Estas são as três mulheres (acérrimas feministas) que mandam na União Europeia

18 jan, 17:03

Roberta Metsola é a nova presidente do Parlamento Europeu, a terceira mulher a assumir o cargo e também a terceira a presidir a uma grande instituição europeia, juntando-se a Ursula von der Leyen (Comissão Europeia) e Christine Lagarde (BCE)

Tem apenas 43 anos, feitos hoje, no mesmo dia em que foi eleita presidente do Parlamento Europeu, e é, a partir de agora, não só a terceira mulher à frente da instituição como uma das três que lideram as principais instituições europeias, como Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu.

Mas quem é Roberta Metsola, a mais jovem presidente do Parlamento Europeu, eleita por larga maioria? Mãe de quatro filhos é assumidamente pró-vida e contra o aborto, tendo votado contra todas as iniciativas legislativas europeias, uma bandeira que é mais da oposição do que sua; membro do Partit Nazzjonalista, o partido nacionalista de Malta, situa-se no centro-direita da sua família política europeia, o Partido Popular Europeu (PPE), tendo uma visão europeísta, unificadora e defensora dos migrantes.

Apesar de ser contra a interrupção voluntária da gravidez, ilegal no seu país, e que lhe tem valido as maiores críticas entre os eurodeputados, a advogada maltesa é uma acérrima defensora das mulheres e da igualdade de direitos, luta que estende à comunidade LGBTQI e ao combate da corrupção. No Parlamento Europeu fez parte do comité de Liberdades Civis, Justiça e Assuntos Internos, e investigou esquemas de evasão fiscal como os Papéis do Panamá; escreveu relatórios contra a homofobia, discriminação sexual e identidade de género e sobre a crise migratória. 

“A primeira coisa que gostaria de fazer como presidente é pensar no legado de David Sassoli: foi um lutador, lutou pela Europa e por nós, por este Parlamento. [...] Honrarei David Sassoli enquanto presidente, defendendo sempre a Europa, os nossos valores comuns de democracia, dignidade, justiça, solidariedade, igualdade, Estado de direito e direitos fundamentais", afirmou após a eleição.

Roberta Metsola no dia em que foi eleita

Agora que está onde está, Metsola quer puxar o tapete à "narrativa anti-UE", mas também à "desinformação" e ao que diz serem "soluções baratas de nacionalismo, autoritarismo, protecionismo, isolacionismo".

"A Europa é precisamente o oposto. Trata-se de todos nos defendermos uns aos outros, aproximando os nossos povos. Trata-se de defendermos os princípios das nossas mães e dos nossos pais fundadores, que nos conduziram das cinzas da guerra e do holocausto à paz, à esperança e à prosperidade. Há 22 anos, Nicole Fontaine foi eleita, 20 anos depois de Simone Veil. Não passarão mais duas décadas até a próxima mulher estar aqui", defende.

Mas não é por defender os direitos das mulheres que defende um sistema de cotas. Para Roberta Metsola, "mulheres no poder dão poder às mulheres". “Quero ver mais mulheres em todos os níveis no setor privado e no setor público. Nós, na política, precisamos de ser líderes na promoção desta reforma”, argumenta.

Um papel reformista que, na sua visão, cabe também a Ursula von der Leyen, a primeira e única mulher presidente da Comissão Europeia, e a Christine Lagarde, a primeira e única mulher presidente do Banco Central Europeu.

Já em 2019, a Europa era "uma mulher"

Foi a primeira mulher à frente do maior organismo europeu, a Comissão Europeia, onde está desde 2019. Ginecologista de profissão, Ursula Gertrud Albrecht (nome de solteira) nasceu a 8 de outubro de 1958, na capital belga, Bruxelas, onde viveu até aos 13 anos, antes de se mudar para a então República Federal da Alemanha.

Quando foi eleita para a Comissão Europeia, deixou uma mensagem clara #EuropeIsAWoman (em português: A Europa é uma mulher). Uma simples frase que dá seguimento a vários anos como ministra da Família, Idosos, Mulheres e Juventude da Alemanha - cumpriu dois mandatos no governo de Angela Merkel.

Na Comissão Europeia abraça as ideias que a caraterizam desde o início, e afirma-se a favor da adoção por casais do mesmo sexo, além de ser contra os populismos - curiosamente, é durante o seu mandato que esta corrente ganha espaço, com Vox, Afd ou outros países de extrema-direita a normalizarem-se na Europa.

Na corrida à Comissão Europeia, apareceu como candidata de última hora, mas teve de imediato um forte apoio da comunidade feminina, ao que respondeu com uma simples frase: "A igualdade de género é um tópico perto do meu coração".

"Se a Europa quer ser sobre 'inspirar raparigas e mulheres', como disse Tuske, a escolha é clara: fiquem com von der Leyen por agora, e depois tentem conseguir a nomeação para a presidência da Comissão", afirmou antes de ser eleita.

Bem-vista de fora, foi em "casa" que enfrentou as maiores críticas. Os anos à frente do Ministério da Defesa tiraram-lhe popularidade, o que resultou em fortes críticas de figuras políticas.

"Von der Leyen é a nossa ministra mais fraca. Aparentemente isso é suficiente para ser presidente da Comissão Europeia", vociferou em 2019 Martin Schulz, antigo presidente do Parlamento Europeu e membro dos sociais-democratas alemães.

Mais longe foi Doris Schröder-Köpf, que, em 2006, perguntou "porque é que ela teve sete filhos se nunca está em casa?". A ex-mulher do antigo chanceller Gerhard Schröder ficou sem resposta, mas as intenções de Ursula continuaram intactas.

Em dois anos de presidência, um momento relacionado com a igualdade de género marcou o mandato de Ursula von der Leyen. Em abril de 2021, a alemã ficou em pé, quando o presidente do Conselho Europeu e o presidente da Turquia se sentaram nas únicas cadeiras disponíveis, apesar de o encontro estar marcado com os três. A responsável máxima europeia acabou por se sentar num sofá, tal como fez um assessor de Erdogan.

Von der Leyen na reunião em que ficou "apeada"

A face dura que quer empoderar a mulher

Ministra da Economia, Finanças e Emprego de França, ministra da Agricultura e Pescas, ministra do Comércio Exterior, primeira mulher presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, agora, presidente do Banco Central Europeu. Uma lista extensa de cargos para Christine Lagarde, que logo em 1999 se mostrou uma mulher de vanguarda. Nesse ano foi escolhida para presidir a prestigiada firma de advogados Baker & McKenzie.

Foi isso que levou a Forbes a classificá-la como uma das 100 mulheres mais poderosas do mundo em três anos seguidos. Politicamente posicionada mais à direita, aos 66 anos, a francesa tem dois filhos e vive com o companheiro Xavier Giocanti.

A imagem fria e distante da mulher das finanças é contrastada com as lutas humanistas. À cabeça, a defesa da mulher, que deixou bem clara num artigo publicado em 2017, quando ainda era presidente do FMI, e que tinha como mote "empoderar a mulher é crítico para a economia e para as pessoas".

"Trazer as mulheres para o local de trabalho reduz a igualdade, porque uma das maiores desigualdades é o facto de as mulheres serem deixadas de parte, subutilizadas, sobreexploradas, normalmente mal pagas. Se melhorarmos nestas partes, reduzimos a desigualdade", escreveu numa nota publicada no website do FMI, organização na qual fez do avanço das mulheres uma das prioridades.

Mas Christine Lagarde não é só feminista, faz por que também outras pessoas o sejam, nomeadamente aquelas que se dizem como tal.

Christine Lagarde

Em entrevista à CNN, em 2017, dizia que "é preciso assegurar que fazem aquilo que defendem", defendendo mesmo que uma liderança feminina traz coisas mais positivas.

"Quando temos mulheres numa empresa, os resultados são sempre melhores. Quando mulheres se juntam a uma força de trabalho, é melhor para o crescimento. Isso melhora a química, no entanto, não está a acontecer rápido o suficiente. Em alguns casos, não está a acontecer de todo", afirmou, numa entrevista em que classificou o machismo de "doença estúpida".

Foi essa mesma ideia que defendeu em 2019, para assinalar o Dia Internacional da Mulher. Aí, defendeu que a economia de alguns países podia crescer até 35% caso fossem abandonadas algumas práticas discriminatórias que estão a impedir que as caraterísticas das mulheres sejam colocadas em prática.

De resto, em entrevista à CNN Portugal, disse que sabe que é um "exemplo para muitas jovens", e até revelou uma história em Portugal: "Quando cheguei a Lisboa, uma das funcionárias do aeroporto disse-me: 'A senhora é um exemplo para mim. Continue assim!' Muitas vezes, isso é um sinal de apoio e incentivo que guardo com muito carinho, quando as coisas se tornam difíceis, e às vezes são".

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