opinião

Ambicionar a riqueza em vez de subsidiar a pobreza

26 out, 20:55

A crueldade dos números revelados recentemente sobre os portugueses em risco de pobreza não se compara com a crueldade com que o Estado continua a tratar este assunto. E ainda menos com a crueldade de quem não tem dinheiro para chegar ao fim do mês, de quem tem filhos, prestação da casa e um ordenado de miséria, ou de quem, pura e simplesmente, vive na pobreza extrema.

De acordo com os mais recentes dados da Pordata, em 2020 o número de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social subiu 12,5%, face ao ano anterior. A pandemia e o agravamento da situação económica cavou fossos em todos os países, um pouco por todo o mundo, mas em Portugal o buraco é um dos maiores da União Europeia. Sem apoios sociais, quase quatro milhões e meio de portugueses são objetivamente pobres.

Primeiro a pandemia, depois o agravamento da situação económica, agora a guerra, a subida da inflação e das taxas de juro, nunca faltam motivos para justificarmos o injustificável: Portugal é e sempre foi um país pobre porque nunca ambicionou ser outra coisa. Porque, durante décadas, sucessivos governos nunca se preocuparam em construir uma economia que criasse as condições necessárias para gerar riqueza e que essa riqueza fosse distribuída de forma digna por quem trabalha. Porque, durante décadas, se foi disfarçando este problema com subsídios, pagos com défices e dívida.

O problema começa na base do discurso político. É mais fácil prometer ajudar os pobres do que trabalhar para que Portugal seja um país rico. É mais fácil fazer um discurso populista e demagógico criticando as grandes empresas pelos lucros que têm do que criar condições para que o país possa ter mais grandes empresas. Dá mais votos um punhado de subsídios do que um conjunto de medidas que tornem o país mais competitivo e mais atrativo para as empresas. 

Em Portugal sempre foi mais fácil roubar aos pobres remediados para dar aos pobres ostracizados. Os impostos sobre o trabalho, somados a um IVA cego, surdo e mudo e a um conjunto de taxas e taxinhas disfarçadas de ambientalistas ou de justiça social, recaem quase sempre sobre os que vivem do seu trabalho e que, antes de porem comida na mesa, já deixaram o dízimo ao Estado.

É entre essa classe abstrata a que chamamos classe média e todos os outros que estão abaixo dela que, em Portugal, se criou a ideia de justiça social. É como se fosse uma espécie de economia circular do Estado: cobra-se a muitos para se pagar a cada vez mais. Não se consegue cobrar muito mais aos poucos – “os ricos” – porque eles são cada vez menos e, em muitos casos, chamar-lhes ricos só pode ser para rir. 

O caminho alternativo, e verdadeiramente difícil, seria criar condições no país para que quem trabalha e faz os seus descontos pudesse ver, no final do mês, na conta bancária, o resultado e o mérito do que produziu. Difícil seria apostar numa economia de valor acrescentado, competitiva e que não nos deixasse em desespero de cada vez que uma grande multinacional – como aconteceu com a Adidas recentemente – decidisse abandonar o país e deixar mais de três centenas de trabalhadores entregues à sua sorte.

Mas nada disto é prioritário. A narrativa que ainda esta semana se ouviu no Parlamento, durante o debate do Orçamento do Estado para o próximo ano, é a do “eu cresci mais do que tu” ou “tu cortaste mais do que eu”. Uma cortina de fumo que já mal disfarça a realidade: Portugal é um país pobre, que cresce pouco e onde o Estado está viciado em cobrar impostos e em distribuir subsídios.

Não há visão de futuro. Não há uma proposta alternativa de quem está na oposição e, mesmo quando aparece, carrega com ela a incoerência do passado. Ver cartazes do PSD a prometer que não corta nas pensões podia ser um sketch de humor, não fosse uma triste metáfora da seriedade com que os partidos encaram a vida política. 

Os próximos tempos serão difíceis. Achar que Portugal vai escapar incólume à crise que países como a Alemanha, o Reino Unido ou os Estados Unidos enfrentam é mentir às pessoas. Não tem outro nome. Com a diferença de que qualquer um destes países recuperará muito mais rápido do que nós. Porque têm economias muito mais sólidas do que a nossa. Mas, sobretudo, porque a cultura política desses países nunca esteve focada na subsidiação da pobreza, mas na ambição da riqueza.

Colunistas

Mais Colunistas

Patrocinados