Fenómeno cresce com redes transnacionais, abuso de confiança em alugueres e esquemas de falsificação que dificultam recuperações e acumulam prejuízos
Em Portugal, no ano passado e só na área da PSP, foram registados 5.632 furtos de viaturas, mais de 15 por dia, uma tendência que as autoridades classificam como “uma das áreas mais lucrativas da criminalidade organizada”. Ou seja, mais 302 furtos do que em 2023 e mais 183 do que em 2024, traduzindo um crescimento acumulado de cerca de 5,7% em dois anos.
O Exclusivo acompanhou dois agentes da Brigada de Prevenção Criminal da PSP que utiliza o chamado “Polícia Automático”, um sistema que, através de câmaras, lê matrículas em tempo real e identifica, num segundo, veículos furtados, viciados ou associados a crimes.
Os agentes percorrem todo o distrito de Lisboa, enquanto a câmara varre todas as viaturas ao alcance. “A câmara está sempre a ler matrículas. Caso exista alerta, soa logo e aparece indicado o ilícito associado”, explica o agente André Pires. E acrescenta: “Pela experiência que temos, quando tentamos abordar uma viatura furtada, o condutor não colabora. Nos últimos meses, a média tem sido de dois a três carros furtados por dia.” Durante o patrulhamento, surge um alerta para um carro que deveria ter sido devolvido após um dia de aluguer: “Encontra‑se em abuso de confiança. Está em falta desde 14 de fevereiro”, descrevem os agentes.
A criminalidade ligada às rent‑a‑car tornou‑se, aliás, a maior preocupação das autoridades. Os esquemas são variados: documentos falsos, identidades inexistentes, alugueres feitos por “testas‑de‑ferro” vulneráveis, carros exportados para África ou para países da Europa, viaturas rematriculadas no estrangeiro e veículos vendidos com documentação fraudulenta. “Neste momento, o maior volume de trabalho que temos é precisamente o abuso de confiança em aluguer de veículo”, confirma o agente André Pires numa das ações de fiscalização, sublinhando que muitas viaturas acabam subalugadas ilegalmente ou desaparecem durante meses.
Do lado das empresas, o cenário é devastador. Rui Ferreira, representante de duas das maiores rent‑a‑car, descreve um problema que já se tornou sistémico: “Desde sempre houve problemas com alugueres suspeitos. Há quem não queira entregar as viaturas, quem as use para cometer crimes e quem as exporte, enviando carros para África ou usando transferências de propriedade falsas. Já aconteceu de tudo.”
O impacto, explica, prolonga‑se durante anos: “Temos uma situação em que as viaturas estiveram apreendidas durante dez anos, com dois ou três mil quilómetros.”
Segundo conta, 2025 foi “o pior ano de sempre” e 2026 “está a ir pelo mesmo caminho”: “Hoje já fiz quatro denúncias na esquadra; na semana passada fiz 15.”
Os números, descreve, são brutais: “No ano passado foram 500 e tal processos. Este ano já vou com 60 ou 70, e só este mês levo quase 40.” Alguns casos são transnacionais: “Tenho carros na Alemanha, na Bélgica e já tive um na Suécia. Recupero mais depressa no estrangeiro do que em Portugal. Aqui levo meses para que me devolvam um carro apreendido.” E o prejuízo é avassalador: “Os carros desvalorizam, passam meses parados, são desmantelados… É um grande prejuízo para as empresas. E nós não conseguimos reconhecer se os documentos que quem aluga apresenta são verdadeiros ou falsos.”
O fenómeno é alimentado por redes criminosas altamente tecnológicas que atuam em vários países europeus. Um dos casos mais recentes envolve mais de 20 arguidos acusados de usar inibidores de GPS, jammers e documentos falsificados para furtar carros em Braga, Famalicão, Porto, Estoril ou Castelo Branco, vendendo‑os depois inteiros ou às peças. Segundo o Ministério Público (MP), os suspeitos trocavam matrículas, falsificavam documentos e chegavam a comprar imóveis com os lucros ilícitos. Este grupo terá furtado cerca de 250 carros de aluguer. O MP estima que o grupo tenha obtido mais de 21 milhões de euros em proveitos ilegais.
No combate a esta criminalidade sofisticada, o Laboratório de Polícia Científica da Divisão de Polícia Técnica e Ciência Forense tornou‑se peça-chave. O subintendente Renato Neto explica: “Todas as valências do laboratório contribuem para as investigações. Conseguimos recuperar dados da centralina, perceber alterações de VIN (Número de Identificação do Veículo), identificar viciações mecânicas ou eletrónicas. Mesmo quando a viatura parece legal, conseguimos demonstrar que foi alvo de interferência criminosa.”
Muitas das apreensões feitas em Portugal dizem respeito a carros furtados noutros países e legalizados com documentação adulterada.
Em 2025, a PSP controlou mais de um milhão de viaturas, recuperando 383 no âmbito criminal, um aumento de 110% face a 2024, revelou o subcomissário Gabriel Monteiro, da Divisão de Trânsito de Lisboa. Em 2026, os dados preliminares apontam para mais de 100 mil viaturas controladas e 62 recuperações nos primeiros meses.
A criminalidade automóvel tornou‑se assim um fenómeno híbrido, tecnológico e transnacional, que pressiona empresas, autoridades e tribunais. Com redes organizadas cada vez mais sofisticadas, prejuízos milionários e uma capacidade constante de adaptação, o problema promete continuar a crescer.
Segundo o subintendente Filipe Silva da Divisão de Investigação Criminal e Apoio Operacional da PSP, nalguns casos, o crime começa muito antes de qualquer furto. “Começa com uma empresa criada apenas para enganar: sociedades de fachada que compram frotas em leasing, acumulam dívidas, abrem insolvência e, entretanto, as viaturas desaparecem”, explicou o mesmo responsável, acrescentando que “muitas são rapidamente enviadas para outros países, matriculadas de novo e vendidas a terceiros que nada sabem da sua origem ilícita”.
Há também veículos que seguem para portos como o de Antuérpia. “Carros furtados na Bélgica, França ou Países Baixos chegam a Portugal para serem falsificados, rematriculados e depois enviados para África, num circuito altamente sofisticado”, sublinhou.
Mas nem tudo ganha destino internacional: uma parte significativa das viaturas furtadas é simplesmente desmantelada peça a peça, alimentando um mercado paralelo onde catalisadores, jantes e até volantes de marcas específicas valem centenas ou milhares de euros, especificou Filipe Silva.
Em 2024, foram recuperadas quase três mil viaturas e identificados 543 suspeitos, com 119 detenções relacionadas com este tipo de criminalidade.
Só em 2024, os furtos e roubos de veículos motorizados em Portugal representaram um prejuízo superior a 31 milhões de euros, mais três milhões do que no ano anterior.
Mas a dimensão do problema não se resume ao prejuízo económico, cada vez mais pesado. Há também um lado mais inquietante e violento que tem vindo a ganhar força. Filipe Silva confirmou que, de 2023 para 2024, o número de roubos, já com violência associada, quase duplicou.