O jornalista escreve sobre o medo, a televisão e a seleção que lhe tatuou o nome “na pele das emoções”. Entre o Tubarão de Spielberg e os Tubarões de Cabo Verde, o Mundial de 2026 ganhou outro campeão: “para mim, o campeão mundial em 1990 é Camarões e o de 2026... Tubarões”
Digo-o, sem medos. Nunca me passa pela cabeça aparecer na televisão. Talvez por timidez, talvez por sopinha de massa, talvez por respeito. Talvez por medo.
Medo.
O medo vem de trás. Outros medos, quero dizer. E o grande responsável é o cinema. Primeiro é o Duel, uma aventura tão ilógica como assustadora, uma perseguição aterradora e angustiante porque o condutor do camião jamais dá a cara. Ou seja, não sabemos como ele é fisicamente. É uma figura literalmente indecifrável. Ainda ninguém sabe, mas o poeirento Peterbilt 218 parece-se com o T-Rex do Parque Jurássico ou o Tubarão do Jaws, ambos de Spielberg. E isto do Jaws tem a sua razão de ser, porque o Tubarão é outro filme incómodo. Ao ponto de nunca entrar com confiança ilimitada numa piscina, quanto mais em alto-mar numa praia qualquer perto de mim. Mesmo aqui, em Porto Covo, estou sempre a dizer a mim mesmo, “you’re gonna need a bigger boat”. Qual barco, qual carapuça.
Medo, já entendem?
Qual televisão, qual carapuça. O meu sonho de consumo é escrever. Todos os dias. Dá saude e faz crescer. Para falar e para aparecer no ecrã, é o meu pai. No final dos anos 90, o meu pai convida-me para fazer os comentários dos famosos Eurogolos na segunda-feira à noite, na Eurosport, pertença à RTP, na Cinco de Outubro. Desculpo-me com o trabalho no Record e as aulas na UAL (essa é boa, ahahahah). Mesmo quando me ligam da TVI ou SIC para ir fazer a revista de imprensa, desmarco-me sempre ou então adio a resposta por uma horas. O meu pai, fulo da vida. Até porque os produtores teimam em ligar-lhe primeiro para pedir o meu número de telemóvel. Ou seja, o meu pai convence-se da minha ida à tv. E eu está quieto. É assim durante anos (impõe-se aqui um Mutley). No hard feelings, ele (o meu pai) compreende a minha aversão. Que só se altera em 2014. Falo a última vez com o meu pai no dia do Argentina-Suíça, 1/8 final do Mundial, no Brasil.
Da Quinta dos Barros ao Itaqueirão, em São Paulo, é uma chamada distante e de longa distância. Como sempre. Bola, bola, família, vá, e mais bola. Sentado uns lugares à minha direita, Alexandre Santos da RTP. Os acontecimentos trágicos precipitam-se e nem me lembro mais do Mundial. Nem do Alex. Até me telefonar em Agosto com uma proposta de trabalho para entrar num programa de duas horas em directo na RTP1, chamado 4x4x3. Ele é o pivot, Jorge Andrade e José Nunes os companheiros de luta. Aceito-o sem pestanejar. Inexplicavel, nem adio ou nego. Mal desligo o telefone, arrependo-me. Medo.
A ideia atrapalha-me, pronto. No primeiro dia, então, é um formigueiro dentro de mim. Help. Entro na sala de maquilhagem e ouço o Jorge Andrade a falar com uma produtora angolana da RTP. Cinco, seis, cinco, seis. Em causa o número de países africanos de língua oficial portuguesa. A produtora cita os cinco: Angola um, Moçambique dois, Cabo Verde três, São Tomé quatro, Guiné-Bissau cinco. Jorge Andrade defende o sexto. Amadora, de onde ele é natural. E ri-se à grande. É a minha cura para o nervosismo. Daí em diante, nunca mais sinto o formigueiro dentro de mim (ok, concedo: só quando beijo ‘a’ pessoa).
Jorge Andrade é um personagem raro, de sorriso fácil, boa disposição contagiante e conhecimento epistolar sobre bola. Quando é jogador, craque. Daqueles capazes de sacar a bola ao avançado mais afoito e sair a jogar, à Beckenbauer. Depois de arrumar as chuteiras, craque. Daqueles capazes de comunicar, de abraçar e de perguntar tudo e mais alguma coisa, com naturalidade, seja sobre família ou namorada (podia, sim senhor, acrescentar um ésse, mas não sou matador nem Don Juan, só o pai da Ema). Uma vez, apanho-o algures (Reboleira?), a brincar com os antigos heróis do meu/nosso contentamento, muitos deles vencedores daquela Taça de Portugal em 1990, vs. Farense, com direito a finalíssima. Jorge Andrade é rei no meio dessa malta, porque a sua boa disposição contagia o mais sisudo de todos. Que o diga Fernando Santos. ‘Está cá, o mister? Olha que bem, o empate está garantido!’ É de partir o coco. Nesse dia, ainda me lembro como fosse hoje, agora mesmo, almoço a bela de uma cabeça de garoupa n’O Cantinho do António. A entrada é a pés juntos, como gosto. Peço água para abrir o apetite e o dono do restaurante responde-me sem pestanejar ‘aqui não se serve água, só cerveja, vinho, medronho, moscatel ou jeropiga’. Se acha isto cómico, então fique-se com esta: estou a dividir a cabeça de garoupa com um senhor cujo apelido é Frango, Francisco Frango.
Medo? Poesia, isso sim.
Nada perdi.
Tudo terei.
Fernando Pessoa. Estou no Parque Fernando Pessoa, nas traseiras da avenida de Roma, a empurrar o baloiço à Ema. No meu campo de visão, uma série de babás. Todas vestidas à Cabo Verde. É a primeira vez que aquele azul me entra pelos olhos. Os dias passam, atropelam-se uns à frente dos outros, e começo a ver mais vezes aquele azul, enfiado em corpos atarefados, seja deitados ao sol, seja numa correria desenfreada entre carruagens no comboio. Cabo Verde está no meio de mim. Quando entram no Mundial, nem pestanejo – são tantas as selecções, até Curação. No jogo de estreia, vs. Espanha, apanho-me a ver o jogo pela televisão. Só por uns 30 minutos, até entrar num estúdio. Quando acaba o programa, informam-me do 0:0. Extraordinário. Mas um extraordinário sem pestanejar. Depois vejo o resumo. Vozinha, madre mía, Vozinha. No quadradinho seguinte, já no autocarro de volta para Porto Covo, vejo uma falta cometida. Uma? Impossível. Se fosse uma da Espanha, clara dominadora, ainda vá. Agora Cabo Verde, 28% de posse de bola? Impossível. Revejo o jogo. Uma falta, sim. E vi-a em directo, é a do cartão amarelo para Sidny Cabral.
Uruguai, 2:2. Arábia Saudita, 0:0. Invencível, três pontos e qualificação para os 16 avos-de-final. Argentina, vem aí a Argentina em Miami, casa de Messi. Será? Será possível uma surpresa? Lembro-me de há dois dias, sonhei acordado com vitórias de Congo e Senegal. África Minha. África Nossa. À tarde, Congo marca primeiro. Tu queres ver?! À noite, Senegal também. Olha olha. Nada feito, Inglaterra e Bélgica cumprem o seu papel de favorito, esse palavrão futebolístico tão castrador, aaaarghhhhhhh.
O que dizer então do 3:2 da Argentina vs. Cabo Verde? Nem sei. Só sei que dei milhares de cabeçadas no ar até adormecer por completo às três com as jogadas na minha cabeça e devo ter sonhado com elas, porque acordei às cinco e tal a pensar ainda na coragem de ir para a frente sem medos, a pensar no 2:2 do Sidny Cabral e agora, às sete, estou a escrever ao ar livre, na esplanada do “Figo”, a ouvir pássaros e mais pássaros à minha volta, quiçá a comentar entre eles a odisseia cabo-verdiana.
Passei os últimos 36 anos da minha vida a sonhar com isto. E o isto é uma selecção africana que me tatue o seu nome na pele das minhas emoções, ao lado da dos Camarões em 1990. Aquele 3:2 à Inglaterra, em Nápoles (só associei agora, fooogo, o melhor jogo desse Mundial foi na casa de Diego), está aqui. E o aqui é tal pele das minhas emoções. É claro que quero saber qual o nome da selecção campeã na lista oficial da FIFA, mas, para mim, o campeão mundial em 1990 é Camarões e o de 2026... Tubarões. Muitos. E o medo? Carapuça com ele, isto é um filme digno de se ver, para a eternidade. Câmera, luzes, Cabo Verde.
