Romenos vão decidir se a fronteira da NATO com a Rússia "entra em colapso" e se Putin fica com "entrada direta no coração da Europa"

17 mai 2025, 09:00
George Simion (LUSA)


Cooperação Internacional, Universidade Babeș-Bolyai

ENTREVISTA || "Anular a primeira eleição levou à ultra radicalização dos apoiantes de Georgescu, que querem levar a vingança até ao fim". Quem o diz é Sergiu Miscoiu, analista político romeno e diretor do Centro de Cooperação Internacional da Universidade Babes-Bolyai. Com a segunda volta das novas eleições marcada para este domingo, as sondagens mostram que está tudo em aberto, sendo impossível antever quem será o próximo presidente da Roménia - se George Simion (na foto), eurocético de extrema-direita que se apoiou no capital político do ultranacionalista Georgescu, se Nicușor Dan, centrista pró-UE que é autarca de Bucareste desde 2010

Houve algumas críticas em relação à decisão judicial de anular a primeira eleição presidencial a dias da segunda volta, no final do ano passado. Um artigo do New York Times salientou, na altura, que essa decisão constituiu um “presente para a propaganda russa”, que veio alimentar a postura crítica de Putin em relação à "hipocrisia" do Ocidente, pelo facto de se estar a travar um processo democrático a meio. Qual é o sentimento atual no país relativamente a esta decisão do Tribunal Constitucional, quer a de anular as primeiras eleições, quer a de impedir Călin Georgescu de ser novamente candidato à presidência?

Existe uma forte divisão na sociedade. Um pouco mais de metade dos romenos diz que foi uma má decisão, antidemocrática, os restantes apoiam mais o discurso oficial segundo o qual as eleições foram manipuladas pela Rússia, pelo que era necessário encontrar uma forma de impedir que a Rússia controlasse a Roménia através de Georgescu. Face ao crescente número de provas, sabemos que havia redes pagas por ONG e outros tipos de organizações próximas da Rússia e do círculo russo, e que isto integrou uma operação mais vasta que visou também a Moldova, a Bulgária e até a Polónia.

A Polónia que, este domingo, vai ter a primeira volta das suas próprias eleições presidenciais...

Exato. Na Roménia há um crescente número de pessoas que acreditam que era a coisa certa a fazer. Porém, o resultado dessa decisão foi a ultra radicalização dos apoiantes de Georgescu e o seu empenho em levar a sua vingança até ao fim. Foi por isso que aceitaram George Simion apesar de não gostarem assim tanto dele, foi por isso que votaram nele, para se vingarem do sistema. E Simion foi inteligente o suficiente para garantir que traria Georgescu de volta à política, possivelmente nomeando-o primeiro-ministro. "Segunda volta de volta", foi o slogan de campanha, o que consolidou o movimento da extrema-direita para o apoiar. Ainda assim, por outro lado, também consolidou a oposição, porque muitos veem Georgescu como um real perigo para a Roménia.

O Tribunal Constitucional impediu Georgescu de ser novamente candidato à presidência, perante fortes suspeitas de que beneficiou de uma campanha de desinformação em larga escala orquestrada por grupos com ligações à Rússia, no TikTok e noutras redes sociais; provas apresentadas pelos serviços secretos no final do ano passado levaram à anulação de todo o processo eleitoral menos de 48 horas antes da segunda volta, após a vitória esmagadora e inesperada do ultranacionalista anti-Ucrânia no primeiro turno (Andrei Pungovschi/Getty Images)

As últimas sondagens antes desta segunda volta presidencial mostram um empate técnico entre Simion, o candidato de extrema-direita, e Nicușor Dan, centrista pró-UE que foi autarca da capital. O que acha que vai acontecer este domingo?

Vai ser uma corrida muito renhida. E seja qual for o resultado, nos últimos 10 dias Simion perdeu muitos pontos devido a erros que cometeu, não se controlou.

Que tipo de erros?

Por exemplo, ainda há dez minutos disse que Nicușor Dan é autista, o que é um ataque aos autistas, um ataque a Dan... Enfim, é um tipo de ataque brutal e totalmente inútil. Este tipo de coisas já está a afetar a sua candidatura, a sua margem diminuiu e muitas pessoas em entrevistas de sondagens dizem que estão mobilizadas contra ele, porque a Roménia não pode ter um presidente assim.

Ainda assim, mantêm-se os receios de que o eurocético Simion se torne Presidente da Roménia. Apesar das suas declarações passadas, tem insistido que será um líder pró-UE e pró-NATO, mais diretamente alinhado com a primeira-ministra de Itália, Giorgia Meloni, que é pró-Ucrânia, do que com Viktor Orbán, da Hungria, ou Robert Fico, da Eslováquia. O significaria a eleição de Simion para a Roménia?

O presidente da Roménia não tem poderes importantes, ainda que represente o país no Conselho Europeu, por exemplo, o verdadeiro poder, o poder executivo, está nas mãos do governo. A questão é que o ex-primeiro-ministro, Marcel Ciolacu, cometeu um erro crasso que pode custar muito caro à Roménia.

Refere-se ao facto de ter renunciado ao cargo logo após a primeira volta destas presidenciais, há duas semanas?

Sim, quando viu que o candidato da sua coligação, Crin Antonescu, ficou apenas em terceiro lugar na primeira volta, decidiu demitir-se do cargo. Em circunstâncias normais, mesmo que Simion fosse eleito presidente, não poderia demitir constitucionalmente um primeiro-ministro, pelo que poderíamos ter um cenário em que o primeiro-ministro ficava e representaria uma oposição efetiva ao presidente, seria uma espécie de coabitação de combate. Mas, em vez disso, Ciolacu preferiu concentrar-se no seu partido e basicamente deu um presente ao futuro presidente.

Em que sentido?

Porque agora o próximo presidente, e há o risco de que venha a ser Simion, será fazedor de reis, no sentido em que nomeará o próximo primeiro-ministro. Isso aumentará os poderes do presidente e é muito provável que, no caso de Simion, ele nomeie um primeiro-ministro obediente, o que significa que será capaz de fazer o que Orbán faz na Hungria ou o que Fico faz na Eslováquia. Desta forma, a Roménia passará a ser uma peça em falta no puzzle da defesa do flanco oriental da UE e da NATO. O flanco oriental deixará de ser sólido como uma rocha, entrará em colapso em termos militares, porque então a Rússia terá entrada direta no coração da Europa através da Roménia, da Hungria e da Eslováquia.

Tal como Georgescu, o atual candidato da extrema-direita é um confesso admirador de Trump - mas isso não significa que uma potencial presidência Simion na Roménia sejam boas notícias para os EUA, muito pelo contrário (Andreea Alexandru/AP)

As relações entre tradicionais aliados do Ocidente, nomeadamente entre a UE e os Estados Unidos sob Donald Trump, estão em transformação. Dado que Simion é um declarado apoiante do Presidente americano, o que poderá a sua vitória significar?

Tudo isto são também más notícias para os EUA, [mas] talvez assim os EUA comecem a compreender isto, ainda que Simion tenha sido muito generoso ao dizer que Trump é um grande presidente e que ele próprio é fã do movimento MAGA [Make America Great Again]. Os interesses de longo prazo [dos EUA] não são os de abrir entrada direta para a Rússia e a China nas democracias ocidentais e no coração da Europa. É por isso que sete antigos embaixadores dos EUA na Roménia, tanto democratas como republicanos, escreveram uma carta aberta a alertar que uma vitória de Simion significaria que a América perderia um amigo.

E em termos da coesão e alargamento da UE, o que se pode esperar? Não nos podemos esquecer que Simion está ligado a um partido ultranacionalista com uma visão irredentista de uma "Grande Roménia", com a Ucrânia, a Moldova e a Bulgária, que envolve riscos de disputas territoriais e potenciais conflitos com esses países...

É claro que ele vai tentar enviar algumas mensagens, especialmente a nível internacional, para seguir essa via de construção da chamada Grande Roménia, especialmente fundindo-se com a Moldova. Simion tem uma interdição de entrada na Moldova, é a quinta interdição consecutiva, precisamente porque disse que não reconhece o Estado moldavo, o que é um grande problema para um futuro presidente romeno, não poder entrar num dos países mais próximos do nosso a todos os níveis, não apenas geograficamente. Por esse motivo, Simion vai enviar algumas mensagens, mas não vai fazer muito mais, porque não tem poder de influência para isso. Ainda assim, há coisas que pode fazer como bloquear muitas iniciativas europeias, quiçá fazer acordos oportunistas com Orbán e Fico, e também tentar negociar diretamente com Moscovo, como Orbán faz, e quebrar esta atitude bastante consistente dos anteriores governos e presidentes romenos de seguir a tendência e a lógica europeias.

À CNN, Sergiu Miscoiu destaca que, apesar dos poderes limitados do presidente na Roménia, se for eleito Simion poderá "bloquear muitas iniciativas europeias e fazer acordos oportunistas com Orbán e Fico", respetivamente chefes do governo da Hungria (à direita) e da Eslováquia (à esquerda), ou até "tentar negociar diretamente com Moscovo, como Orbán faz" (Petr David Josek/AP)

Fala da possibilidade de "acordos oportunistas com Orbán", mas a verdade é que, apesar de Simion já ter reconhecido que o primeiro-ministro húngaro lhe serve de "modelo", as relações entre os nacionalistas romenos e húngaros estão longe de serem pacíficas, nomeadamente no que toca à minoria húngara na Transilvânia, no norte da Roménia.

Pois, diria que a relação entre Simion e Orbán vai ser como uma relação sadomaso entre marido e mulher (risos). Por um lado, Simion diz que é um admirador de Orbán, especialmente no que toca à sua postura de resistência à UE, mas também no conservadorismo, em termos de religião, da postura face à comunidade LGBT, face a educação. Mas por outro lado, Simion não quer a proteção das minorias, e o problema é que a maior minoria na Roménia são os húngaros. Em meados da década de 2010, portanto não há muito tempo, Simion fez muitos comentários provocatórios sobre este assunto, por exemplo quando defendeu que se deviam exumar as ossadas dos soldados húngaros que foram enterrados nos cemitérios da Transilvânia.

Haverá uma espécie de casamento de conveniência, mas com muitas tensões inerentes?

No fundo, Simion é o herdeiro de uma longa tradição nacionalista romena, segundo a qual a Hungria é o maior inimigo da Roménia. Será uma situação incómoda quer para Simion quer para Orbán. Haverá tensões, mas sem escalada excessiva, a fim de manterem uma frente unida dentro da UE. A questão é que, embora Orbán seja mais experiente, Simion é muito impulsivo nas suas ações e poderá fugir ao seu próprio controlo, atacando Orbán de forma violenta, o que poderá causar grandes problemas a médio e longo prazo.

Há quem considere que estas eleições envolvem uma escolha entre "o mal menor", tendo em conta que o antigo presidente da Câmara de Bucareste, Nicușor Dan, é também considerado um candidato “antissistema”, apesar de ter uma postura pró-UE que o distingue do rival. O que pensa sobre isto?

Apesar de se candidatar como independente, Nicușor Dan participou na fundação da União Salvar a Roménia, de centro-direita e atualmente o partido mais reformista da Roménia. Dan é considerado antissistema no sentido em que critica a corrupção endémica no país, especialmente por parte dos burocratas, dos liberais e dos sociais-democratas que estão dispostos a fazer cedências e acordos com os grandes interesses financeiros e os magnatas da capital. Foi por esse motivo que conquistou muitas simpatias, mas há de facto coisas importantes a distingui-lo de Simion: é a favor da UE e das democracias liberais, é igualitário e defende um sistema cívico, o respeito pelos direitos civis.

O que podemos esperar então de Nicușor Dan se for ele a vencer estas presidenciais?

A atual coligação no poder, entre os liberais e os sociais-democratas, não gosta dele, principalmente porque ele conseguiu derrotar o seu candidato na primeira volta destas presidenciais, mas mesmo assim os liberais colaboraram com ele e existe uma base eleitoral comum entre os dois partidos. O problema são mesmo os sociais-democratas, que são os seus verdadeiros adversários. Se Dan for eleito, prometeu várias vezes nomear como primeiro-ministro Ilie Bolojan, atual líder do partido liberal, que sendo presidente do Senado assumiu a presidência interina do país nos últimos meses. Bolojan é um dos políticos mais populares da Roménia, tem um historial muito forte de provas dadas na política local, em Oradea, uma cidade no noroeste da Roménia que ele transformou. Acima de tudo, Dan tem a chave reformista, incluindo a escolha de figuras reformistas legítimas, entre os liberais e até alguns sociais-democratas, para tentar criar uma maioria que apoie algumas reformas mais audaciosas.

Nicușor Dan, fundador do partido de centro-direita 

 

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