguardamos os efeitos de natureza disciplinar. A semana passada já falámos do que não gostámos no Dragão e no posicionamento de André Villas-Boas, que prometeu aos sócios do FC Porto e ao público em geral uma clara rutura com o passado, em termos de comportamentos e na relação com a ética desportiva, que deve ser exigida a todos e não apenas a alguns.

A semana passada não falei aqui, nesta rubrica da Mensagem, de um aspeto que me parece vital para a compreensão da falta de respeito institucional, da falta de autoridade e da falta de liderança no futebol nacional.

O artigo 32 do Regulamento das Competições, no que diz respeito à presença nos camarotes dos clubes, diz que o presidente da Liga e o presidente da FPF têm direito a lugares preferenciais e é habitual vê-los junto dos presidentes nos dérbis e clássicos. Não aconteceu no Dragão, no FC Porto-Sporting. O presidente da FPF nem se viu e o presidente da Liga foi relegado para um lugar lateral que nem as câmaras de televisão apanharam. Tirando o caso do FC Porto-Rangers, sob a égide da UEFA, o presidente da Liga tem tido um tratamento de figura secundária, e isso — pergunto — terá que ver com o que se passou com a marcação da data do jogo com o Arouca e a polémica que deu?

Ora é isto que não entendo, agora em André Villas-Boas: reclamou legitimidade para concorrer contra Pinto da Costa; reclamou legitimidade para recolocar o FC Porto na senda da pujança; reclamou legitimidade para dizer que o FC Porto precisava de uma mudança; reclamou legitimidade para dizer que ia fazer pagar todos aqueles que, no FC Porto, internamente e na sua periferia, prejudicaram o FC Porto; reclamou legitimidade para lutar pela ética e transparência em todos os domínios. Afinal, o que mudou?

E depois há a falta de autoridade de quem formalmente lidera o futebol português: Pedro Proença não quis estar no FC Porto-Sporting porque desde que chegou à FPF evitou sempre a presença em clássicos (excepto na final da Taça da Liga) e Reinaldo Teixeira, presidente da Liga, foi sempre colocado um pouco à margem em relação ao presidente do FC Porto. 

São estas coisas  que não podem acontecer, não devem acontecer, por livre arbítrio, do tipo: “portas-te bem, trato-te bem; portas-te mal, vais —passe o exagero — para trás de um poste/pilar”.

São estas coisas que o futebol português tem de resolver, em todos os Estádios (comportamento decente com todos) e espero que AVB perceba o que está em causa. Se não perceber, entra na história para depressa a abandonar. Porque não espere que os indefectíveis de Pinto da Costa lhe perdoe e não pense que os 80% que o elegeram têm má memória. É preciso coerência e essa conversa estafada do “contra tudo e contra todos” já não colhe e pensávamos que até você, André, a considerava ultrapassada. Isso não quer dizer que o FC Porto não faça tudo para ganhar. Mas num enquadramento em que não valha tudo. É preciso recolocar os as bolas nos pinos, é preciso baixar a temperatura dos ares condicionados, é preciso evitar palavras indecentes, é preciso não colocar televisões nas cabinas dos árbitros, e é preciso não esquecer o que regula o novo protocolo das claques e não abrir excepções. 

Espero que AVB não tenha sido tomado outra vez pelo medo, porque a sua coragem foi a principal virtude quando decidiu questionar o regime. Ou estamos todos loucos e não questionou?!…

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