A três meses das presidenciais, extrema-direita clama vitória na Roménia – e Georgescu segue forte. "Se for autorizado a candidatar-se, irá partir na liderança"

11 fev 2025, 22:00
Cartaz Calin Georgescu apoiantes candidato presidencial Roménia após demissão Presidente Klaus Iohannis (Vadim Ghirda/AP)

“Isto pode, de facto, ser visto como um sucesso para os partidos extremistas

Demissão do presidente Iohannis marca um novo capítulo na saga iniciada em novembro, após o Tribunal Constitucional ter anulado a primeira volta das presidenciais. Candidaturas oficiais à nova corrida, marcada para maio, só serão anunciadas dentro de um mês

Um dia depois de o presidente da Roménia ter anunciado a sua demissão, uma das principais negociadoras da Lei dos Serviços Digitais da União Europeia (DSA) lembrava em Estrasburgo que continua em marcha uma investigação da Comissão Europeia a potenciais violações cometidas pelo TikTok nas eleições presidenciais romenas de 2024. 

“A plataforma fez o suficiente para evitar interferências estrangeiras ou não? Em caso de infração, arrisca-se a ser multada”, sublinhou Christel Schaldemore num seminário sobre desinformação e manipulação online. “Com cada vez mais jovens a receberem as suas notícias total ou primariamente através das redes sociais, será muito difícil ter democracias se não fizermos nada nem prestarmos atenção a isto.”

Pelo menos a Roménia está a prestar atenção – e foi precisamente o chamado Partido dos Jovens (POT), criado por uma demissionária do partido de extrema-direita Aliança para a União dos Romenos (AUR), quem esta semana protagonizou o novo capítulo de uma saga iniciada em novembro, quando o TikTok foi acusado de instrumentalização a favor de Călin Georgescu.

Com as sondagens a anteciparem resultados de um dígito para o candidato extremista pró-Rússia, Georgescu surpreendeu tudo e todos com uma vitória retumbante na primeira volta das presidenciais. E depois de semanas de avanços e de recuos perante as fortes suspeitas de interferência estrangeira no processo eleitoral, o Tribunal Constitucional decidiu anular o processo e ordenar a repetição das eleições.

Com o país em turbulência desde então, e com a Comissão Europeia ainda a investigar o papel desempenhado pelo TikTok a favor da candidatura de Georgescu, um conjunto de deputados romenos do POT lançou-se num processo para suspender o mandato do atual presidente, que na segunda-feira decidiu dar o corpo às balas e demitir-se do cargo, não sem condenar a iniciativa parlamentar como “inútil” e “infundada” e um processo “prejudicial” em que “todos perdem e ninguém ganha”.

Acima de tudo, explica o consultor político de Bucareste, Iohannis demitiu-se para evitar um referendo ao seu mandato em plena campanha para as presidenciais. Vadim Ghirda/AP

“Essencialmente, a oposição extremista pretendia tornar Klaus Iohannis um assunto de campanha nas próximas presidenciais e, para os partidos pró-europeus, a sua liderança tinha-se tornado um risco, especialmente à luz das eleições que vão ter lugar – um facto que a oposição explorou”, explica à CNN Adi Zăbavă, consultor político sediado em Bucareste. “A demissão do presidente Iohannis não está diretamente ligada à anulação dos resultados das anteriores presidenciais; é verdade que o mandato dele foi prolongado por causa disso, mas a sua demissão surgiu primariamente em resposta à iniciativa parlamentar liderada pela oposição extremista para o suspender do cargo.”

Enfrentando taxas de popularidade cada vez mais baixas e uma forte oposição dos três partidos extremistas com assento parlamentar, a gota de água que conduziu à demissão de Iohannis foi o facto de vários deputados da atual coligação governamental e de membros de partidos reformistas como a União Salvar a Roménia (USR) terem decidido juntar-se ao POT, o partido que hoje apoia formalmente Georgescu.

Se a iniciativa parlamentar tivesse sido aprovada, os romenos iriam ser chamados a decidir a suspensão do mandato de Iohannis em referendo, uma consulta que, como destaca Zăbavă, “teria tido lugar durante a campanha para as próximas presidenciais, influenciando decisivamente os seus resultados – e foi por isso que ele se demitiu, para impedir que este cenário se concretizasse”.

Uma aparente certeza num mar de incertezas

Sem surpresas, os putativos candidatos presidenciais foram rápidos a reagir à demissão de Iohannis, a começar por Georgescu, que na rede social X, uma das várias em que soma e segue apoiantes, se congratulou com a “vitória para o povo da Roménia”, defendendo que “agora é altura de voltar ao ‘Estado de Direito’” e de “retomar a segunda volta eleitoral”. 

A ele juntou-se Elena Lasconi, candidata da reformista USR, pró-europeia que teria disputado a segunda volta com o extremista pró-russo, que nunca aceitou a anulação dos resultados, e que saiu em defesa da “pressão” exercida pelo seu partido no parlamento, que “acordou Iohannis do seu sono”, prometendo que “não vamos parar por aqui”. Entre um e outro surgiu George Simion, líder da AUR, o anterior partido de Georgescu, que no Facebook reivindicou: “Esta é a nossa vitória, agora é tempo de restaurar a segunda volta.”

Em tempos a grande rival de Georgescu, Elena Lasconi está agora sob forte pressão dentro da USR para retirar a sua protocandidatura e deixar o caminho aberto ao atual autarca de Bucareste, que segundo as sondagens "parece ter mais hipóteses de passar à segunda volta" do que a líder do partido. Andreea Alexandru/AP

“Isto pode, de facto, ser visto como um sucesso para os partidos extremistas, já que a sua iniciativa criou a pressão que, em última instância, levou Iohannis a demitir-se em vez de enfrentar a remoção por voto parlamentar e num referendo nacional”, assume Adi Zăbavă. “Contudo, a sua partida também significa que os extremistas perderam um alvo fácil, o que também representa uma potencial oportunidade para o campo pró-europeu.”

Iohannis pode ter saído de cena e os pró-europeus podem até ter uma nova oportunidade, mas nada é certo para já no que toca à repetição das presidenciais, que terão a sua primeira volta a 4 de maio e a segunda a 28 do mesmo mês. Dado que, após os serviços secretos romenos terem confirmado que houve ingerência externa nas eleições a favor de Georgescu na primeira volta, o Tribunal Constitucional ditou que o processo eleitoral tinha de voltar à estaca zero, as datas da primeira e segunda volta são o único dado adquirido para já.

“Por agora, continua a haver muitas incertezas quanto às eleições de maio, em primeiro lugar no que toca aos candidatos, já que o resultado vai depender largamente de quem entra na corrida”, destaca o analista romeno. Sendo que ainda não é certo se Georgescu poderá ou não voltar a disputar a presidência – “mantém-se a especulação sobre o potencial impedimento de se candidatar, mas não existe qualquer processo oficial relativo à sua candidatura”.

Os partidos e candidatos independentes têm até 15 de março para apresentarem as suas candidaturas e, dois dias depois, as autoridades eleitorais anunciarão quais são aceites e quais não avançam. A atual coligação governamental, entre os sociais-democratas, os liberais e o partido étnico-húngaro UDMR, apoia Crin Antonescu, mas, como sublinha Zăbavă, “a demissão de Iohannis e quaisquer novos desenvolvimentos poderão trazer mudanças também a este respeito”.

Da mesma forma, também a recandidatura de Elena Lasconi está em dúvida, após Nicușor Dan, atual presidente da Câmara de Bucareste, ter decidido candidatar-se a par da líder da USR. “Dan parece ter mais hipóteses de passar à segunda volta do que Lasconi e agora a pressão é para que ela se retire, para que o partido possa apoiar Nicușor de forma unida.”

Isto sem esquecer que, no espaço de dois meses, “ainda podem surgir candidaturas surpresa”, com o potencial de transformar completamente as próximas eleições – e quando nada indica que a Comissão Europeia vai divulgar os resultados da sua investigação ao TikTok antes da ida às urnas.

Por mais que se baralhe e volte a dar, quem parece sair fortalecido é Călin Georgescu, o homem que diz que “a Ucrânia é um Estado inventado” e que os romenos “vivem numa prisão” desde que aderiram à UE e à NATO, e cujas ligações diretas à Rússia de Putin estão mais do que estabelecidas, como já referia Adi Zăbavă no final do ano passado. Meses depois, o analista político não tem dúvidas: “Com as sondagens mais recentes a darem-lhe uma margem muito forte, se Georgescu for autorizado a candidatar-se, irá partir na liderança.”

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