Regiões mais afetadas são Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo, mas há boas notícias dentro de mais mau tempo
“Rio atmosférico” é o nome dado ao processo que tem afetado Portugal nos últimos dias, mantendo todo o território sob chuva intensa e persistente. Embora muitos estranhem a continuidade deste tempo, existe uma explicação científica para o fenómeno que se segue a um autêntico comboio de tempestades que trouxe as depressões Kristin, Leonardo e Marta, que juntas provocaram a morte a 16 pessoas.
“O rio atmosférico é um processo que já se tem vindo a verificar na semana passada, pelo menos desde segunda-feira. É um processo que leva a que exista uma contínua alimentação de ar subtropical, húmido e com bastante vapor de água, a que se junta a corrente de jato, que influncia um processo de ciclogénese sob um mesmo local", começa por explicar o climatologista Mário Marques, reforçando que não se trata apenas de chuva intensa, mas de um mecanismo que prolonga o temporal e potencia os impactos das depressões sobre Portugal.
Na prática, este fenómeno traduz-se em “dias consecutivos de chuva que, normalmente, nunca duram menos de uma semana”. “Tem de durar pelo menos uma semana consecutiva, sempre a chover, continuamente. Pode haver algumas horas de transição, mas, por norma, chove todos os dias”. O climatologista acrescenta que o rio atmosférico é visível nas imagens de satélite, que mostram “claramente um contínuo fio de humidade que se estende praticamente desde as Caraíbas, passando pelos Açores, com uma quantidade significativa de nebulosidade e água associada”.
Embora Portugal esteja a ser afetado por chuva já há vários dias, o comandante Jorge Mendes acredita que esse não é o maior problema. “Eu diria que se nós não estivéssemos na situação em que estamos, este 'rio atmosférico' não seria nada de alarmante. O problema é que nós continuamos a ter zonas completamente inundadas, o solo muito saturado.”
O comandante sublinha que os efeitos do "rio atmosférico" têm-se "manifestado em movimentos de terras e destruição de infraestruturas", pelo que, avisa "precisávamos de ter aqui um período de acalmia”.
E isso é particularmente urgente para as bacias hidrográficas dos rios Tejo, Mondego ou Sado, já saturados da muita chuva que tem caído sem parar, o que levou as autoridades a emitir novos alertas para a população que vive em zonas ribeirinhas.
"Rio atmosférico" já tem data para acabar
Apesar da intensidade do "rio atmosférico" nos últimos dias, espera-se uma mudança no padrão a partir do meio da semana. Mário Marques esclarece que até quarta ou quinta-feira o fenómeno deverá manter-se, mas que depois se prevê uma acalmia.
“Até quarta, quinta-feira este tempo irá manter-se. Depois o padrão muda completamente e vamos ter uma acalmia. Podemos esperar dias de nevoeiro e humidade, mas depois teremos o fim desta passagem de depressões", afirma o climatologista. "Vamos ter uma segunda metade de fevereiro muito mais calma, soalheira”, avisa, acrescentando que “poderemos ter um outro dia de chuva, mas nada comparado com a primeira quinzena.”
Desde a semana passada, as depressões Kristin, Leonardo e Marta provocaram a morte de 16 pessoas, além de centenas de feridos e desalojados. As consequências materiais incluem destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, queda de árvores e estruturas, fecho de estradas e interrupções nos serviços essenciais.
As regiões mais afetadas são Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. Para responder a esta situação, o Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.