Um dia, este vale de 6.400 km tornar-se-á um novo mar

CNN , Tom Page
20 dez 2025, 11:00
Vale do Rift

Formada por placas tectónicas que se separam lentamente, estes vales atravessam 11 países, crescendo centímetro a centímetro, até que um dia, daqui a muitos milhões de anos, o mar começará a inundar a terra; uma lembrança austera e bela da impermanência de todas as coisas

O fotógrafo sul-africano Shem Compion lembra-se exatamente quando começou o seu amor pelo Grande Vale do Rift.

Em 2002, com vinte e poucos anos e em busca de aventura, Compion poupou o que pôde, vendeu o que não precisava e comprou um Land Rover. Junto com um amigo, fez-se à estrada e rumou para o norte. Só voltariam para casa sete meses depois.

A viagem foi a primeira vez que Compion viu o Rift — também conhecido como Sistema do Rift da África Oriental — que se estende por 6400 km, desde o Botsuana e Moçambique, no sul, até ao Djibuti e ao Mar Vermelho, no norte, e até à Jordânia. Formada por placas tectónicas que se separam lentamente, os seus vales atravessam 11 países, crescendo centímetro a centímetro, até que um dia, daqui a muitos milhões de anos, o mar começará a inundar a terra; uma lembrança austera e bela da impermanência de todas as coisas.

Na sua viagem, Compion aventurou-se até Nakuru, no Quénia, onde a terra desce e o Lago Nakuru se estende com enormes bandos de flamingos cor-de-rosa, emoldurados por montanhas ao longe. "Foi um momento bastante marcante", refletiu. "Tudo se encaixou para mim ali mesmo."

Elefantes nas savanas do Serengeti, na Tanzânia. Os mamíferos gigantes estão principalmente em busca de mudas de acácia, diz Compion, contribuindo para a paisagem aberta (Shem Compion)

Compion, que se formou em conservação e gestão da vida selvagem, opera safáris ao longo do Rift enquanto fotografa as suas paisagens, vida selvagem e povos há mais de 20 anos. O seu portfólio foi agora compilado no seu sétimo livro e primeiro livro de arte, “The Rift: Scar of Africa” (O Rift: Cicatriz de África), um grande projeto que procura capturar o seu encanto e abundância.

O livro desenvolve-se ao longo de cinco capítulos, explorando as origens geológicas do Rift, a evolução dos hominídeos, os seus habitantes humanos atuais, a biodiversidade e o impacto do Antropoceno — o período em que a atividade humana teve um impacto significativo no planeta.

Compion descreve o livro como "parte celebração, parte reunião entre ciência e conservação". Ele convidou vários especialistas para comentar as suas imagens, incluindo o vulcanólogo David Pyle e a antropóloga Veronica Waweru, além de figuras notáveis como o artista Ngwatilo Mawiyoo e Hailemariam Desalegn, ex-primeiro-ministro da Etiópia.

Dito isto, muitas das fotografias falam por si mesmas — e pelo intrépido fotógrafo.

Uma caravana de camelos conduzida por um membro da tribo Afar atravessa a paisagem do norte da Etiópia. A Depressão de Danakil está entre os locais mais áridos do mundo, mas quando Compion a visitou, choveu (Shem Compion)

Para o capítulo inicial do livro, Compion queria capturar a piscina de lava do vulcão Ol Doinyo Lengai, na Tanzânia, à noite. O seu guia, disse ele, "precisou de ser convencido" para deixá-los escalar durante o dia, sob um calor de 35 graus Celsius, para chegar lá. Então, 10 minutos depois de chegar ao cume, uma tempestade se aproximou.

"Tínhamos uma pequena tenda onde os quatro dormimos, amontoados como sardinhas", lembrou Compion. "Ficámos deitados enquanto a chuva batia na tenda a noite toda. Acordámos de manhã, a tempestade ainda continuava e descemos com o rabo entre as pernas. Naquela ocasião, não tiramos nenhuma fotografia."

O fracasso levou-o a visitar o vulcão Erta Ale, na Depressão de Danakil, na Etiópia. "Eles chamam (à área) o lugar mais seco e quente do planeta", disse. "Cheguei lá e choveu."

Os Afar, um povo nómada que vive na área, conhecido por extrair sal das salinas, conseguem suportar o calor, mas Compion disse que o aumento da humidade fez com que até os Afar desmaiasem. O fotógrafo, munido de sachês de sais de reidratação, era a coisa mais próxima de ajuda médica em quilómetros.

O povo do Rift

Trabalho detalhado em missangas usado por uma mulher Samburu no Quénia (Shem Compion)

Compion procurou muitos povos e tribos que vivem ao longo do Rift, desenvolvendo ligações com as comunidades que visitou como guia de safári ou simplesmente como fotógrafo.

O Vale do Omo, na Etiópia, está entre os locais mais diversificados, sendo o lar das tribos Bodi, Suri, Karo, Kwegu e outras.

"Nessas áreas, o turismo não é regulamentado", referiu "e, normalmente, com práticas turísticas não regulamentadas, obtém-se mau comportamento".

"Eu queria evitar isso e ir bem fundo no Omo", acrescentou Compion. "Nós vamos lá com pequenos grupos, para que possamos manter o controlo sobre o relacionamento que temos com os membros das tribos com quem vivemos. Levamos essa responsabilidade muito a sério, porque queremos uma bela troca entre todos."

Entre as pessoas que mais o marcaram estão os suri (parte do povo surma), famosos pelos seus discos labiais e pulseiras de latão.

Compion descobriu que as crianças em idade escolar estavam a ser ensinadas em amárico, a língua comum na Etiópia, em vez da sua língua nativa, e isso estava a afetar a sua educação, disse. Então, o fotógrafo juntou-se à organização sem fins lucrativos SIL Ethiopia, dedicada ao desenvolvimento linguístico, para angariar fundos para formar professores para ensinar em suri — um programa que já ajuda 500 alunos por ano.

"É um projeto pequeno no grande esquema das coisas, mas ajuda-nos a construir relações incríveis", disse Compion. "Vou estar lá três vezes em 2026... Mal posso esperar, porque essas pessoas agora são minhas amigas."

Antílopes-água numa manhã enevoada em Gorongosa. O Parque Nacional é regularmente coberto pela neblina marítima que sopra da costa de Moçambique (Shem Compion)

Ele também fez amizade com conservacionistas, incluindo o falecido Marc Stalmans, cujo incrível legado é a restauração do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, de um terreno de caça devastado durante anos de guerra civil a um próspero hotspot de biodiversidade.

Compion lembra-se de Stalmans como um cientista com um foco 'laser' quer fosse a cuidar dos seus alunos ou de todo um parque nacional. "Durante 20 anos, ele levou Gorongosa no coração. A sua paixão só era igualada pelo seu conhecimento incrivelmente detalhado de todos os assuntos relacionados com o magnífico ecossistema de Gorongosa."

No parque de 4.000 quilómetros quadrados, o número de herbívoros explodiu nos últimos anos — particularmente antílopes — criando alimento abundante para predadores, incluindo leões, cuja população se recuperou entre as florestas e pastagens de Gorongosa. Esta é apenas uma das vitórias da conservação que Compion destaca ao longo da Fenda.

O futuro do Rift

Uma girafa na relva alta do Parque Nacional de Nairobi, uma reserva cercada que faz fronteira com a capital queniana (Shem Compion)

O Vale do Rift também está a tornar-se mais urbanizado. Nairobi e Addis Ababa situam-se diretamente nas suas fronteiras e são os símbolos mais óbvios da modernização, mas, no livro de Compion, os sinais de desenvolvimento são abundantes. Alguns são imponentes, mas benignos: um parque eólico numa encosta, por exemplo. Outros, como um pescador a puxar uma rede ao entardecer, apontam de forma mais subtil para os problemas levantados pelo Antropoceno.

Compion diz que, além da desertificação, a segurança alimentar — especialmente o esgotamento dos stocks de peixes nos principais lagos — é a sua maior preocupação em relação ao Rift. No entanto, ele viu o suficiente para permanecer otimista.

“Em toda a África, há uma onda de impulso (argumentando) que o conhecimento local, a liderança indígena e as práticas regenerativas são o caminho a seguir”, explicou.

Um exemplo que ele testemunhou é uma pequena mudança agrícola perto da capital etíope, Addis Ababa. Os agricultores que cultivam em socalcos estão a manter mais árvores no local, usando os seus sistemas radiculares para prevenir a erosão do solo, aumentando as suas colheitas — uma mudança que ajuda na transição dos agricultores de subsistência para produtores de culturas comerciais, disse.

"Fazem-se grandes avanços na vida das pessoas — e no ambiente — ao usar métodos indígenas e tradicionais de trabalho", acrescentou Compion.

Agricultura de pequena escala nas terras altas da Etiópia. Compion diz que novas práticas agrícolas nas parcelas em socalcos perto da capital Addis Ababa estão a ajudar nas colheitas e a tornar a agricultura mais sustentável (Shem Compion)

A busca contínua pela harmonia entre todos os ocupantes do Rift é um tema recorrente no livro de Compion. Ele sabe o que é possível, mas também o que pode ser perdido.

"Não vejo necessariamente a vida selvagem, a paisagem e a humanidade como reinos separados, mas mais como um único sistema interligado de causa e efeito", explica. “Há uma grande reciprocidade ecológica no Vale do Rift, porque as escolhas humanas repercutem nos ecossistemas e esses ecossistemas, por sua vez, definem as possibilidades humanas.”

“África”, acrescentou ele, “tem sido uma grande professora no sentido de que, quando se investe tempo e empatia em soluções, a coexistência se torna muito sustentável.”

Apesar de o seu último livro ter sido um projeto de longo prazo, Compion sabia que seria impossível cobrir o vale na sua totalidade. Ele acredita que ainda tem muito a descobrir sobre um lugar que descreve como um belo "paradoxo": uma característica geológica que divide o continente, mas que une tantas pessoas. E ele ainda não terminou a sua exploração.

"Quanto mais curioso fores e mais investigares, mais descobrirás e mais tesouros serão desenterrados", disse.

"The Rift: Scar of Africa" foi publicado pela HPH Publishing e já está disponível.

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