Podem preparar as pedras: este artigo defende os bilionários, não por moral, mas por função
Antes de começarmos, um detalhe técnico: na Europa um bilião é um milhão de milhões; nos EUA, um bilião são mil milhões. A confusão é comum, mas irrelevante para o que importa: Elon Musk, Bezos, Zuckerberg e tantos outros acumulam fortunas tão colossais que já não cabem na nossa escala mental. O número exato pouco interessa — o que interessa é o poder que ele traduz.
E sim, Elon é o mais rico, seguido de Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, os três acima dos 200 mil milhões de dólares, seguindo-se de outros que se colam à peugada. Não conseguimos esconder a raiva que temos dos bilionários que somam tanto quanto todos os outros. Entre 2000 e 2024, o 1% mais rico da população mundial concentrou 41% de toda a riqueza gerada nesses 24 anos.
Hoje escolhi ser o advogado do diabo neste artigo, tentando explicar o inexplicável: porque é que pode ser bom para o mundo haver bilionários.
A origem da fortuna: Criar valor a partir do nada
Os bilionários são quase todos empresários de sucesso que a seu tempo criaram negócios do nada e crescendo-os até ao quase infinito – pelo menos aos olhos de um cidadão comum.
Os fundadores da Microsoft ficaram ricos porque inventaram algo que se transformou numa ferramenta universal de otimização de trabalho e recursos de todos os outros. Musk ficou bilionário porque fundou várias empresas revolucionárias. Começou a ganhar dinheiro com a Zip2, depois com a PayPal e decidiu depois constituir a empresa que revolucionou a mobilidade tanto ou mais quanto Henry Ford. Jeff Bezos entregou-nos o mundo das compras online e Mark trouxe-nos o Facebook. A grande parte dos bilionários criou empresas que efetivamente transformaram o nosso dia a dia, e, portanto, falar do dinheiro deles-biliões- sem referir o que trouxeram ao mundo é extremamente redutor.
Mais dinheiro do que estados
É verdade que muitos destes ricaços têm mais dinheiro do que estados, mas também é verdade que há um pouco de promiscuidade na forma como se avalia a fortuna destes bilionários.
Grande parte deles tem efetivamente fortunas que resultam do número de ações que detêm nas empresas que foram fundando e crescendo e não propriamente dinheiro que têm parado numa conta bancária à espera da reforma. De facto, a fortuna deles cresce com o valor das ações e dos modelos remuneratórios que, enquanto CEO dessas empresas, escolhem — recebem ações em vez de receber salário. Raramente ouvimos falar de bilionários que vendem as suas ações das empresas que detêm — a não ser que necessitem de dinheiro para criar novas empresas. Quando muito vendem as empresas completamente, encaixam o dinheiro e vão embora, mas não são propriamente traders das suas próprias ações. A sua fortuna é, na prática, capital de risco alocado e a trabalhar sob o risco de se poder perder.
Para que serve tanto dinheiro
Pensar que alguém ao cimo da terra tem muito mais dinheiro do que alguma vez precisará ou que alguma vez precisarão as descendências seguintes, parece extremamente injusto. Não interessa sequer a ideologia política. Parece de facto muito injusto e quanto mais pobre for o meio onde estejamos, mais notamos esta injustiça, mas este artigo é mesmo para defender os bilionários porque o que fazem ao seu dinheiro é porventura mais relevante do que o que fazemos ao nosso.
Vou deixar alguns exemplos: Jeff Bezos anunciou que vai investir bilhões de dólares do seu bolso numa nova empresa de IA (ainda sem nome público). Já Musk tinha criado a xAI. Jeff começou com um compromisso inicial de vários bilhões de dólares. Bezos já tinha investido cerca de 15 mil milhões na Blue Origin, concorrente da SpaceX, que se dedicam ao desenvolvimento de tecnologia para voos espaciais. Andam os dois taco a taco. Ambos se aventuram na IA, criando eles próprios concorrência à Google, Meta, Anthropic, Open AI, etc... É bom que haja várias “Inteligências Artificiais” não só para resiliência como para segurança, não deixando que os humanos dependam de uma só que possa crescer desmesuradamente e descontroladamente. Também é bom que haja várias empresas de exploração espacial para que não tenhamos de depender da NASA e outras instituições públicas. Os bilionários são os únicos que conseguem concorrer com eles próprios. Podemos-lhe chamar ganância ou competição. É ao gosto do freguês.
Na realidade, estes bilionários não guardam o dinheiro numa gaveta. Eles arriscam naquilo que não existe e investem os biliões que os estados não seriam capazes de investir nem muito menos de gerir. A sua fortuna colossal é usada como um fundo de capital de risco privado e de última instância para áreas vitais e de alto risco.
Além da IA e do Espaço, vemos este capital a mover-se para:
- Energia Limpa e Nuclear: Bill Gates, através do seu fundo Breakthrough Energy, investiu milhares de milhões de dólares em tecnologias de energia zero-carbono como a Fusão Nuclear e a Captura de Carbono.
- Longevidade e Biotecnologia: Os fundadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, financiaram a Calico (California Life Company), uma empresa de I&D focada em combater o envelhecimento e doenças com ele relacionadas.
- Ciência Exploratória: O bilionário Yuri Milner financiou as Breakthrough Initiatives, um programa de $100 milhões dedicado à procura de vida extraterrestre (SETI).
- Engenharia Biomédica: Michael Dell utiliza parte do seu capital para impulsionar startups de saúde digital e engenharia biomédica.
Empresas de realidade aumentada, de medicina, de engenharia biomédica, de reatores nucleares, de investigação farmacêutica, e tantas outras só existem porque existem estes bilionários que podem arrancar com megaprojetos com o dinheiro e rigor necessário para que as mesmas avancem nos seus propósitos e não morram antes de terem produto. Poucos destes projetos sairiam do papel se fossem os estados a criar e financiar.
A virtude dos bilionários
Um bilionário está e estará sempre no fio da navalha. Um qualquer estado pode sempre instituir um imposto especial para bilionários que lhes absorva a fortuna de um dia para o outro. Eles sabem disso e sabem que o povo aplaudiria essa iniciativa porque nós não percebemos as vantagens de termos esses bilionários que semeiam os seus biliões em projetos que de outra forma não existiriam. Se olharmos para os últimos 30 anos de evolução humana facilmente conseguiremos colocar um bilionário em cada esquina das efetivas revoluções disruptivas que tivemos.
Já sei que muitos olham para este artigo e pensam: “mais um artigo a defender os ricos enquanto o SNS definha”. Compreensível. Mas perguntemo-nos: se amanhã o estado português tivesse 50 mil milhões livres para investir em fusão nuclear ou em terapia genética contra o cancro, confiávamos que o dinheiro chegava ao laboratório certo e não a consultoras amigas ou a obras públicas eleitoralistas? A história recente não nos dá grande confiança.
O Risco Político e o Garante da Concorrência
Claro que este modelo tem falhas graves. Já vimos bilionários desperdiçar fortunas em fraudes ou em vaidades pessoais. Já vimos herdeiros que nada criaram herdar o controlo de impérios que moldam a democracia. E já vimos redes sociais a serem usadas como armas políticas e sociais. Nada disto é defensável. Mas o antídoto não é demonizar a figura do bilionário-fundador; é separar claramente o fundador-criador do herdeiro-passador. É regular plataformas que se tornaram infraestrutura crítica. É fazer tudo isto sem matar o mecanismo que, gostemos ou não, está a financiar a maior parte dos saltos tecnológicos do século.
É inegável que a concentração de fortunas traz consigo um risco de influência política excessiva, pois estes indivíduos podem mobilizar recursos para lobbying e financiar campanhas. No entanto, esta influência tende a ser proporcional à dimensão e complexidade dos problemas que o estado não consegue ou não quer resolver. Quando o setor público falha em inovar na saúde, espaço ou energia, abre-se a porta a que o setor privado, com o seu capital de risco, preencha a lacuna—e com isso, ganhe poder de negociação.
Contudo, este risco é mitigado pela própria natureza do capitalismo disruptivo. Em vez de ficarmos dependentes de uma única tecnologia ou de uma única filosofia de desenvolvimento, a competição entre gigantes assegura a resiliência e a redundância da inovação, forçando cada um a investir mais e mais rápido.
Eu francamente prefiro deixar entregue a estes bilionários os saltos disruptivos do que ter um estado a tentar lidar com isso, desde logo porque os estados não escolhem os capazes, mas sim os dos cartazes, e logo aí a probabilidade de ter a pessoa errada num determinado projeto de milhares de milhões seria muito grande. Os bilionários dão emprego e sim, ganham normalmente muito-demais- com cada emprego, mas achar que eles são concentradores de fortunas desiguais é, talvez, uma falácia. Eles sabem que não precisam de mais um bilião para fazer o que fazem com mais um milhão. Aliás é cada vez mais comum vermos bilionários a entregar as suas fortunas a instituições, mas o que a maior parte deles sabe é que cada bilião serve para fazer mais algo de novo e normalmente não é nada banal.
Nada disto significa que a desigualdade atual seja aceitável ou sustentável a longo prazo. Significa apenas que, no curto-médio prazo (as próximas 2-3 décadas), os únicos atores com capacidade de fazer apostas de 10-20 mil milhões em tecnologias de fronteira são estes indivíduos. Quando (e se) os Estados ou fundos soberanos recuperarem essa capacidade de risco, aí sim poderemos ter o luxo de discutir se ainda precisamos do clube dos bilionários.
A alavanca do risco e a urgência do progresso
Podem preparar as pedras, porque optei por defender as minorias – neste caso, os bilionários –, e não o farei quando virarem maioria.
Se a visão de um único homem ou mulher, seja Musk, Bezos, Gates ou qualquer outro visionário, pode acelerar o desenvolvimento de energia limpa em 10 anos, ou tornar o cancro tratável mais rapidamente do que os ciclos governamentais e burocráticos permitiriam, então o debate sobre a desigualdade deve ser temperado pela urgência do progresso.
A verdade é que a nossa frustração com a concentração de riqueza é legítima, mas é frequentemente míope. Ela foca-se no "cofre" e ignora a "alavanca", olha para os biliões, mas não mede o que eles entregam. O capital colossal destes empresários está a ser direcionado para onde a humanidade mais precisa dele: a quebra de barreiras na IA, a exploração espacial e a medicina de longevidade. Estes são projetos de altíssimo risco que o setor público é mal equipado para gerir.
Da próxima vez que lermos sobre mais um bilionário, em vez de nos concentrarmos no número da sua fortuna, olhemos para onde o seu capital está a ser direcionado - para o fundo do mar, para o espaço, ou para dentro da célula humana. Estes biliões não são uma reserva de luxo, são a massa crítica de investimento que financia os saltos quânticos de que todos beneficiaremos. É por esta razão, puramente pragmática e estratégica, que a existência do clube dos bilionários pode ser, paradoxalmente, o melhor motor de avanço da nossa civilização."