Rui Pinto assume que estava à espera "de uns trocozitos", mas o Football Leaks "acabou por só dar prejuízo"

Inês Pereira , Com Lusa
24 out, 11:11
Football Leaks: Rui Pinto admite poder ter cometido o crime de extorsão à Doyen, mas insiste na “utilidade da informação”

EM ATUALIZAÇÃO

Rui Pinto negou esta segunda-feira que tenha criado um perfil de Facebook que servia para fazer publicações para humilhar o Sporting: “Isto fazia parte de uma estratégia do Benfica, com o seu exército digital", explicou o hacker, em mais uma sessão do julgamento a decorrer esta manhã no Juízo Central Criminal de Lisboa.

Negou também que tenha feito a publicação “Apanhem-me se puderem” - uma publicação muito falada na comunicação social na altura.

O hacker de 34 anos divulgou mais detalhes em tribunal sobre o Football Leaks e reiterou o que já tinha dito nas outras sessões: não receberam no Football Leaks qualquer tipo de doação. Mas assumiu que “estava à espera do suficiente, de uns trocozitos para continuar o projeto". "Acabou por dar só prejuízo”, resumiu.

As contribuições eram pedidas em bitcoins, no site do Football Leaks. Mas “as pessoas não gostam de gastar dinheiro”, concluiu.

Rui Pinto acusou a Polícia Judiciária (PJ) de ter colocado a sua vida em risco por, alegadamente, ter partilhado a sua identidade com o fundo de investimento Doyen em novembro de 2015. O criador da plataforma eletrónica visou diretamente o inspetor-chefe Rogério Bravo, cuja atuação neste caso já chegou a ser investigada, e alegou que a Doyen – que é assistente no processo – chegou a contratar pessoas para irem atrás dele na Hungria.

O hacker declarou que teve conhecimento de um "negócio" entre oelemento da PJ e Nélio Lucas: "Nélio Lucas [da Doyen] entregava o relatório da Marclay [empresa de cibersegurança contratada para investigar a intrusão informática], de uma investigação privada, e a PJ dava o nome do suspeito. O meu nome foi entregue a 26 de novembro de 2015 por um elemento da PJ a Nélio Lucas, colocando a minha vida em risco".

Segundo Rui Pinto, que está a prestar declarações ao coletivo de juízes pela terceira sessão consecutiva, a Doyen ainda hesitou em ceder essa informação às autoridades portuguesas, mas terá preferido obter a informação sobre a identidade do responsável pela intrusão informática.

“A Doyen Capital e a família Efendi, na altura, temiam danos reputacionais caso fosse divulgado publicamente que teriam sido alvo de um acesso ilegítimo. Pesaram os prós e contras e concordaram em entregar essa informação, porque era mais valioso o nome do suspeito. Contrataram pessoas na Hungria para chegarem até mim”, sublinhou, continuando: “Ainda estavam indecisos relativamente à utilidade da PJ, porque queriam resolver pelos seus meios”.

Rui Pinto responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e foi o que levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 7 de agosto de 2020, “devido à sua colaboração” com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu “sentido crítico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.

Rui PInto confirmou que teve acesso ao sistema informático da Federação Portuguesa de futebol em novembro de 2015, "para obter acesso a credenciais do departamento de registo e transferências, para ver os contratos dos jogadores". 

Acredita que "os acessos de 2018 foram feitos por outros membros do Football Leaks". E explica: "Em 2017 foram feitos acessos que permitiram obter credenciais para acesso a pastas do departamento jurídico. Eu não estava sempre ao corrente do que era feito. Não estava a monitorizar tudo o que se passava".

Além disse, Rui Pinto garantiu que não consultou a classificações de árbitros em 2015/2016: "Tenho quase a certeza que não consultei estes documentos. 
A temática das arbitragens não me interessava". E também assegurou que nunca visualizou "a caixa de correio electrónico da Federação Portuguesa de Futebol". 

Rui Pinto assumiu que é o único autor do Luanda Leaks, não teve outros dos elementos do Football Leaks com ele neste processo.

Por outro lado, garantiu que não é o autor do  blogue "Mercado do Benfica".O blog mercado do Benfica foi criado por um elemento do football leaks. “Ele achou que assim teria mais impacto” "Tive várias discussões com o autor do mercado do Benfica. Eu queria colocar as informações no football leaks, ele por estupidez ou teimosia não quis", disse em tribunal.Rui Pinto queria entregar essas informações ao consórcio de jornalistas: “A divulgação de caixas de correio foi um comportamento inadmissível, eu não queria que isso acontecesse assim, não consegui fazer nada. Bem tentei”.

“Eu a única coisa que posso dizer é que lamento Não vou pedir desculpa por uma coisa que não fiz", afirmou.

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