OBITUÁRIO || Robert Redford, ator, realizador, ambientalista, morre aos 89 anos
Robert Redford, o ator deslumbrante e realizador vencedor de um Óscar que abdicou do seu estatuto de protagonista de Hollywood para defender causas que lhe eram caras, morreu esta terça-feira, de acordo com a sua assessora de imprensa, Cindi Berger, presidente e diretora executiva da Rogers and Cowan PMK.
Tinha 89 anos.
"Robert Redford faleceu a 16 de setembro de 2025, na sua casa em Sundance, nas montanhas de Utah — o lugar que ele amava, rodeado por aqueles que amava. Fará muita falta", disse Berger num comunicado enviado à CNN. "A família pede privacidade."
Conhecido pelos seus papéis principais em "Butch Cassidy and the Sundance Kid - Dois Homens e Um Destino" e "All the President’s Men - Os Homens do Presidente", Redford realizou filmes também premiados, como "Ordinary People - Gente Vulgar" e "A River Runs Through It - Duas Vidas e o Rio".
A sua paixão pela arte cinematográfica levou-o a criar o Sundance Institute, uma organização sem fins lucrativos que apoia o cinema e o teatro independentes e é conhecida pelo seu festival anual, o Sundance Film Festival.
Redford era também um ambientalista dedicado, tendo-se mudado para Utah em 1961 e liderado esforços para preservar a paisagem natural do estado e do oeste americano.
Chris Pizzello/Invision/AP
Redford atuou até seus últimos anos, reunindo-se com Jane Fonda no filme da Netflix de 2017, “Our Souls at Night - Nós, ao Anoitecer”. No ano seguinte, foi protagonista em “The Old Man & the Gun - O Cavalheiro com Arma” aos 82 anos, um filme que ele disse ser o seu último – embora tenha afirmado que não estava a considerar reformar-se.
“Para mim, reformar-me significa parar ou desistir de algo”, disse ele ao programa CBS Sunday Morning em 2018. “Há esta vida para ser vivida, por que não vivê-la o máximo que puder, enquanto puder?”
Em outubro de 2020, Redford expressou preocupação com a falta de foco nas mudanças climáticas, à medida que se assistiam a incêndios florestais devastadores no oeste dos Estados Unidos. Fê-lo num artigo de opinião que escreveu para a CNN.
Naquele mesmo mês, o filho de 58 anos de Redford morreu de cancro.
David James Redford — o terceiro dos quatro filhos de Robert Redford e da sua ex-mulher Lola Van Wagenen — seguiu os passos do pai como ativista, cineasta e filantropo.
Uma juventude inquieta
Nascido em Santa Monica, Califórnia, perto de Los Angeles, em 1936, Redford tinha no seu pai um leiteiro e contabilista que trabalhava longas horas, mudando-se mais tarde com a família para uma casa maior na vizinha Van Nuys.
"Eu não o via muito", lembrou Redford sobre o seu pai, no programa "Inside the Actor’s Studio", em 2005.
Como a sua família não tinha condições financeiras para pagar a uma cuidadora, Redford passava horas na secção infantil da biblioteca local, onde se fascinou por livros sobre mitologia grega e romana.
No entanto, Redford não era exatamente um aluno exemplar.
"Eu não tinha paciência... Não me sentia inspirado", recordou Redford. "Era mais interessante para mim brincar e aventurar-me além dos parâmetros em que estava a crescer."
Atraído pelas artes e pelos desportos — e por uma vida fora da expansiva Los Angeles —, Redford ganhou uma bolsa de estudos para jogar basebol na Universidade do Colorado em Boulder em 1955. Nesse mesmo ano, a sua mãe morreu.
"Ela era muito jovem, nem 40 anos tinha", contou.
A mãe "sempre me apoiou muito (na minha carreira)" — mais do que o seu pai, contou Redford.
"O meu pai atingiu a maioridade durante a Depressão e tinha medo de arriscar... por isso queria um caminho reto e estreito para mim, que não era o caminho que eu estava destinado a seguir", disse. "A minha mãe, independentemente do que eu fizesse, era sempre compreensiva e apoiante e achava que eu era capaz de fazer qualquer coisa."
"Quando parti para o Colorado e ela morreu, percebi que nunca tive a oportunidade de lhe agradecer."
Redford começou então a beber, perdeu a bolsa de estudos e acabou por ser convidado a deixar a universidade. Trabalhou como ajudante na Standard Oil Company e economizou os ganhos para continuar os estudos de arte na Europa.
“Vivia no dia a dia, mas estava tudo bem”, disse Redford sobre seu tempo na Europa. “Eu queria essa aventura. Queria a experiência de ver como eram outras culturas.”
Nasce uma estrela
Quando regressou aos EUA, Redford começou a estudar teatro na American Academy of Dramatic Arts, em Nova Iorque.
Tímido e fechado, Redford disse que não se encaixava com os outros estudantes de teatro, que estavam ansiosos por mostrar as suas habilidades de atuação. Depois de uma representação à frente da turma com um colega que terminou em frustração e desastre, Redford disse que o professor o chamou à parte e o encorajou a continuar.
Em 1959, Redford formou-se na academia e conseguiu o seu primeiro papel como ator num episódio de "Perry Mason". A sua carreira de ator foi "em ascensão a partir daí", afirmou.
A sua grande oportunidade como ator surgiu em 1963, quando protagonizou "Barefoot in the Park", de Neil Simon, na Broadway — um papel que mais tarde faria no cinema com Jane Fonda.
Por volta dessa época, Redford casou-se com Lola Van Wagenen e constituiu família. O seu primeiro filho, Scott, morreu de síndrome da morte súbita infantil poucos meses após o seu nascimento, em 1959. Shauna nasceu em 1960, David em 1962 e Amy em 1970.
À medida que a sua carreira de ator levantava voo, Redford e a sua família mudaram-se para Utah em 1961, onde ele comprou dois acres (cerca de oito mil metros quadrados) de terra por apenas 500 dólares e construiu uma cabana com as próprias mãos.
"Descobri a importância da natureza na minha vida e queria estar onde a natureza fosse extrema e onde eu achasse que ela poderia ser eterna", recordou à CNN.
Redford ganhou fama como protagonista em 1969, quando contracenou com Paul Newman — já uma grande estrela — em "Butch Cassidy and the Sundance Kid". O western sobre dois fora-da-lei ganhou quatro Óscares.
Redford disse que "será eternamente grato" a Newman, a quem atribuiu o mérito de o ter ajudado a conseguir o papel. Os dois atores tinham uma grande química no ecrã, tornaram-se amigos para toda a vida e voltaram a reunir-se em "The Sting - A Golpada", em 1973, que ganhou o Óscar de melhor filme.
Um protagonista relutante
Redford foi a estrela numa série de filmes de sucesso ao longo da década de 1970: "Jeremiah Johnson"; "The Way We Were - O Nosso Amor de Ontem", ao lado de Barbra Streisand; "The Great Gatsby - O Grande Gatsby"; e com Dustin Hoffman em "All The President’s Men", de 1976, sobre o escândalo Watergate.
Ao unir-se ao realizador Sydney Pollack em "Jeremiah Johnson", Redford entrou em confronto com o estúdio para que o filme fosse feito da forma que ele queria — um precursor de sua carreira como realizador e de seu apoio ao cinema independente.
"Foi uma batalha desde o início", contou Redford ao programa "Inside The Actor’s Studio". "Eles (o estúdio) disseram... “Você tem 4 milhões de dólares, coloque-os no banco em Salt Lake City, pode filmar onde quiser, mas é isso. Se ultrapassar, sai do seu bolso”".
Com diálogos sucintos e cenários deslumbrantes, o filme conta a história de um veterano da Guerra do México que deixou o campo de batalha para sobreviver como caçador no oeste americano.
O filme foi lançado mais de três anos após a sua produção porque, segundo Redford, o diretor de vendas do estúdio achava que o filme era "tão incomum" que não encontraria público.
"Jeremiah Johnson" acabou por arrecadar quase 45 milhões de dólares. Não foi a única vez que a paixão de Redford pela arte de fazer cinema o colocou em desacordo com os estúdios que financiavam o seu trabalho.
"O que é triste e contra o que temos de lutar, como cineastas, são as opiniões preconcebidas sobre o que funciona ou não funciona", disse Redford. "Filmes sobre desporto não funcionam, filmes sobre política não funcionam, filmes sobre a imprensa não funcionam — então eu fiz três deles."
Redford estreou-se como realizador em 1980 com "Ordinary People", um drama sobre uma família suburbana infeliz que ganhou o Óscar de Melhor Filme e outro para ele como melhor realizador. Continuou a protagonizar filmes de sucesso, como "The Natural", em 1984, que explorou a sua paixão pelo basebol, e "An Indecent Proposal - Proposta Indecente", de 1993, que o colocou ao lado de uma Demi Moore muito mais jovem.
Mais tarde, dirigiu o filme de 1993 "A River Runs Through It", que ganhou três Óscares, "Quiz Show", de 1994, e "The Horse Whisperer - O Encantador de Cavalos", de 1998, no qual foi também ator.
Robustamente bonito, Redford era frequentemente escalado para papéis românticos em filmes como "Out of Africa - África Minha", de 1985, mas nem sempre se sentia confortável com esse rótulo e temia ser estereotipado.
"Eu não me via da maneira como os outros me viam e sentia-me um pouco preso porque não conseguia sair do papel de... protagonista bonito", contou. "Era muito lisonjeiro, mas era restritivo... levei muitos anos para me libertar disso."
Impacto duradouro
A paixão de Redford pelo meio ambiente e pelo cinema independente fundiu-se quando ele fundou o Sundance Institute em 1981. A organização sem fins lucrativos apoia "a tomada de riscos e novas vozes no cinema americano", bem como no teatro, e o resort Sundance de Redford, num desfiladeiro acima de Provo, Utah, organiza workshops anuais para dramaturgos e argumentistas.
Todos os anos, o instituto de Redford realiza o Sundance Film Festival em Utah, a maior mostra anual de cinema independente dos Estados Unidos. Muitos jovens cineastas tiveram a sua grande oportunidade no Sundance, incluindo Steven Soderbergh com "Sex, Lies, and Videotape - Sexo, Mentiras e Vídeo" em 1989, Quentin Tarantino com "Reservoir Dogs" em 1992 e Ryan Coogler com "Fruitvale Station" em 2013.
O impacto de Redford ao longo da vida na indústria cinematográfica foi reconhecido em 2002 com um Óscar honorário.
Nos seus últimos anos, Redford nunca perdeu a paixão por contar histórias através do cinema e continuou a ser um defensor declarado das causas ambientais. Frequentemente, evitava responder quando questionado sobre a reforma.
"Quero aproveitar ao máximo o que me foi dado", disse Redford à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, em 2015. "Continuamos a esforçar-nos, a experimentar coisas novas e isso é revigorante."