O Sporting soltou os génios e arrasou o Sp. Braga: «Foi um vendaval»

21 jan, 00:13
António Oliveira e Rui Jordão (foto: Liga)

O domingo que encerrou uma das mais bonitas relações amorosas que houve no campeonato português

A História de Um Jogo é uma rubrica do Maisfutebol. Escolhemos um dos encontros do fim de semana e partimos em busca de histórias e heróis de campeonatos passados. Às quinta-feiras, de 15 em 15 dias.

À primeira vista, aquele domingo de 1984 seria apenas recordado como o 47.º do ano. Um domingo qualquer. Um desses dias em que, adivinha-se, houve futebol à tarde, jogaram Benfica, FC Porto e Sporting como sempre jogavam. Aquele 18 de novembro, porém, encerrou uma das mais bonitas relações amorosas que houve no campeonato português: a de António Oliveira com as balizas.

O velhinho José Alvalade assistiu a uma tarde de genialidade (vídeo no final da página). Aquele domingo foi uma das últimas vezes em que Oliveira, Jordão e Fernandes se juntaram em campo de verde e branco para «arrasar» um Sp. Braga que, à época, era bem diferente daquele que visita Lisboa neste sábado, apesar de uma outra coincidência entre passado e presente.

Dois craques vindos do FC Porto e Luís Filipe Vieira...Carvalha

Antes de mais, o Sporting. Era a época de 1984/85. João Rocha ataca o FC Porto e a Alvalade chegam Sousa e Jaime Pacheco, dois craques dos azuis e brancos, finalistas da Taça das Taças frente à Juventus. Os dragões reagem e ficam com…Paulo Futre. O Sporting perdeu o seu menino de ouro, mas em Alvalade ainda há Manuel Fernandes, há Rui Jordão e António Oliveira já deixara de ser treinador-jogador para «limitar-se» a fazer o que sempre fez de melhor na vida: jogar à bola.

Agora, o resultado desse domingo, 18 de novembro de 1984. Ficou 8-1 para o Sporting. Foi uma das maiores goleadas da história [9-0 e 8-0 também existem] aplicadas pelos leões ao visitante desta jornada. E, aí está, primeira coincidência, o Sporting apresentou-se em 1984 como se deve apresentar em 2022.

«Jogávamos com três centrais. Nesse dia, Venâncio, Virgílio e Zezinho. Portanto, Oceano, Sousa e Litos no meio-campo, eu e Mário Jorge nas alas…», conta-nos Carlos Xavier, o homem do corredor direito de um treinador que lhe marcou a carreira. 

«Com as características que tínhamos, o John Toshack percebeu que era o ideal para nós. Quem gosta de jogar futebol gosta de atacar e não defender. Andávamos sempre do meio-campo para cima. Era realmente ofensivo», lembra o antigo jogador dos leões.

António Oliveira nos tempos de selecionador nacional.

Jaime Pacheco não está na ficha de jogo é o rapaz Luís Filipe Vieira [calma, não se assuste, nem culpe quem escreve] Carvalha quem assume a titularidade. Com apenas 18 anos e um enorme talento, Litos entra no onze inicial leonino apenas pela quarta vez na carreira. Toschak, como Ruben Amorim, não tinha problemas em lançar jovens.

Ou jogadores que vinham de níveis inferiores do futebol português: contratado ao Nacional da Madeira (II Divisão), Oceano é titularíssimo com o galês e nesse domingo 47.º de 1984, não seria diferente.

Às 16h05 (se o jogo começou a horas), o primeiro golo mostrava um pouco desse Sporting subido no campo que Carlos Xavier relata. Outro produto da formação verde e branca, Mário Jorge arranca, tabela com Manuel Fernandes e o leão faz 1-0. Havia cinco minutos de jogo.

É este Sporting que o Sp. Braga visita. Um leão que luta taco a taco com o FC Porto pela liderança, com o Benfica no terceiro posto. Em 1984, como em 2022. Ora aí está outra coincidência.

Se esteve atento ao que leu acima, no onze do Sporting não está enunciado por Carlos Xavier os homens do ataque. «Jordão e Manuel Fernandes na frente», diz, para completar: «Fazíamos muitos golos, sofríamos muitos, mas marcávamos mesmo muito.»

Na equipa titular, faltava um nome já aqui mencionado: o de Oliveira, pois claro, nesse dia suplente.

O destino picou o ponto e entrou ao trabalho

A visita do Sp. Braga a Alvalade em 1984 não tem só coincidências com 2022. Tem diferenças gritantes. Antes desse 8-1, o Sp. Braga vencera três jogos seguidos aos leões, o último deles em Lisboa e a acabar com um jejum de 26 anos sem vencer no recinto do leão.

Portanto, o 1-0 aos cinco minutos aliviava adeptos, mas não dava para sossegar. Ninguém sabia ainda, mas por volta das 16h30, meia hora depois do início do jogo, o destino picou o ponto e entrou ao trabalho.

Carlos Xavier jogaria para Toshack na Real Sociedad. Reconhece alguém em segundo plano? (foto Facebook pessoal Carlos Xavier)

O jovem Litos lesionou-se e Alvalade teria, mais uma vez, ocasião para ver Fernandes, Jordão e Oliveira juntos por uma hora. Ao fim de cinco minutos, António fez o 2-0 num pontapé de fora da área. Havia 39 minutos de jogo.

A memória de Carlos Xavier dizia-lhe que havia 2-1 aos 45 minutos- «o resultado estava curto ao intervalo» – mas o golo minhoto chegou no segundo tempo. Zinho, de penálti, aos 47. Se se retirar o tempo de descanso, Xavier só se engana por 120 segundos.

Com o destino a pregar um susto, mas já com astros alinhados, o Sporting viria a arrasar o Sp. Braga com «20 minutos espetaculares» e com um trio em destaque.

«Era um fora de série, quem mais se aproximou de Eusébio»

«Foi uma segunda parte fabulosa, foi um vendaval de golos», narra Carlos Xavier, ala direito de uma equipa que fazia o 3-1 porque a genialidade do dia a dia de Manuel Fernandes era ser letal na área. Bola de ninguém, golo do Sporting.

O 4-1 merece uma pausa. António Oliveira desmarca Jordão na direita. O homem de Benguela faz uma pintura no relvado, atira um defesa ao chão com uma finta e devolve a bola ao ex-FC Porto, futuro selecionador nacional entre outras coisas, e craque da cabeça aos pés. É com o direito, de fora da área, que António Oliveira aponta o seu último golo no campeonato nacional, dizem-nos os registos. Um golo lindo como tanto ele fazia.

A Oliveira já voltamos, este é o momento de Manuel Fernandes fazer o 5-1, a passe de Rui Jordão. De todos os génios, o mais genial de todos para Xavier.

«De caras. Era um jogador especial, condições técnicas, físicas e atléticas impressionantes. Foi quem mais se aproximou do Eusébio em termos de beleza a jogar futebol. Jordão era um fora de série. Era completo.»

Jordão faz então o 6-1 com a classe, elegância e inteligência que o distinguem. Na área, um chapéu cheio de finesse.

Se Rui era inteligência, Manuel era instinto. O 7-1 é um remate à meia-volta na área, para completar o hat-trick e lançar o último dado deste jogo histórico: o 8-1. Oliveira saiu da lâmpada outra vez, driblou adversários e com um passe sublime isolou o eficaz Eldon.

Deste brasileiro poucos se lembrarão, como daqui não sai grande memória de Vítor Damas na baliza do Sporting. Nesse domingo, 47.º de 1984, os génios soltaram-se mais à frente e o vendaval que arrasou o Sp. Braga era palavra composta: Oliveira-Jordão-Fernandes.

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