“Ninguém nos quer. Ninguém nos ouve. Ninguém quer ajudar”. 38 migrantes perdidos em ilhéu durante semanas (e uma das crianças já estava morta)

17 ago, 11:04
Fotografia partilhada por Baida com a comunicação social (DR)

Grécia e Turquia trocam acusações e escusas de responsabilidade e migrantes garantem ter sido impedidos de sair por guardas

Um grupo de 38 migrantes, incluindo uma mulher grávida, e uma menina de cinco anos já sem vida, foi encontrado num ilhéu sem nome junto à fronteira turco-grega, mais concretamente no rio Evros. Não se sabe ao certo há quanto tempo lá estavam, nem como lá chegaram e ficaram presos. Após semanas isolados, os migrantes (35 sírios e três palestinianos) foram esta segunda-feira resgatados e levados para a Grécia. A mulher grávida já está no hospital por precaução, não sendo conhecido o seu estado.

A incerteza sobre a localização dos migrantes - se estavam em território turco ou grego, uma vez que o rio Evros banha os dois países - levou a que tanto a Grécia como a Turquia hesitassem no momento do resgate e trocassem acusações e responsabilidades entre si, mas, segundo a BBC, o grupo foi encontrado em Lavara, a quatro quilómetros a sul das coordenadas fora do território grego.

No entanto, conta a CNN Internacional, o ministro das Migrações da Grécia, que acusa a Turquia de empurrar os migrantes a atravessar a fronteira para a Grécia, revelou que vai tentar recuperar o corpo da criança que terá morrido após uma picada de escorpião. A menina estava com os pais - que a colocaram na água do rio para refrescar o corpo, mas sem sucesso - e a irmã que, segundo a Reuters, foi encontrada em estado crítico.

“Ninguém nos quer. Ninguém nos ouve. Ninguém quer ajudar”, lamentou Baida, uma das migrantes, citada pela BBC. Baida já tinha alertado da morte da criança a 10 de agosto, conta a Al Jazeera, mas a dificuldade em localizar o grupo impediu que as autoridades atuassem mais rapidamente. A jovem partilhou imagens do estado em que estavam algumas pessoas, mas de nada valeu para acelerar o processo de resgate.

Na semana passada, relata a Associated Press, as autoridades turcas lançaram uma operação de buscas após pressão da comunicação social, mas, passados quatro dias, ninguém foi encontrado pela agência de emergência turca AFAD ou por unidades de fronteira na área correspondente às coordenadas dadas para o ilhéu onde se encontravam os migrantes.

Do lado grego, o chefe do Conselho Grego para Refugiados, Vassilis Papadopoulos, disse que o organismo tomou conhecimento da situação dos migrantes em meados de julho. À data do primeiro alerta, cerca de 50 pessoas teriam atravessado para o lado grego, mas foram forçadas a voltar à Turquia, conta a Associated Press (AP). A Reuters corrobora esta informação e dá conta de relatos que indicam que os migrantes foram impedidos por guardas de tentar sair do ilhéu.

No entanto, são várias as críticas apontadas à Grécia, que é acusada de devolver à Turquia todos os migrantes que passam a fronteira, sobretudo através do rio Evros.

No grupo de migrantes resgatados esta segunda-feira estavam ainda 22 homens, sete crianças e mais oito mulheres. Mas esta não é a primeira vez que dezenas de pessoas ficam ao abandono em pequenos ilhéus no rio Evros. Todos os anos, conta a AP, milhares de migrantes do Médio Oriente, Ásia e África tentam atravessar ilegalmente da Turquia para a Grécia, sendo que alguns ficam retidos durante dias e outros são imediatamente levados para território turco. 

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