O comentador da CNN diz o que Benfica (não) precisa e define aquilo que lhe parece ser o melhor rumo: tudo passa pela exigência e pelo “aperto” aos jogadores. Quem não quiser, sai! O Benfica é que não pode continuar nesta incerteza e nesta modorra
Caro José Mourinho,
O Benfica é uma enxaqueca.
E está a ser uma enxaqueca para todos menos para os rivais.
A maior dor de cabeça talvez seja a do José, mas a sua é provavelmente a única, de acordo com o seu perfil, que consiga resolver sem recurso a aspirinas.
Aliás, o Benfica não tem apenas uma enxaqueca.
Precisa de uma cirurgia mais profunda e quanto mais tempo adiar o ‘timing’ dessa cirurgia mais difícil será a recuperação.
Muitos pensarão que estou a colocar em causa o desempenho de Rui Costa e José Mourinho.
Todos no Benfica precisam de melhorar mais os seus desempenhos, mas não são o presidente e o treinador, especificamente, que estão a impedir um diagnóstico que não passe de uma constipação.
É uma epidemia que não pode ser tratada com toalhas quentes ou com um tratamento leve e conservador — e esse não é um problema de agora; é uma maleita que tem anos.
Caro José Mourinho,
Há quem ache que a forma extremamente dura como qualificou a exibição do Benfica e o desempenho dos jogadores na meia-final da Taça da Liga, após a eliminação frente ao SC Braga, na sequência de outros apertos que tem vindo a dar nos atletas, tem um lado contraproducente porque — argumenta-se — não há nenhum treinador que resista se não tiver jogadores disponíveis e motivados para competir.
Colocar os jogadores alegadamente de rastos — dizem — só vai gerir maior desilusão e desmobilização.
É uma teoria mas não acredito nela.
Acredito que a produtividade está relacionada com exigência.
E exigência é algo de que o clube precisa transversalmente.
Por isso, ao contrário de muitos que acham que o José foi excessivo, eu compreendi o seu grito de revolta.
Mandar tudo para o Seixal e esperar que os jogadores dormissem mal, uma forma de lhes incutir mais responsabilidade.
A forma como tentou dar uma chicotada nos jogadores e no plantel. Mais do que dormir mal, é preciso acordar com outra mentalidade. Na verdade, é preciso acordar!
E, para isso, não é só necessário um despertador.
É precisa uma atitude diária, constante e regular no sentido de nunca facilitar e jogar nos limites da superação física e psicológica.
O Benfica está a 10 pontos do líder FC Porto e, portanto, longe do principal objetivo desta época (ser campeão nacional), a época na Liga dos Campeões está numa fase muito periclitante, desde a escorregadela na Luz com o Qarabag e tem mais uma final, já no próximo dia 21 em Turim, com a Juventus, acabou de ser eliminado da Taça da Liga e nesta quarta-feira encontra-se precisamente com a equipa do Dragão para tentar seguir em frente na Taça de Portugal, em desafios de alto grau de dificuldade.
O presidente Rui Costa não pode estar satisfeito, você, José, estará até indignado e com os nervos à flor da pele com a forma como a equipa tem/não tem gerido o esforço nas diversas competições, os adeptos queriam muito mais depois do seu regresso ao Benfica, mas a verdade é que há coisas que não está a controlar — e não estou a falar da forma como não tem deixado de fora a arbitragem das suas críticas.
Caro José Mourinho,
Podem dizer o que quiserem, mas o que é mesmo uma cirurgia corresponde a não pactuar com certos comportamentos dos jogadores.
Não pode haver lugar para a apatia, para a passividade, para o deixa-andar e para — perdoe-se-me a expressão — que se lixem os resultados porque o dinheiro estará sempre na conta.
Eu acredito que o José está a ajudar a generalidade dos responsáveis do Benfica a concluir que o caminho não é acreditar que a vitória chegará no próximo jogo e criar a ilusão de que está tudo bem.
Não está!
E só estará quando os jogadores em campo projetem em permanência uma ideia de exigência total.
Não acredito na tese de que os jogadores devam ser tratados como flores!
Quem não protagonize mínimos de capacidade competitiva, sai.
É preciso afastar.
É preciso separar o trigo do joio.
Pode levar duas épocas ou até mais para operar a transformação?
Seja! Mas pactuar com esta modorra é que não pode ser.
Por isso é que o Benfica é mais do que uma enxaqueca que se resolve com água e aspirinas. E é neste caminho que Rui Costa e José Mourinho têm de se colocar.
É vital!
Na farmácia, mas sobretudo no Estádio da Luz, no Seixal e em todos os campos em que o Benfica seja chamado a jogar.