"Tu não és preta". Rita Pereira fez trancinhas, Carolina Deslandes fez uma música: foram acusadas de apropriação cultural

18 jul, 19:36
Rita Pereira (DR - Instagram)

A polémica surgiu depois de a atriz ter feito uma publicação no Instagram em que mostrava o seu novo penteado e dançava ao som de "Filha da Tuga". Mas o que é, afinal, a apropriação cultural e porque é que as trancinhas podem ser ofensivas?

Para assinalar a despedida da personagem Maria, da novela "Quero é Viver", a atriz Rita Pereira decidiu fazer uma mudança no visual e fazer um penteado com "twist braids", ou seja, uma série de longas tranças que são tradicionalmente usadas pelas mulheres negras. Na publicação no Instagram, Rita Pereira aparece a dançar ao som  de "Filha da Tuga", e deixa um apelo antirracista: "[a canção] descreve a realidade de muitos dos meus amigos que, vezes sem conta já ouviram: “Vai para a tua terra”. A todos vocês que um dia passaram por isso, eu grito bem alto: FICA AQUI, NA TUA TERRA!!! One love".

Nos comentários, houve muita gente a elogiar o penteado e a atitude de Rita Pereira - como por exemplo o cantor Dino D'Santiago ou o modelo Luís Borges - mas também várias críticas. E, apesar das boas intenções da publicação, rapidamente a atriz foi acusada de apropriação cultural, que é “o ato de usar coisas de uma cultura que não é a sua, sem mostrar que se entende ou respeita essa cultura", segundo explica o dicionário de Cambridge. A atriz foi criticada, essencialmente, por, sendo uma mulher branca, usar um penteado associado à cultura negra, por usar emojis de mãos e corações com a cor castanho-escuro e por cantar uma canção que fala de uma mulher mestiça. 

 

"Tu não és preta para os brancos, vocês nunca vão ser pretossss nuncaaaa e nunca vão saber o que é ser preta principalmente aqui em Portugal (...) e por seres tão privilegiada por ser branca, consegues cantar esta letra e meter na internet como se nada fosse", diz um comentário, ao qual Rita Pereira respondeu: "Mas quem disse que sou preta para os brancos?! Estou a cantar, não estou a dizer que eu sou a letra desta música. Não sou preta, eu sei, nunca o serei, eu sei, mas admiro a cultura, vivo a cultura desde que nasci, defendo e respeito. Não entendo realmente este ataque mas sinto-me tranquila com as minhas atitudes e se um dia errar tenho muitos amigos e família pretos para mo dizerem, obrigada."

Noutro comentário, a atriz afirma: "Estou muito consciente de tudo, tenho conversas longas e esclarecedoras com vários amigos e familiares sobre este tema. É um assunto muito importante, complexo e ao mesmo tempo delicado. Questionei várias pessoas sobre a apropriação cultural e cheguei à conclusão, juntamente com eles que no meu caso não o é. Mas estou sempre disponível para aprender mais sobre este tema."

Apesar destas explicações, as críticas continuaram. "Estou cansada de viver num país em que todos dizem o que lhes apetece. Eu não tenho que ter medo de expor o racismo dos outros, é também para isso que aqui estou", escreveu Mafalda Fernandes, autora da página "Quotidiana de uma Negra", convidando tanto a atriz como a cantora a refletirem sobre a situação. "Como pessoa branca que és, Rita, o teu dever nestas questões raciais é compreenderes o teu privilégio, é seres aliada desta luta e para tal não há nada melhor do que efetivamente pesquisares sobre o tema e procurares pessoas que estejam dentro do assunto de forma a teres a certeza que não ofendes ninguém. (...) Pessoas brancas que se relacionam afetivamente com pessoas negras não têm passaporte para serem antirracistas. O antirracismo é uma luta complexa que exige estudo e vontade de mudar, não vem com os vossos namorados ou filhos negros. E mais uma questão, podes utilizar tranças à vontade não sou eu que te vou julgar por isso, mas a real pergunta aqui é: tu sabes o que pessoas negras em Portugal passam por utilizar tranças?"

"Filha da Tuga": Irma e Carolina Deslandes também foram criticadas

A cantora Irma tornou-se conhecida quando concorreu ao último Festival da Canção: "Nasceu em Lisboa mas a sua identidade reflete forte influência da cultura angolana, ou não fosse Angola o país de origem dos avós com quem cresceu", lia-se na sua apresentação. A letra de "Filha da Tuga", que foi escrita em conjunto pela cantora com Carolina Deslandes, é inspirada na sua experiência: "Viram-me chegar e querem por uma etiqueta/ Sou branca para os pretos para os brancos sou preta/ Sou a mistura da terra e da descoberta/ Um passado angolano um futuro lisboeta/ E quê? Olho claro com carapinha/ E quê? Um gingado que é alfacinha/ E quê, e quê? Eu sou mistura e quê?"

Perante as críticas que surgiram por a canção ter sido escrito por duas mulheres brancas, Deslandes esclareceu, comentando na página "Quotidiano de uma Negra": "Ela [Irma] é a minha melhor amiga e só pus em verso as coisas que ela me dizia que sentia, diariamente. Acho que esse é o trabalho do poeta - entregar-se à história do outro. Peço desculpa se isso ofendeu de alguma forma. Nunca foi a minha intenção. E a Irma não veio ter comigo a pedir a canção, fiz a canção porque é uma conversa que temos diariamente e quis meter em verso aquilo de que falávamos. Só. A culpa é minha. Peço mais uma vez desculpa se ofendi alguém e se pareceu que a intenção foi de apropriação. Não foi isso que quis fazer."

Mas, afinal, o que é a apropriação cultural?

O debate em torno da apropriação cultural não é novo. Surgido na década de 1980, o termo foi utilizado pela primeira vez em contexto académico para discutir questões relacionadas com o colonialismo e as relações entre grupos dominantes e minorias. “O colonialismo facilitou a extração generalizada de recursos naturais, de saques culturais tangíveis e de conhecimento intangível”, explica a investigadora Funmi Arewa no site Alma Preta. A apropriação cultural envolve uma relação de poder: uma cultura historicamente suprimida e menorizada vê os seus elementos roubados e os seus significados apagados pela cultura que a dominou. 

A polémica passou para a cultura popular e surge sempre que, por exemplo, uma marca de roupa ou de decoração recorre a padrões tradicionais de uma outra cultura, como aconteceu com a estilista norte-americana Tory Burch, que criou uma camisolas de lã que eram a imitação da camisola poveira, de Póvoa de Varzim. Ou quando alguma figura pública usa acessórios, roupa, penteados que pertencem a uma cultura diferente da sua (os mais comuns são os dreadlocks, os turbantes, etc.). Mas também pode surgir a propósito do uso de um estilo de música ou de outros elementos culturais. É ou não legítima essa apropriação?

Segundo os críticos da apropriação cultural, o que é grave é, primeiro, essa supressão dos significados originais (existe sempre descontextualização e simplificação e existe quase sempre estereotipização); depois o facto de ser uma apropriação leviana (ou seja, não consciente); e, por fim, quando há um objetivo claro de lucrar com a apropriação (por exemplo para chegar a um determinado público-alvo). Em todos os casos, existe um "apagamento" dos verdadeiros protagonistas de uma cultura e não uma verdadeira visibilização: ou seja, mesmo quando a intenção é elogiar uma determinada cultura, o resultado acaba por ser o oposto.

"Lamentável", comentou a página brasileira Voz Negra no post de Rita Pereira. Lamentável porquê? Para este coletivo de luta "contra o racismo, o sexismo e todas as formas de opressão", este é um caso óbvio de apropriação cultural, como explica à CNN Portugal o seu porta-voz: "Apropriação de aspectos da cultura negra por pessoas de pele mais clara na intenção de tirar proveito pessoal dessa identificação (nossa identidade), através da projeção da imagem, um espaço normalmente utilizado por pessoas negras para promoverem produtos, ideias, hábitos de comportamento e troca de informação, vejo isso como aproveitamento indevido e injusto da fama conquistada através de lutas diária e árdua do povo prete na sociedade".

Num vídeo publicado em maio do ano passado, Mafalda Fernandes respondia à pergunta: "Sou uma mulher branca, posso usar tranças?" Na sua opinião, não há qualquer problema no facto de as mulheres brancas usarem tranças, desde que percebam o que é que isso significa para a mulher negra. "Gostava que, quando decidas fazer tranças, saibas que existem mulheres negras, neste país, que muitas vezes são recusadas em empregos por estarem a usar. Quero que saibas que em muitos países as tranças têm um significado muito específico. E quero que saibas que para nós, mulheres negras, as tranças podem ser um facilitador no dia-a-dia, porque a nossa coroa negra, o nosso cabelo natural, exige imensos cuidados".  

Como se lê num comentário ao post de Rita Pereira: "No final do dia, tira as tranças e 'está tudo bem', já a mulher negra nem sem as tranças se livra do racismo de muitos que elogiam as tranças da Rita. Seria bom se bastasse dizer "e quê?" Privilégio é achar que sim".

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