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De cadeira de rodas, emocionado, o bombeiro Rosinha fez gente chorar ao pedir um Portugal melhor

Agência Lusa , MM
10 jun, 12:07

Rui Rosinha, de 46 anos, era chefe de uma viatura dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera mobilizada para estes fogos e na qual seguiam mais quatro bombeiros. Um deles morreu. Rui Rosinha foi convidado por Marcelo Rebelo de Sousa para discursar nas cerimónias de 10 de Junho

“Para quem não me conhece, sou Rui Rosinha, tenho 46 anos, sou casado com Marina Rodrigues e pai do António e do Francisco. Fui um dos bombeiros feridos no trágico incêndio de 17 de junho de 2017, quando tinha 39 anos. Sou aposentado e era funcionário do município de Castanheira de Pera. (...) Desde tenra idade, frequentava o quartel dos bombeiros com o meu falecido pai. E naturalmente segui os seus passos, tornando-me bombeiro voluntário a 29 de março de 1993. Sempre vivi em Castanheira de Pera, onde nasci, trabalhei, casei e constitui família". Foi assim que o bombeiro Rui Rosinha começou o discurso que marcou as comemorações do 10 de Junho, esta segunda-feira, em Pedrógão Grande, e deixou muitos populares de lágrimas nos olhos. 

O bombeiro Rui Rosinha, que ficou gravemente ferido nos incêndios de Pedrógão Grande, em junho de 2017, pediu  ao Governo e à oposição um “compromisso sério” com a coesão e criticou medidas que não saem do papel.

“Neste Dia de Portugal, aproveitamos o foco desta celebração para, na presença do Governo e representantes da oposição, apelar a um compromisso sério com estes territórios de baixa densidade”, afirmou Rui Rosinha, em Pedrógão Grande, na cerimónia militar comemorativa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Perante o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, membros do seu Governo e representantes de partidos na oposição, Rui Rosinha pediu uma “séria e verdadeira coesão territorial, social e estrutural, e não apenas medidas em papel sem concretização efetiva”.

O bombeiro foi convidado pelo chefe de Estado para discursar nas comemorações do Dia de Portugal, este ano centradas em Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, os concelhos mais afetados pelos fogos de junho de 2017, que provocaram 66 mortos e 253 feridos, além da destruição de casas, empresas e floresta.

Bombeiro Rui Rosinha ficou gravemente ferido nos incêndios de 2027, onde viu morrer um colega. (PAULO NOVAIS/LUSA)

Rui Rosinha, de 46 anos, era chefe de uma viatura dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera mobilizada para estes fogos e na qual seguiam mais quatro bombeiros. Um deles - Gonçalo Conceição - morreu.

No discurso, o bombeiro, que pertence ao quadro de honra da corporação, recordou os fogos, lembrando os mortos – especialmente o colega Gonçalo Conceição - e os feridos, para sublinhar que as cicatrizes “são profundas e irreparáveis”.

“A tragédia expôs muitas das nossas vulnerabilidades, mas também destacou a nossa união e resiliência como nação”, assinalou, referindo que “a região afetada mostrou ao mundo a força da solidariedade portuguesa”, sem esquecer a ajuda de comunidades estrangeiras.

“As cicatrizes nas nossas terras e almas são profundas e irreparáveis, (...) Não devemos esquecer os muitos feridos que sobreviveram e as suas famílias, que necessitam de apoio contínuo para reconstruir as suas vidas, pois o processo de recuperação é doloroso, longo e, em muitos casos, interminável", sublinhou.

Contudo, Rui Rosinha, que fez a intervenção numa cadeira de rodas, considerou que “pouco chegou ao território”: "Muito se falou e prometeu, mas pouco chegou ao território. A burocracia é pesada e demorada. Todos os dias tentamos transformar a dor em esperança. Nem sempre conseguimos. O caminho para a recuperação tem sido bastante difícil, mas como beirões resilientes que somos, continuamos a tentar, pelos que partiram e pelos que ficaram, principalmente para as futuras gerações."

Rui Rosinha foi convidado pelo Presidente da República para discursar nas cerimónias do 10 de junho. (PAULO NOVAIS/LUSA)

“O caminho para a recuperação tem sido bastante difícil”, admitiu, defendendo que se deve “pugnar para que a região afetada não apenas se recupere, mas se fortaleça, com infraestruturas mais seguras, serviços de emergência mais musculados e políticas ambientais e florestais que previnam futuras tragédias, já que as alterações climáticas são uma realidade diária”.

Para o bombeiro, “é essencial investir em atividades económicas sustentáveis que garantam um futuro próspero e, principalmente, digno para os habitantes da região”. Rui Rosinha apontou os “problemas estruturantes” com os quais se defronta quem vive, deseja estabelecer-se, investir ou fazer turismo nestes concelhos do norte do distrito de Leiria.

"Durante o dia, quando há um médico disponível no centro de saúde, já é motivo de satisfação para a população. Se precisar de ir com o meu filho ao médico, durante a noite, como tantas vezes já aconteceu, não tenho resposta, nem no meu concelho, nem nos concelhos vizinhos. (...) Nos transportes públicos, apesar de ter havido um esforço recente, a oferta na região é pouca e muito seletiva. Quem necessita de ir ao hospital a Coimbra, a uma consulta ou fazer exames ou tratamentos, não tem um só autocarro", concrertizou.

"O IC8, que rasga a nossa região, terá de ser revisto urgentemente, pois é uma via extremamente perigosa, onde há acidentes diariamente, infelizmente muitos deles mortais. Os nossos jovens são seriamente prejudicados, pois as ofertas escolares da região são limitadas e desadequadas do contexto regional e nacional", acrescentou. 

Rosinha enumerou ainda as falhas nas telecomunicações, que "tanta celeuma" provocaram na altura da tragédia e que continuam a apresentar problemas, e a ausência de empregos são os exemplos que apontou.

“Apesar de todos estes problemas e dificuldades que poderiam, facilmente, nos levar a desistir e abandonar esta região, continuamos aqui, resistindo estoicamente e com grande determinação para transformar este território, tornando-o mais atraente, justo, seguro e, sobretudo, coeso”, continuou Rui Rosinha.

O bombeiro, que se definiu como otimista, disse ainda aspirar “por um Portugal onde todos os cidadãos, independentemente do seu local de residência, possam viver com dignidade, segurança, esperança e sem discriminação negativa”.

“Que todos os portugueses, tanto os que vivem em Portugal quanto os da diáspora, aprendam com o passado, se unam no presente e trabalhem juntos por um futuro onde a segurança, a prosperidade e o bem-estar sejam uma realidade para todos”, adiantou.

Para Rui Rosinha, a homenagem às vítimas mortais da tragédia de Pedrógão Grande passa por se “continuar a lutar por um país mais forte e resiliente”.

“Que o espírito de solidariedade, união e justiça nos guie rumo a um futuro melhor para todos”, acrescentou o bombeiro, terminando com “Viva Portugal”.

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