Roman Surovtsev era pontual para ir buscar as duas filhas na escola todas as tardes. Para ele, era importante estar presente para as sorridentes meninas de três e cinco anos, enchendo-as de perguntas sobre o que aprenderam e com quem brincaram.
Em casa, com a esposa, Samantha, ajudava sempre a fazer espuma na hora do banho, escovava meticulosamente os pequenos rabos-de-cavalo loiros e castanhos e colocava as meninas na cama a rir, depois de lhe ler histórias.
Mas as gargalhadas calaram-se quando as meninas começaram a perguntar-se o que aconteceu com o seu pai amoroso, que, aos olhos delas, simplesmente desapareceu neste verão. As meninas não o veem há quatro meses.
Foi detido inesperadamente, durante uma inspeção de rotina levada a cabo pela Imigração e Alfândega, no dia 1 de agosto, e nunca mais voltou a casa.
Os problemas legais de Roman têm origem numa condenação por carjacking há mais de 20 anos, que lhe custou o estatuto de residente permanente, depois de ter sido libertado, em 2014. Os advogados conseguiram anular essa condenação e ele está prestes a recuperar o green card, mas a deportação deve prosseguir antes de um juiz poder decidir sobre o seu caso.
Agora, não se sabe quando a sua família o vai voltar a ver, pois o pai de duas filhas continua detido, depois de ter tido a deportação marcada e um tribunal ter revertido a decisão e ter travado a ida de Roman para a Ucrânia, um país devastado pela guerra e onde ele não vive desde que a Ucrânia fazia parte da União Soviética. O processo foi reaberto e Roman continua detido a aguardar o desfecho.
A detenção aconteceu na sequência da determinação do presidente Donald Trump de prender e deportar migrantes indocumentados em massa, uma decisão que está a separar famílias em todo o país, enquanto as comunidades assistem a trabalhadores, crianças em idade escolar e membros da igreja serem levados pelos serviços de imigração dos Estados Unidos (ICE).
O Departamento de Segurança Interna não respondeu ao pedido da CNN para falar sobre a detenção de Roman Surovtsev.
Roman nunca tinha faltado a um evento na escola das filhas, antes de perder o 5.º aniversário da sua filha mais velha, no final de agosto. Continuou ausente no aniversário da sua esposa, um mês depois, depois no aniversário de casamento e, em breve, nas festividades de Natal, a época favorita de Roman para passar com a família.
Samantha tem dito às filhas pequenas que o pai delas está a trabalhar e deu à mais velha um medalhão com a foto dele dentro depois de ele ter sido detido. A menina tem usado o medalhão com mais frequência nos últimos dias, conta a mãe, e pede a olhar para fotografia que lá está dentro: “Papá, volta para casa”.
“Elas são muito pequenas para entender e não há maneira de lhes contar sem fazer sentir medo do próprio país”, diz Samantha em lágrimas. Samantha e as meninas têm vivido das economias enquanto acumulam honorários de advogados a mulher diz que se sente como se estivesse a viver a vida como uma mãe solteira.
Numa ação judicial apresentada a 12 de novembro, o Departamento de Justiça confirmou que tratou da transferência de Roman Surovtsev para a Ucrânia há uma semana.
A porta-voz do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, da sigla em inglês) Tricia McLaughlin, escreveu, numa publicação no X, a 17 de novembro, o dia para o qual estava marcada a deportação, que Roman é um “estrangeiro ilegal e um criminoso com histórico de violência”, incluindo agressão com arma letal, roubo e carjacking.
Os advogados de Roman temem pela sua segurança na Ucrânia em tempo de guerra.
“Tenho medo de perder a vida nesta guerra e que as minhas filhas tenham de crescer sem o pai, que a minha mulher fique viúva e que eu próprio perca a vida numa guerra da qual nada sei”, revela Roman, num vídeo gravado pela mulher durante uma das chamadas que ele lhe fez depois de ser detido e que foi analisado pela CNN.
Roman encontrou o amor, o trabalho e Deus depois de fugir do regime soviético
Roman Surovtsev nasceu na cidade soviética de Zhdanov, que foi rebatizada de Mariupol depois do fim do regime soviético, em 1984. Depois do pai de Roman, um trabalhador da central nuclear de Chernobyl, morrer, por ‘envenenamento por radiação após a explosão, Roman fugiu da então URSS, aos quatro anos, com a mãe e dois irmãos.
A família veio para os Estados Unidos legalmente, depois de renunciarem à cidadania soviética, e dormiram numa igreja, em São Francisco, durante seis meses, antes de se estabelecer mais a norte, em Sacramento, de acordo com documentos judiciais. Mas a pobreza seguiu-os pela Califórnia.
Roman era uma criança quando começou a roubar pequenos brinquedos, numa tentativa de esconder que a sua família era pobre, segundo os autos do processo, e tinha cerca de sete anos quando começou a ajudar a mãe no trabalho, limpando casas e escritórios de advogados. O que se seguiu foi uma infância marcada por dificuldades para sobreviver no país de adoção.
Em 2003, aos 19 anos, Roman começou a cumprir uma pena de 13 anos, depois de ajudar alguns amigos a cometerem um assalto à mão armada a uma motorizada.
Roman foi libertado antecipadamente por bom comportamento em 2014. Depois disso, um juiz do tribunal de imigração ordenou que fosse deportado, o que lhe custou o seu green card. Foi colocado sob custódia do serviço de imigração, mas acabou por ser libertado pelo Governo dos EUA sob ordem de supervisão, depois de se determinar que não era provável que fosse deportado tão depressa e, nesse caso, a detenção continuada seria ilegal, de acordo com os autos do tribunal.
Sem cidadania da antiga União Soviética ou green card, Roman tem vivido desde então como apátrida com uma autorização de trabalho, apresentando-se regularmente nos serviços de imigração. Nunca violou os termos da sua ordem de supervisão, garantem os seus advogados nos autos do tribunal.
Enquanto a família encontrava refúgio do regime soviético nos Estados Unidos, Roman também encontrou o amor, um trabalho gratificante e Deus.
Aos vinte e poucos anos, foi batizado na prisão. Quando se converteu a Cristo, tudo mudou, conta a esposa. Conheceu Samantha em 2017, enquanto praticava jet ski com amigos em comum, em Orange County. Casaram-se, compraram uma casa nos subúrbios a norte de Dallas, abriram uma empresa de pintura juntos e tiveram duas filhas.
“Ele criou uma vida aqui e está a ser arrancado dela”, lamenta Samantha. “A pessoa que ele é no papel não é a pessoa que ele é agora. Passaram-se 20 anos desde que cometeu aquele crime e muita coisa aconteceu na vida dele”.
Entre conciliar os negócios da família e criar as filhas, Roman estava a ter formação para fazer parte de um ministério prisional, onde poderia visitar as prisões e oferecer serviços religiosos e apoio aos detidos.
Entretanto, ele próprio foi detido.
Nas instalações de detenção Bluebonnet e Prairieland, no Texas, onde está sob custódia desde agosto, a fé de Roman não vacilou, garante a esposa. Lidera um estudo bíblico noturno com os companheiros de detenção.
“O governo dos EUA planeia deportar 83 pessoas para a Ucrânia, onde serão recrutadas para o exército e provavelmente mortas. A Ucrânia é um estado policial onde a população vive sob lei marcial”, afirmaram os advogados de Roman, Eric Lee e Chris Godshall-Bennett, numa declaração enviada por e-mail à CNN, ainda antes do voo de 17 de novembro, que acabou por levar 50 imigrantes ilegais.
Nem o DHS, nem a Embaixada da Ucrânia responderam aos pedidos da CNN para comentar o voo de dia 17, que transportou 50 deportados para a Ucrânia.
“Entre os detidos estão indivíduos que vivem nos EUA desde crianças. Muitos têm cônjuges e filhos cidadãos americanos”, escreveram os advogados de Roman. “Alguns nem sequer falam ucraniano e outros nem sequer são cidadãos ucranianos, tendo nascido na União Soviética antes da Ucrânia existir como um país separado”.
Roman Surovtsev não fala nem sabe ler ucraniano. Tendo fugido ainda muito jovem, tem muito poucas memórias da antiga cidade soviética onde nasceu, revela Samantha.
O local de nascimento de Roman Surovtsev, a atual Mariupol, na Ucrânia, sofreu alguns dos ataques e cercos mais devastadores da Rússia durante a guerra. As infraestruturas e as habitações da cidade foram quase totalmente destruídas, os civis padecem de fome e milhares foram mortos ou deslocados. Apesar dos esforços de reconstrução promovidos pelas autoridades russas, a cidade continua fortemente danificada.
Advogados afirmam que Surovtsev está prestes a recuperar o green card
O governo dos EUA já tinha enfrentado dificuldades ao tentar deportar Roman anteriormente.
Tendo nascido na antiga União Soviética, o Consulado Russo informou ao governo norte-americano, no início de 2015, que não tinha registos de Roman Surovtsev, escreveram os advogados em documentos judiciais. O governo ucraniano também disse na época que não podia confirmar a sua cidadania e, portanto, não podia emitir documentos ucranianos para ele poder viajar.
Roman foi libertado da custódia dos serviços de imigração em maio de 2015, sem o green card, mas com um documento de autorização de trabalho e foi obrigado a usar uma pulseira eletrónica durante seis semanas. Apresentava-se aos serviços de imigração a cada duas semanas, antes de as visitas passarem a ser trimestrais e, mais tarde, anuais.
“Muitas vezes, quando se reunia com os agentes imigração, era-lhe dito que os serviços tinham feito uma nova tentativa de contactar a embaixada da Ucrânia, da Rússia ou de ambas, mas que ambos os governos se recusavam a conceder-lhe documentos para poder viajar”, escreveram os advogados de Roman nos autos do processo.
Durante anos, apresentou-se nas instalações dos serviços de imigração em Dallas, confirmando detalhes como seu endereço e quaisquer planos de viagem. Mas, a 1 de agosto, foi detido inesperadamente e um agente da imigração recusou-se a aceitar a suspensão de deportação apresentada pelo advogado que o acompanhava na visita, descrevem os seus advogados.
Agora, não está claro que documentos a Ucrânia pode ter para que a deportação de Roman Surovtsev se concretize ou o que mudou em relação a uma década atrás, quando o país não conseguiu provar a sua cidadania.
“Em 2014 e 2015, o ICE tentou, sem sucesso, deportar o Sr. Surovtsev para a Ucrânia, quando o consulado ucraniano informou que não podia provar que ele era cidadão daquele país”, relata o advogado Eric Lee, em comunicado. “Agora, fomos informados de que a Ucrânia está a conceder ‘passaportes temporários’ aos detidos, seja lá o que isso signifique. Até hoje, a Ucrânia nunca reconheceu que o Sr. Surovtsev é cidadão ucraniano”.
“Ele sempre cumpriu as regras, mas temíamos que este ano algo fosse diferente, por causa do que estava a acontecer com esta repressão à imigração”, confessa Samantha. “Não esperávamos que esta seria a nossa realidade”.
A detenção de Roman mobilizou Samantha, que disse ter-se tornado sua “assistente a tempo inteiro”, enquanto incansavelmente reunia uma equipa jurídica para o libertar.
Os advogados de Roman Surovtsev conseguiram anular a acusação de carjacking pela qual tinha cumprido pena e, principalmente, eliminá-la do seu cadastro. Vão fazer com que ele se declare culpado de uma acusação menos grave, que não tem consequências para a imigração.
Esta mudança nas circunstâncias justificaria a reabertura do caso, que a sua equipa jurídica solicitou, diz a advogada de imigração de Surovtsev, Jennifer Rozdzielski. Além disso, o estatuto de residente permanente legal de Roman Surovtsev seria restaurado, se um juiz concordasse em arquivar o caso.
Tudo o que a família e equipa jurídica podem fazer é esperar que o caso seja julgado, mas Roman está numa longa fila de moções semelhantes. Não há processos prioritários no tribunal de imigração, diz Jennifer Rozdzielski.
“Como resultado da libertação após cumprimento de pena por um crime passado, é provável que ele receba o green card novamente muito em breve. Ele também não teve a oportunidade de expressar o seu medo de ser deportado para uma zona de guerra ativa”, dizem os advogados de Roman.
“A nossa família, a nossa comunidade e o nosso país não ficam melhor com a saída dele”, lamenta Samantha. “Mesmo que ele permaneça detido, só queremos tempo para que nosso caso seja julgado. É tudo o que queremos”.