Portugal atingido agora por um "rio atmosférico" - que traz chuva que "tem de durar pelo menos uma semana consecutiva"

10 fev, 09:55
Cheias em Alcácer do Sal (Getty Images)

Entretanto: há "movimentos de terras e destruição de infraestruturas", o solo "está muito saturado" e o país precisa urgentemente de "um período de acalmia". Que não vem para já. Mas espere uma segunda metade de fevereiro bastante diferente do fevereiro que tivemos até agora

“Rio atmosférico” é o nome dado ao fenómeno que tem afetado Portugal nos últimos dias, mantendo todo o território sob chuva intensa e persistente. Embora muitos estranhem a continuidade deste tempo, existe uma explicação científica para o fenómeno que se segue a um autêntico comboio de tempestades que trouxe as depressões Kristin, Leonardo e Marta, que juntas provocaram a morte a 16 pessoas.

“O rio atmosférico é um processo que já se tem vindo a verificar na semana passada, pelo menos desde segunda-feira. É um processo que leva a que exista uma contínua alimentação de ar subtropical, húmido e com bastante vapor de água, a que se junta a corrente de jato, que influencia um processo de ciclogénese sob um mesmo local", começa por explicar o climatologista Mário Marques, reforçando que não se trata apenas de chuva intensa, mas de um mecanismo que prolonga o temporal e potencia os impactos das depressões sobre Portugal.

Na prática, este fenómeno traduz-se em “dias consecutivos de chuva que, normalmente, nunca duram menos de uma semana”. “Tem de durar pelo menos uma semana consecutiva, sempre a chover, continuamente. Pode haver algumas horas de transição, mas, por norma, chove todos os dias.” O climatologista acrescenta que o rio atmosférico é visível nas imagens de satélite, que mostram “claramente um contínuo fio de humidade que se estende praticamente desde as Caraíbas, passando pelos Açores, com uma quantidade significativa de nebulosidade e água associada”.

Embora Portugal esteja a ser afetado por chuva já há vários dias, o comandante Jorge Mendes acredita que esse não é o maior problema. “Eu diria que se nós não estivéssemos na situação em que estamos, este 'rio atmosférico' não seria nada de alarmante. O problema é que nós continuamos a ter zonas completamente inundadas, o solo muito saturado.”

O comandante sublinha que os efeitos do "rio atmosférico" têm-se "manifestado em movimentos de terras e destruição de infraestruturas", pelo que, avisa "precisávamos de ter aqui um período de acalmia”.

E isso é particularmente urgente para as bacias hidrográficas dos rios Tejo, Mondego ou Sado, já saturados da muita chuva que tem caído sem parar, o que levou as autoridades a emitir novos alertas para a população que vive em zonas ribeirinhas.

"Rio atmosférico" já tem data para acabar

Apesar da intensidade do "rio atmosférico" nos últimos dias, espera-se uma mudança no padrão a partir do meio da semana. Mário Marques esclarece que até quarta ou quinta-feira o fenómeno deverá manter-se mas depois vem uma acalmia.

“Até esta quarta, quinta-feira, este tempo vai manter-se. Depois o padrão muda completamente e vamos ter uma acalmia. Podemos esperar dias de nevoeiro e humidade, mas depois teremos o fim desta passagem de depressões", afirma o climatologista. "Vamos ter uma segunda metade de fevereiro muito mais calma, soalheira”, avisa, acrescentando que “poderemos ter um outro dia de chuva, mas nada comparado com a primeira quinzena.”

Desde a semana passada, as depressões Kristin, Leonardo e Marta provocaram a morte de 16 pessoas, além de centenas de feridos e desalojados. As consequências materiais incluem destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, queda de árvores e estruturas, fecho de estradas e interrupções nos serviços essenciais.

As regiões mais afetadas são Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo. Para responder a esta situação, o Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.

Há 35 mil pessoas há 13 dias sem eletricidade em Portugal devido ao temporal.

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