"O apoio de uma ponte nunca devia ser feito na zona do dique", "esquecemo-nos de implementar" medidas: por que motivo a A1 ruiu

12 fev, 16:41

 

Rotura no dique do Mondego reabre debate sobre prevenção, manutenção e alterações climáticas. "É trágico", "estamos num limbo"

A rotura do dique do Mondego e o colapso parcial junto à principal via rodoviária do país estão a reacender o debate sobre ordenamento do território, manutenção de infraestruturas e gestão de cheias.

O geólogo Pedro Proença Cunha, investigador do Centro de Investigação MARE e professor catedrático de Geologia Sedimentar na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, explica que o Mondego é um rio semitorrencial, com cheias de diferentes intervalos de recorrência, podendo, em situações extremas, atingir toda a planície aluvial.

"O Rio Mondego pode ter cheias com diferentes intervalos de recorrência, por exemplo desde 10, 50, 100, 500 ou 1000 anos, embora estas cheias sejam extremamente raras. O que vai acontecer é que, numa determinada cheia, a água do transbordo vai alagar diferentes extensões da sua planície aluvial; no máximo de cheia, ela vai alcançar toda a planície aluvial. O Rio Mondego é um rio semi-torrencial, o que significa que, de ano para ano, pode ter diferentes caudais. Portanto há anos em que pode ter grandes cheias e outros até ter muito pouco caudal", explica o investigador.

Segundo Proença Cunha, "ao longo do tempo, essas sucessivas grandes inundações foram depositando sedimentos nas planícies de inundação e também sedimentos no próprio canal, que neste momento tem cerca de 39 metros de espessura", o que leva a "uma redução da secção útil do canal" e faz com que o "mesmo valor de caudal" inunde "uma maior extensão da planície aluvial".

O professor recorda ainda que a rutura agora registada ocorreu numa zona onde já tinha havido colapso em 2001, sublinhando a necessidade de medidas preventivas e criticando a construção em áreas de inundação.

“Há uma construção que é mal feita. O apoio de uma ponte nunca deveria ser feito na zona do dique, onde passa o dique. Esta situação ocorreu igualzinha, ou quase igual, na cheia de 2001, que eu estudei e publiquei. O dique rebentou neste mesmo sítio, só que foi o dique esquerdo. Deu uma enorme inundação nessa zona e agora voltou a acontecer, mas para o lado direito. Nós não aprendemos nem tomamos medidas preventivas para impedir que situações assim venham a ocorrer."

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"Esquecemo-nos de implementar" medidas

O hidrobiólogo Adriano Bordalo e Sá lembra que a situação não é inédita e aponta falhas de manutenção. Refere que relatórios técnicos anteriores identificaram problemas no mesmo local e recomendaram soluções que não foram totalmente implementadas, alertando para a ausência de uma gestão integrada dos recursos hídricos.

"Isto não foi algo inédito no Mondego. Já em 2019, em 2016, em 2001 tinha acontecido a rutura de diques. Nesta zona, exatamente onde aconteceu quarta-feira, já tinha havido problemas em 2016. A própria Ordem dos Engenheiros elaborou um relatório muito bem feito e no qual apontava não só para as causas mas também para as soluções. Entretanto, esquecemo-nos de as implementar. Tivemos mais uma cheia três anos depois e agora é esta", explicou.

Segundo o hidrobiólogo, as soluções passavam "por retirar a água que drena da autoestrada, que caía exatamente junto aos pilares sobre o dique, uma melhor gestão das descargas da barragem da Aguieira", sendo que "a principal recomendação era a manutenção que não existia".

"E aqui é quase trágico porque, ao fim e ao cabo, esta obra que se iniciou há cerca de 50 anos não foi completada. Ainda falta fazer, especialmente nos afluentes. Ora, quem é que é o responsável por isto? O Ministério da Agricultura pôs-se à parte, as coisas foram entregues, de alguma forma, ao Ministério do Ambiente, a APA faz o que pode com os meios que tem. Não há uma gestão integrada, nós não temos nenhuma agência de água, já não temos, e, acima de tudo, a região hidrográfica Centro está, como as outras regiões hidrográficas, desprovida de meios para atuar. Estamos num limbo em que ninguém sabe muito bem a quem é que pertence isto."

"Além do imaginável"

Já António Borges, presidente da Águas do Douro e Paiva, aponta a zona de transição entre o aterro do dique e a estrutura rígida do viaduto como ponto crítico. Segundo o especialista, a velocidade e a pressão da água terão provocado o deslizamento dos aterros que sustentavam a laje de transição. Ainda assim, considera tratar-se de um fenómeno associado a eventos meteorológicos excecionais e ao impacto das alterações climáticas em infraestruturas construídas há várias décadas.

"Aquilo que se percebe das imagens é que a questão existe na confluência ou no encosto entre o aterro dos diques com uma estrutura mais rígida, que é a estrutura do viaduto da autoestrada e, portanto, o que se vê nas imagens é a laje de transição, que de facto ficou sem aterro", afirma, acrescentando que "a velocidade e a quantidade de água", assim como a pressão de água - "que impele sob estruturas como esta - quer sobre estruturas mais rígidas, como os viadutos, quer sobre os diques" -, causam situações "que muitas vezes depois vão além do inimaginável".

Segundo António Borges, "não há razões para alarmismo", apesar de ser "uma situação complexa, uma situação difícil", mas é resolúvel, uma vez que "não tem a dimensão que podia parecer à primeira vista".

"Tem, sim, um impacto social e económico, que é o facto de obrigar a um corte naquela que é a principal via rodoviária do país e isso, naturalmente, impacta na opinião pública e até emocionalmente na forma como abordamos estas questões", acrescenta.

António Borges diz ainda que "há um deslizamento dos aterros por baixo da laje de transição que faz a contiguidade entre o viaduto e o dique". No entanto, a "solução é sempre delicada, sobretudo quando se trata da principal via rodoviária do país".

"Temos de confiar na engenharia portuguesa. Mas é sempre melhor procurar soluções que sejam mais estáveis e menos imponderáveis", sublinha, lembrando que se trata "de um conjunto de infraestruturas com 30 ou 40 anos e que as bases e avaliações não são as mesmas que podemos tomar como certas num momento como aquele que atravessamos".

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