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"Super Domingo" de eleições na Europa. E nenhuma está a salvo das campanhas de desinformação na internet

CNN Portugal , JAV
18 mai 2025, 10:02
Redes Sociais

Nicușor Dan

Para além das legislativas em Portugal, Roménia tem hoje a segunda e última volta das presidenciais repetidas, sem um vencedor declarado à partida e com muito em jogo. E na Polónia, eleitores são chamados a votar na primeira volta das presidenciais, com um candidato libertário da “direita alternativa” e um “poderoso dinamarquês” de extrema-esquerda apostados em agitar as águas políticas do país. A unir os três plebiscitos está o facto de estarem cada vez mais comprovadas as campanhas cibernéticas para influenciar os eleitores através de desinformação e contas falsas nas redes sociais

Para o Guardian, “o segundo turno romeno é o mais crucial” deste ‘Super Domingo’ de eleições na Europa, expressão inspirada na chamada super terça-feira que tem lugar nos Estados Unidos da América de quatro em quatro anos, durante as primárias dos partidos, num prelúdio das eleições presidenciais no país.

Ao longo do dia de hoje, os eleitores de três países do lado de cá do Atlântico são chamados às urnas para definirem o rumo das suas respetivas nações, a começar por Portugal, que volta a ter eleições legislativas após o primeiro-ministro, Luís Montenegro, ter desencadeado – e perdido – uma moção de confiança no Parlamento face a atividades suspeitas de empresas ligadas à sua família.

Para além de Portugal, dois países do leste da Europa vão ter eleições presidenciais este domingo, a começar pela Roménia, que está desde novembro passado a tentar eleger o seu próximo chefe de Estado.

Depois de Călin Georgescu, uma figura ultranacionalista e de extrema-direita, ter vencido a primeira volta das eleições, apesar de ser relativamente desconhecido do eleitorado, amontoaram-se suspeitas de interferência russa no processo por via do TikTok e de outras redes sociais, levando o Tribunal Constitucional a anular as eleições a dois dias da segunda volta. E muito aconteceu desde então.

Coesão da UE e apoio à Ucrânia também a votos na Roménia

Face às provas de campanhas de desinformação a favor do candidato de extrema-direita próximo da Rússia, Georgescu foi impedido de se recandidatar à presidência na nova corrida, estando atualmente a ser formalmente investigado por suspeitas de irregularidades nas despesas de campanha, uso ilegal de tecnologia digital e promoção de grupos fascistas.

Na primeira volta das novas eleições presidenciais, que teve lugar há duas semanas, saíram vitoriosos George Simion, ultranacionalista e eurocético com ligações ao AUR de extrema-direita, e Nicuşor Dan, centrista pró-UE que é presidente da Câmara de Bucareste. E são eles que hoje disputam a segunda e última volta eleitoral, com as sondagens a anteciparem uma corrida mais renhida do que nunca.

Quem vencer terá, entre outras funções, a de nomear o próximo primeiro-ministro da Roménia, após o anterior se ter demitido porque o seu candidato não conseguiu apurar-se para esta segunda volta. “O ex-primeiro-ministro, Marcel Ciolacu, cometeu um erro crasso que pode custar muito caro à Roménia”, dizia há alguns dias à CNN o analista romeno Sergiu Miscoiu.

“Em circunstâncias normais, mesmo que Simion fosse eleito presidente, não poderia demitir constitucionalmente um primeiro-ministro, pelo que poderíamos ter um cenário em que o primeiro-ministro ficava e representaria uma oposição efetiva ao presidente, seria uma espécie de coabitação de combate. Mas, em vez disso, Ciolacu preferiu concentrar-se no seu partido e basicamente deu um presente ao futuro presidente.”

A grande dúvida este domingo é até que ponto os apoiantes de Georgescu vão mobilizar-se para apoiar Simion como forma de “levarem a sua vingança até ao fim” – e até que ponto a oposição vai mobilizar-se para impedir que o próximo presidente da Roménia seja um ultranacionalista confesso admirador de Donald Trump e Viktor Orbán, muito crítico da UE e que se opõe ao fornecimento de ajuda à Ucrânia.

O ultranacionalista Călin Georgescu vota na segunda volta das presidenciais romenas este domingo, ladeado pelo candidato e possível vencedor George Simion - ambos têm um discurso cético em relação à UE e em relação ao apoio à Ucrânia face às agressões da Rússia (Andreea Alexandru/AP)

O candidato tem insistido que “a Roménia nunca será amiga do Kremlin nem de Putin” e que não pretende que o país saia da UE nem da NATO. Ainda assim, há grandes receios de que, no mínimo, se alie à Hungria de Viktor Orbán e à Eslováquia de Robert Fico na postura de disrupção dentro do bloco europeu, no que Miscoiu refere como possíveis "acordos oportunistas" com esses dois primeiros-ministros, a par de poder vir a "negociar diretamente com Moscovo, como faz Orbán".

Por causa da demissão de Ciolacu, o próximo presidente “será fazedor de reis, no sentido em que nomeará o próximo primeiro-ministro”, adianta o especialista romeno à CNN, o que “aumentará os poderes do presidente e é muito provável que, no caso de Simion, nomeie um primeiro-ministro obediente, o que significa que será capaz de fazer o que Orbán faz na Hungria ou o que Fico faz na Eslováquia” - possivelmente Georgescu, apesar das investigações criminais de que é alvo.

Por outras palavras, adianta Sergiu Miscoiu, do ponto de vista regional e também internacional, “a Roménia passará a ser uma peça em falta no puzzle da defesa do flanco oriental da UE e da NATO, [que] deixará de ser sólido como uma rocha, entrará em colapso em termos militares, porque então a Rússia terá entrada direta no coração da Europa através da Roménia, da Hungria e da Eslováquia”.

Os que vão à frente e os que seguem logo atrás na Polónia

Igualmente importantes, ainda que não decisivas para já, são as eleições presidenciais na Polónia, o país mais vital do dito flanco oriental dos aliados. Este domingo, os polacos são chamados a escolher quem querem que dispute o segundo e último turno da corrida a chefe de Estado, havendo 13 candidatos a disputar o lugar.

As sondagens antecipam que o autarca de Varsóvia, o centrista Rafał Trzaskowski, da Coligação Cívica do atual primeiro-ministro Donald Tusk, deverá ficar em primeiro lugar. A confirmar-se, poderá vir a disputar o segundo turno, marcado para 1 de junho, com Karol Nawrocki, um historiador que se candidata como independente, com o apoio do Partido Lei e Justiça (PiS, nacionalista conservador).

Há esperanças de que, se Trzaskowski for eleito à segunda volta, Tusk possa avançar com a sua agenda reformista, que até agora tem sido bloqueada pelo presidente de saída, Andrzej Duda, também ele ligado ao PiS, dado o poder de veto do chefe de Estado. Antes disso, contudo, há dúvidas quanto à capacidade de outros dois candidatos “fora do sistema” poderem vir a abalar esta primeira volta.

Cartaz vandalizado da candidatura do autarca de Varsóvia, Rafał Trzaskowski, às eleições presidenciais, com o apoio da Coligação Cívica do primeiro-ministro, Donald Tusk. Em novembro, antes da primeira volta das eleições presidenciais na Roménia, as sondagens antecipavam que Georgescu não ultrapassaria 10% dos votos - acabou em primeiro lugar, antes de terem sido anuladas por interferência russa no TikTok e outras redes sociais a favor do candidato extremista (Czarek Sokolowski/AP)

Falamos de Sławomir Mentzen, consultor fiscal tornado político, do partido libertário de extrema-direita Konfederacja (Confederação) – que, segundo as sondagens, pode ficar em terceiro lugar no voto deste domingo, senão ainda mais bem posicionado – e também de Adrian Zandberg, do partido Razem (Juntos), um polaco nascido na Dinamarca que é apelidado de “o Poderoso Dinamarquês” por uma parte do eleitorado e dos media do país, dada a sua figura imponente e as suas visões de extrema-esquerda.

Como apontam vários analistas, Mentzen e Zandberg têm em comum o facto de estarem apostados em acabar com a espécie de bipartidarismo que tem dominado a política da sexta maior economia da Europa, entre os partidos ditos tradicionais Coligação Cívica e PiS. Para lá disso, há ainda o facto de ambos se apresentarem como “antissistema”, um chavão com muito impacto junto de um eleitorado cada vez mais desiludido com a política e os políticos.

Desinformação polariza ainda mais os eleitorados

Uma grande dúvida em relação a esta primeira volta presidencial polaca, com base na experiência recente da Roménia, é qual será o impacto das campanhas cibernéticas para tentar influenciar o eleitorado. Há poucos dias, a autoridade nacional de cibersegurança da Polónia (NASK) anunciou a descoberta de “novas operações de informação com o objetivo de desestabilizar o processo eleitoral de domingo”, com base na análise a “uma rede de centenas de contas falsas na rede X que, de forma coordenada, disseminaram mensagens consistentes com a propaganda da Federação Russa”.

O instituto diz ter detetado as mesmas narrativas no Telegram, publicadas por “contas conhecidas pela sua participação em atividades de desinformação russas”, com o conteúdo das publicações a abordar, principalmente, assuntos altamente polarizantes para o eleitorado polaco, “incluindo segurança, política externa, migração e a situação socioeconómica”.

Tal como o NASK diz ter identificado, desde o início do ano, mais de 10 mil contas em inglês e polaco a tentar influenciar as eleições deste domingo com base em alegações falsas sobre ameaças de “ataques terroristas” no dia da votação, a empresa Cyabra também apurou esta semana, numa investigação exclusiva para a CNN Portugal, o lastro da desinformação online em Portugal, com 58% das contas que apoiam o Chega de André Ventura nas redes sociais a provarem-se falsas.

À CNN, o especialista em cibersegurança José Tribolet ressalta que a manipulação da opinião pública através de perfis falsos nas redes sociais tornou-se mais do que uma ameaça difusa, sendo hoje um "negócio fácil", que é acessível a todos, automático e sem controlo. "Nunca se percebeu realmente a profundidade do que se está a falar, focaram-se demasiado na questão da proteção de dados, na espuma das coisas e não no fundamental", adianta o fundador e ex-presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Instituto Superior Técnico (INESC-IST), que fala num "faroeste do espaço digital".

Investigação para a CNN apurou que 58% das contas de apoio a André Ventura e ao Chega nas redes sociais são falsas (Lusa)

Contactada pela CNN no final da semana, a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) disse que tem conhecimento destes processos de desinformação na internet, mas contrapôs que nada pode fazer “a não ser que ponha em causa o processo eleitoral em si”.

Na Roménia, onde o Tribunal Constitucional decidiu cancelar as primeiras eleições presidenciais com base nos dados recolhidos pelas agências de informação do país sobre desinformação e contas falsas nas redes sociais, já é possível fazer uma primeira análise aos resultados desta ingerência cibernética em processos eleitorais – e às reações a ela.

“Na Roménia há um crescente número de pessoas que acreditam que era a coisa certa a fazer”, diz à CNN Sergiu Miscoiu. “Porém, o resultado dessa decisão foi a ultra radicalização dos apoiantes de Georgescu e o seu empenho em levar a sua vingança até ao fim – foi por isso que aceitaram George Simion, apesar de não gostarem assim tanto dele, foi por isso que votaram nele, para se vingarem do sistema”.

Se muitos estão a vingar-se, há também muitos outros eleitores que se sentem galvanizados pela existência destas comprovadas “redes pagas por organizações próximas da Rússia, que integram uma operação mais vasta que também visa a Moldova, a Bulgária e a Polónia”, adianta o analista romeno.

Com a enorme polarização da Roménia no contexto desta nova ida às urnas, parece haver uma grande mobilização em torno de Nicușor Dan como contraponto a Simion e Georgescu, ressalta Miscoiu, apontando que a reta final da campanha presidencial foi marcada por uma aproximação do centrista ao rival ultranacionalista nas sondagens. "“’Segunda volta de volta’ foi o slogan de campanha de Simion, o que consolidou o movimento da extrema-direita para o apoiar. Ainda assim, por outro lado, também consolidou a oposição, porque muitos veem [Simion e Georgescu] como um real perigo para a Roménia.”

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