Rui Mota: «Ludogorets? Quando ganhas há 14 anos consecutivos és o alvo a abater»

28 jul 2025, 09:39
Rui Mota pelo Ludogorets (FOTO: Victor Boyko/Getty Images)

Fez história no Noah, da Arménia, e agora rumou ao campeão da Bulgária. A ambição, como conta em entrevista ao Maisfutebol, mantém-se a mesma: vencer a nível nacional e chegar longe nas competições europeias

Rui Mota está no 12.º país da carreira. O técnico português rumou ao Ludogorets, da Bulgária, clube que é campeão nacional há 14 anos consecutivos. Antes, fez história no Noah, da Arménia, onde conquistou a primeira Liga da equipa.

Agora, aos 46 anos, passa para uma realidade diferente. O contexto é de quem está «acomodado» a vencer sempre. A pressão não o abala, pelo contrário, até motiva, como conta em entrevista ao Maisfutebol. Além da motivação de vencer o 15.º título nacional, Rui partilha a ambição de chegar à fase de liga da Ligas dos Campeões.

Na primeira pré-eliminatória da competição, o Ludogorets superiorizou-se ao Dinamo Minsk, da Bielorússia. Neste momento, o clube búlgaro encontra-se na segunda pré-eliminatória da «liga milionária» a medir forças com o HNK Rijeka, clube croata que conta com o ex-Benfica Tiago Dantas. 

Depois de um nulo na primeira mão, a eliminatória vai decidir-se na Bulgária, no próximo dia 30 de julho. 

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O que o levou a aceitar o desafio no Ludogorets?

O Ludogorets é um clube de outro patamar. Além de nos permitir do ponto de vista europeu poder ambicionar outros rumos, é um clube também que luta para conquistar títulos. E isso é o que nos move. Nós sentimos que era um patamar acima de onde estávamos. Não foi de forma nenhuma fácil a saída. Acabamos por ter um ano de excelência. De ajudar o Noah a crescer e a organizar-se a todos os níveis. E depois não podemos esquecer que nós criámos a raiz. E portanto a relação com os jogadores é extremamente profunda. Não foi fácil, mas nestes casos temos de pensar com a cabeça e não com o coração.

Sente que pelo menos deixou bases para tanto o Noah como a Arménia conseguirem dar passos em frente no futebol?

Posso dizer que nós fomos mais do que uma equipa técnica. Ajudamos o Noah a crescer. Porque o clube não fazia ideia do que era uma deslocação europeia. Da forma como é que tem que estar organizada. Na altura quando nós lá chegámos o tratamento de relvado não era o mais adequado. Lembro-me também da questão da academia que estava a ser feita. Inúmeras intervenções que nós tivemos que ter do ponto de vista a tornar a academia super funcional. A forma como o clube tinha de se organizar e orientar. Houve uma série de situações que nós durante a época tivemos de nos debruçar e defender. Porque acho que também temos que dar ao futebol, não é só receber dele. Mas a verdade é que estava tudo muito em cima de nos dedicarmos mais àquilo que é o nosso propósito. Foi um ano extremamente gratificante para todos nós e acho que o clube deu um passo em frente. 

Ou seja, passa de um clube que não ganhava para um que está constantemente a vencer. Como é que olha para essa diferença de realidades? 

São desafios diferentes. É sempre bom estar num clube que tem uma mentalidade ganhadora e que luta para ganhar todos os anos. Porque nós vivemos de títulos. Então nós treinadores sabemos o quanto é importante conquistar títulos para nos podermos ainda projetar mais e ambicionar outros saltos também. Quando chegamos à realidade percebemos que pode haver um acomodar-se de já estarem habituados exatamente a isso. O importante é analisar bem, sentir bem o contexto e definir as melhores estratégias para que possamos ganhar o 15.º título. E que possamos, dentro daquilo que são os objetivos europeus, estar presentes nas competições europeias.

O Ludogorets é uma equipa que está habituada a vencer. Como é que reage a essa pressão de obrigação de vencer? 

Do ponto de vista pessoal, qualquer que seja o clube onde esteja - e também enquanto treinador adjunto tive em contextos que assim o obrigava - são com estes contextos que eu me identifico. Eu lembro-me na altura quando iniciei como treinador principal no futebol profissional, a exigência que eu incutia no meu dia-a-dia e nos meus jogadores era a mesma. Ou seja, cada jogo é para ganharmos. Aqui há essa exigência e esse sentimento para mim é algo que é diário. 

A última vez que o Ludogorets participou na Liga dos Campeões foi na época de 2016/17. Isto passa algum tipo de sentimento de desafio?

Faz parte sempre da minha forma de estar. A ambição é sempre chegar o mais longe possível nas competições. Foi assim que nós também chegamos o ano passado à Liga Conferência quando ninguém acreditava, no Noah. Nós acreditamos e trabalhamos para isso. E aqui é exatamente a mesma coisa. Vamos lutar por cada jogo e cada eliminatória para depois chegar à tão desejada Liga dos Campeões. Temos de ter a convicção de que somos capazes. Aquilo que o clube nos pediu foi chegar à Liga dos Campeões, sabendo evidentemente que é uma competição extremamente difícil. O excelente seria chegar à Champions, o bom objetivo seria chegar à Liga Europa e o menos mau seria chegarmos à fase de liga da Conference League.

Como é que analisa o futebol búlgaro até então?

O que posso dizer é que claramente são equipas que do ponto de vista de conforto com o Ludogorets oscilam muito. Aquilo que fazem nos outros jogos é um pouco diferente do que fazem connosco. Alteração de sistemas constantes… como é óbvio o Ludogorets é o maior clube da Bulgária e portanto há toda uma preparação diferenciada para esse jogo.

Sente que é o clube a abater?

Sim, claramente. Toda a gente quer ganhar ao campeão, ainda para mais quando se ganha tantas vezes. Quando ganhas há 14 anos consecutivos és o alvo a abater, sem dúvida alguma.

 

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