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Sou o Ibrahim, fui revistado pela PSP no Martim Moniz

20 dez 2024, 21:32
Rua do Benformoso, no Martim Moniz, em Lisboa

REPORTAGEM || No Martim Moniz "não há terroristas, há gente normal", mas houve pessoas esta quinta-feira "tratadas como criminosas; são inocentes". No Martim Moniz a PSP "não apertou muito, não foi 'tight-tight'", mas "era muita polícia, ui que era tanta!". Com exclamação. "Perigoso, este sítio? Olhe, comigo ninguém se mete." O problema é quando se metem fora do Martim Moniz: "Noutras zonas já soube de ataques a rapazes do Bangladesh. Ainda há 15 dias houve"

Português só falam “a little bit”, inglês é “so-so” — mas cá nos entendemos. 

Dois amigos, dois bengalis, sentados num banco de pedra partilham mais do que só amizade. Chegaram a Portugal há menos de um ano, trabalhavam ambos numa pequena mercearia da zona dos Anjos, Lisboa, que encerrou em dezembro — porquê não sabem. Procuram ambos emprego — e enquanto encontram e não encontram queimam dias naquele banco e noutros bancos do Martim Moniz. Têm os dois 30 anos, um é Hussein Kamil, outro Ibrahim Hussein, e estes dois amigos estiverem presentes na aparatosa operação policial que fechou de ponta a ponta a Rua do Benformoso e encostou dezenas de pessoas à parede para serem revistadas.

É aqui que se separam as histórias de Hussein e Ibrahim. 

O segundo foi revistado e o primeiro não, mostrando agora as fotos que de longe tirou. Ibrahim desvaloriza o acontecimento. “A mim só pediram os documentos, dei e fui-me embora. Intimidado? Não, não senti. Não tenho droga, não tenho nada. Sou um tipo normal. Normal.” A palavra “normal” impera no discurso de ambos. Ouçamos Hussein sobre o que se diz que há mas nunca viu: crime. “Crime aqui? Tráfico? Nunca vi. Mas se a polícia diz que há é porque há. Mas quem não fez nada mal, de errado, não deve temer. Não é? É normal. Sempre vim do trabalho [nos Anjos] para aqui, a pé, sempre seguro — vivo nem a 500 metros da rua do Benformoso. É normal.” 

Apesar de falar em defesa do Benformoso e do Martim Moniz, nem sempre sentiu a mesmo segurança em Lisboa. “Há racismo. No Martim Moniz não. Mas noutras zonas sim. Há pessoas racistas, há em todo o lado, olham para mim com olhos diferentes. E já soube de ataques a rapazes do Bangladesh como eu. Ainda há 15 dias houve.” Ibrahim, o revistado, acena que “sim” quanto ao racismo, mas recusa ver racismo na intervenção de quinta-feira da PSP. Na verdade, defende ambos os lados, moradores e autoridades. 

“As pessoas pensam que o Martim Moniz é perigoso. Não é. E pensam que a polícia foi violenta. Não foi. Foi só uma inspeção. À procura de drogas e assim. É normal. A polícia não aperta muito. Não é tight-tight. Há gente de muito lado, Bangladesh, Paquistão, Índia. Mas é tudo boa gente, tudo gente, como dizer?, normal.”

Deixamos a normalidade do banco de pedra e avançamos rumo à rua de que todos falam. 

Rua onde se apreenderam uma faca, sete bastões, 17 envelopes com fotos tipo-passe (suspeitas de poderem ser utilizadas em ilicitudes), 581 gramas de haxixe, um telemóvel furtado, uma centena de artigos contrafeitos e dinheiro, 4.000 euros em notas. Detidas foram somente duas pessoas. Dois portugueses.

A oposição ao Governo considera tudo demasiado aparatoso para tão pouca criminalidade. A PSP diz que no Benformoso é “frequente ocorrerem situações de desordem”, justificando a intervenção. O primeiro-ministro defende esta “fiscalidade de atividades ilícitas” e o combate a “condutas criminosas", que vêm trazer “tranquilidade aos cidadãos”. A operação já resultou num puxão de orelhas do Presidente da República a Luís Montenegro: Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que ainda não viu as imagens de pessoas encostadas à parede a serem revistadas, mas diz que vai esperar para apurar se houve o “recato que era indicado”. E disse mais ainda: “A segurança deve ser exercida respeitando as regras constitucionais e legais”. Recado dado. De volta ao Benformoso.

De extremo a extremo, passo calmo, a direito, percorre-se a rua em não mais que cinco minutos. E só são cinco porque não é a direito-direito, faz-se como que em gincana — certamente que é das ruas estreitas na capital a mais populada, maioritariamente por cidadãos da Índia, Paquistão, Nepal e Bangladesh. 

Há portugueses, poucos, aqui vistos entre situações de alcoolismo, toxicodependência, mendicidade ou prostituição. Há somente duas lojistas portuguesas, que espreitam à porta — estão mais curiosas com o aparato das televisões do que com o corrupio, porque corrupio é habitual  — numa daquelas velhas retrosarias da Baixa, mas não falam “porque o patrão é que fala e ele está ausente”. Mas uma murmura: “Isto ontem foi complicado. Era muita polícia, ui, tanta! Perigoso, o Benformoso? Olhe, comigo ninguém se mete”. E mais não se lhe retira “porque o patrão não quer que a gente fale e a gente não fala”. 

Seguimos para o café vizinho, pequeno, de comida do Bangladesh, está vazio. O balcão é alto, estão em curso as tradicionais fritadas bengalis e de lá de trás ergue-se a cabeça de Mahmud Sumir, 40 anos. Interrompemos uma videochamada que faz com a mulher e os filhos. “Vim há três anos. Vim sozinho, a mulher e os filhos virão em breve. E tenho o restaurante há mais ou menos dois anos. Mas sempre vivi aqui, nesta rua.” 

Impõe-se perguntar que rua é a de Mahmud. “Viver aqui? As pessoas são realmente boas. E convivem. Mas claro que como em todos os lados há problemas.” Ouve-os. Mas só isso: só ouve. “Eu estou aqui, ouço-os [desacatos] lá fora, mas não me envolvo. Estou aqui só para trabalhar. Entro de manhã e saio à noite. Portanto, eu até sou a favor de vir a polícia de vez em quando — é importante.” 

Quinta-feira, como sempre, só ouviu. E viu, mas na Internet. “Vi aí, sim, vi gente contra a parede… [pausa pensativa] que eu até julgo ser gente de fora, não gente que aqui trabalha. Passa aqui tanta gente diariamente.” Como outros em favor da intervenção policial, recusa ver nela um ato racista. “Nunca senti, os portugueses são acolhedores e Portugal é um país bom para mim. E a polícia também.”

Imagem de arquivo foto Rodrigo Cabrita

Por hábito nos barbeiros portugueses, ou nos da velha guarda talvez, enquanto se corta o cabelo corta-se na casaca. Procuramos um barbeiro. O maior. A meio da rua. Está à pinha mas à pinha, e Ali, “só Ali”, o barbeiro de serviço, há nove anos em Portugal e nove no Benformoso, nunca larga da tesoura para responder às perguntas. E responde como a lâmina, afiado. 

“Quinta-feira? Não é bom, não é bom para o ambiente, para como nos veem de fora, para o que pensam de nós. Entendes? Fecharam a rua em cima, em baixo, ninguém entra, ninguém sai, encostaram as pessoas à parede. Foi exagerado, não há aqui terroristas, não se pode tratar esta gente como terroristas, como criminosos. Não são. São inocentes.”

Perguntamos-lhe quem vive ali, na rua. Responde enquanto termina um corte à escovinha. “Quem vive aqui, quem trabalha aqui, é gente calma. Eu conheço sobretudo a comunidade do Bangladesh. É uma comunidade trabalhadora. Nunca criou problemas. Nunca fez nada de errado. Fiquei triste com o que se passou quinta-feira. Eu vivo aqui há nove anos, trabalho aqui há nove e nunca vivi isto.”

À saída da barbearia de Ali, “só Ali”, um grupo de toxicodependentes portugueses ameaça-se ao longe. “Tu falas muito é com seis ou sete contigo. Sozinho nem pias, tu!” Os nepaleses e paquistaneses e indianos e bengalis, a maioria, ignoram a contenda. Talvez nem a entendam. Português é só “a little bit”.

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