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"É preciso falar a verdade, Rui Costa e José Mourinho, se o Benfica não correr mais em Amesterdão"

24 nov, 23:04

Rui Santos dedica a Mensagem desta semana ao presidente e ao treinador do Benfica e não deixa nada por dizer

Caros Rui Costa e José Mourinho,

Vamos lá a ver se nos entendemos:

O Rui contratou José Mourinho e colocou a fasquia alta e não é preciso explicar porquê.

O ex-treinador Bruno Lage havia confessado que tinha no plantel os jogadores que queria e havia sugerido e tentou implementar um padrão de jogo no Benfica.

Rui Costa tentou secundar Lage como, por princípio, tenta ou tentou secundar os treinadores que já teve sob contrato.

Rui Costa nunca foi um ditador, aliás é muitas vezes criticado por ser demasiado flexível.

Nada me leva a crer que Rui Costa não fez bem em contratar Mourinho.

Fez muito bem e não apenas — como se que fazer crer — por motivos eleitorais. 
 
O Benfica passou a ter na cabina um treinador com currículo incomparável, com experiência, habituado a controlar as situações, até achar que o contexto e as circunstâncias que não domina, por questões de natureza mais estrutural ou de mentalidade, é mais forte do que a sua própria capacidade para mudar as coisas e fazer acontecer. 

Chegou a essa conclusão no Fenerbahçe, mais recentemente.

O perigo é que, no Benfica, isso possa voltar a acontecer e é isso que, em primeiro lugar, deve ser equacionado e isso passa por muito diálogo entre Rui Costa, José Mourinho e Mário Branco.

Mourinho herdou um plantel que não melhorou as soluções achadas com as saídas de Di Maria, Akturkoglu e Carreras, teve o azar de ver Lukebakio — um dos futebolistas mais desequilibradores do plantel - lesionar-se, Bruma está de fora a acelerar a recuperação, Manu está a chegar, viu-se a notável diferença de discurso logo que chegou, viu-se o compromisso do treinador em tudo o que faz, no treino e durante a competição (aliás, é justo reconhecer que Mourinho, quando mexe na equipa, ela melhora, como aconteceu agora no Restelo e noutros jogos), mas as exibições — mais do que as derrotas em ambiente de Champions — não conseguem atingir um nível-padrão realmente satisfatório.

A primeira parte do Benfica frente ao Atlético foi a consagração do futebol-estátua e isso deixou Mourinho, com razão, à beira de um ataque de nervos.

E isso está a abalar a confiança de todos num contexto complexo.

O Benfica joga esta terça-feira em Amesterdão, com o Ajax, a sua última cartada para seguir para os play-offs da Champions, é uma “final”, como se costuma dizer, em que os jogadores têm de deixar a pele no campo, mas a verdade é que todos os apelos que Mourinho vem deixando nesse sentido — no sentido de os jogadores morderem mais, eu diria muito mais — não estão a ter correspondência absoluta na atitude competitiva de muitos jogadores, como aliás acentuou Mourinho no final do jogo no Restelo.

Caro José Mourinho,

Não poderia ser mais claro, convenhamos. Mas isso levanta várias questões: como se faz o turn over ou a viragem?

Para reforçar a equipa a um nível razoável nos próximos dois meses — vamos falar grosso modo de uma verba entre 30 a 50 milhões  — é preciso não sair da Champions. 

O Benfica tem pela frente o Ajax, o Nápoles (em casa), a Juventus (fora) e o Real Madrid (na Luz). Nove pontos podem ser suficientes para esse objetivo, mas não é garantido que cheguem e o calendário, convenhamos, é complexo. E se o Benfica for eliminado antes do fecho da janela de transferências? É claro que, em paralelo, o Benfica tem as competições nacionais e há já um Benfica-Sporting no próximo dia 5 de dezembro.

Os resultados vão mandar, pois claro, como sempre acontece, mas a sensação que se tem é que o Benfica — ao contrário do que é conveniente ignorar —precisa de uma limpeza de balneário, não obstante a narrativa oficial de que até janeiro o Benfica só precisa de uns retoques no plantel.

A limpeza de balneário significa dotar o balneário de jogadores que estejam dispostos a dignificar o emblema do Benfica, como estão a fazer por exemplo os jogadores do FCP sob o comando de Farioli e a supervisão de André Villas-Boas.

Sim, O Benfica tem um problema de mentalidade competitiva.

Não é aceitável que os jogadores não corram mais, com e sem bola.

Caros Rui Costa e José Mourinho,

O Benfica tem 12 ou 13 jogos, no limite, para definir o seu rumo, no curto e no médio prazos.

E só ha uma forma: o Rui ser o mais honesto possível com Mourinho e o José fazer o mesmo com o Rui.

Porque o que está em causa é o futuro menos próximo do Benfica, porque o Benfica precisa de mudar profundamente por dentro, no sentido da exigência que o Benfica necessita de aumentar drasticamente, sob pena de hipotecar esse futuro. Esta coisa de andar constantemente no mercado não é vida para ninguém.

Que se fale verdade e que se assumam em pleno todas as responsabilidades. Com coragem, mesmo que as conclusões apontem para uma revolução mais lenta e aposta noutras estratégias. Com Mourinho, se possível, mas sem Mourinho, se o compromisso… não for gigante.

Estamos entendidos?

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