"Bem-vindos ao The Handmaid's Tale". De Emmanuel Macron a Monica Lewinksy, passando pelo filho de Trump, as reações nas redes sociais à reversão da lei do aborto nos EUA

25 jun, 16:34

De Taylor Swift ao filho de Donald Trump, passando por Monica Lewinsky, as opiniões sobre o retrocesso do marco Roe vs. Wade nos Estados Unidos dividiram-se

A decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos que anulou o marco histórico da decisão Roe v. Wade de 1973 que reconhecia o direito constitucional de uma mulher a um aborto e o legalizou a nível nacional dividiu novamente um já fraturado país e, através das redes sociais, líderes internacionais, músicos, celebridades e várias figuras públicas reagiram à notícia, a maior parte manifestando repúdio mas também houve quem mostrasse contentamento.

Uma das mensagens mais expressivas veio de Monica Lewinsky, a ativista e autora que protagonizou um escândalo sexual com Bill Clinton, utilizou o Twitter para nomear cada um dos juízes republicanos do Supremo responsáveis pela reversão do direito constitucional ao aborto - colocando um “fuck you” por trás de cada nome.

Já o escritor Stephen King, a mente por trás de The Shining e Carrie, fez uma alusão à série “A história de uma Serva”, onde é retratada uma sociedade totalitária no pós-Estados Unidos que é governada por um regime fundamentalista que trata as mulheres como propriedade do Estado.

Nos bastidores políticos, o estado norte-americano da Califórnia foi um dos que se movimentou mais rapidamente para contrariar o fim da Roe vs. Wade. Pouco depois da decisão ser tomada, o governador Gavin Newsom assinou o Projecto de Lei 1666 da Assembleia, que se destina a proteger os pacientes e os prestadores de serviços que tenham ou assistam a um aborto na Califórnia de serem processados noutros estados com proibições de aborto. “O aborto é legal na Califórnia. Continuará a ser assim. Acabei de assinar um projecto de lei que faz do nosso estado um porto seguro para as mulheres de todo o país. Não iremos cooperar com nenhum estado que tente processar mulheres ou médicos por receberem ou prestarem cuidados reprodutivos”, escreveu no Twitter.

À Reuters, Tedros Adhanom Ghebreysus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, afirmou estar “muito desapontado, porque os direitos das mulheres devem ser protegidos. E eu esperava que a América protegesse esses direitos." Na mesma linha, Stephane Dujarric, porta-voz de António Guterres, secretário-geral da ONU, garantiu que “ a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos são a base de uma vida de escolha, empoderamento e igualdade para mulheres e meninas do mundo”, reiterando que “restringir o acesso ao aborto não impede as pessoas de procurar o aborto, apenas o torna mais mortal".

Também Hillary Clinton escreveu que a decisão do Supremo é “um retrocesso para os direitos das mulheres e os direitos humanos”. "A maioria dos americanos acredita que a decisão de ter um filho é uma das decisões mais sagradas que existem, e que tais decisões devem permanecer entre os pacientes e os seus médicos”, acrescentou.

Os líderes da União Europeia também condenaram, quase em uníssono, a decisão do Supremo. António Costa admite que ficou “dececionado”, Emmanuel Macron manifestou a sua solidariedade “com todas aquelas mulheres cujas liberdades foram comprometidas pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos" e Pedro Sánchez refere que “não podemos dar por adquirido nenhum direito”. Boris Johnson, por sua vez e em entrevista à BBC, diz que a decisão de reverter o marco judicial Roe vs Wade reforça a sua crença “no direito de escolha da mulher”.

 

 

Numa publicação partilhada na sua página do Twitter, Taylor Swift expressou a sua indignação com a decisão do Supremo Tribunal. "Estou absolutamente aterrorizada por estarmos aqui - que depois de tantas décadas de luta pelos direitos das mulheres ao seu próprio corpo, a decisão de hoje nos tenha despojado disso".

No mesmo sentido, a estrela pop Mariah Carey escreveu sobre como foi falar do assunto com a sua filha de 11 anos. "É verdadeiramente incompreensível e desanimador ter de tentar explicar à minha filha de 11 anos porque vivemos num mundo onde os direitos das mulheres se estão a desintegrar diante dos nossos olhos".

Por outro lado, a apresentadora de televisão e antiga juíza e procuradora do Estado de Nova Iorque, Jeanine Pirro falou a favor da decisão num Tweet. "O Supremo Tribunal não retirou o chamado 'direito' ao aborto", escreveu Pirro. "Deixaram ao critério dos Estados e do povo a decisão. Não é isso democracia?"

Donald Trump Jr., o filho mais velho do antigo Presidente Donald Trump, escreveu no Twitter que estava "orgulhoso" do seu pai, que esteve no cargo de 2017 a 2021, pelo "que ele conseguiu hoje".

Trump disse também à Fox News que a decisão "vai funcionar para toda a gente". "Isto é seguir a Constituição, e devolver direitos quando já deveriam ter sido concedidos há muito tempo", disse Trump. "Isto traz tudo de volta para os estados onde sempre pertenceu".

Também o ex-vice-presidente republicano Mike Pence apoiou a decisão, referindo que, "agora que Roe v. Wade foi anulado para o monte de cinzas da história, uma nova arena na causa da vida emergiu e cabe a todos os que acarinham a santidade da vida garantir que defendemos as crianças".

A Academia para a Vida do Vaticano aclamou, na sexta-feira, a decisão do Supremo Tribunal sobre o aborto, dizendo que desafiou o mundo a refletir sobre questões existenciais e ainda surge como um grito de ajuda para que as mulheres possam manter os seus filhos. Em comunicado, o Vaticano enaltece ainda que a defesa da vida humana não se pode limitar aos direitos individuais, porque a vida é uma questão de “amplo significado social”.

E.U.A.

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