Desconstruir um clássico para aprender com ele. O coletivo Silly Season está de volta aos palcos com Macbeth, o clássico de Shakespeare que mostra como o poder corrompe. Só que, nos nossos dias, com os algoritmos, o verdadeiro poder é o da visibilidade. "Estamos viciados na ideia de quem fala mais alto, de quem tem mais seguidores", diz Ricardo Teixeira à CNN Portugal
Se Macbeth vivesse hoje, diz Ricardo Teixeira, membro do coletivo Silly Season, tinha potencial para ser concorrente do Big Brother ou produtor de conteúdos. Até porque produzir é a nossa medida da ambição: “Tens de produzir, mas nunca é suficiente. Faças o que fizeres, nunca é suficiente.”
Sendo Macbeth uma narrativa sobre como pode ser atribulado chegar ao poder, a peça procura ser um retrato, não um espelho, desta “era de produção desenfreada de conteúdos”, onde os políticos estão entre os que mais se aproveitam desta lógica. “Porque estamos todos viciados em ficções.”
Um convite para pensar, porque com Silly Season “o teatro nunca é um lugar confortável”. De 21 a 25 de julho no Capitólio, em Lisboa.
CNN Portugal: Se Macbeth fosse escrito hoje, dada a sua sede de poder e visibilidade, em vez de matar um rei candidatava-se ao Big Brother?
Completamente. Seria um corrente bastante polémico, mas ao mesmo tempo bastante adorado. Macbeth é muito sobre esta ideia de poder, de visibilidade - e nem é preciso ir tão longe, para a ideia de reality show. Hoje, nós próprios criamos o nosso reality show com o nosso smartphone. Criamos uma máscara social, decidimos como nos queremos expor ao outro, como é que nos queremos vender. Estamos viciados na ideia de quem fala mais, mais alto, de quem tem mais seguidores.
Esta obra é um clássico quando se fala em ambição desmedida e corrupção associada ao poder. A obra, diria, está mais atual do que nunca. Então qual é o verdadeiro desafio de adaptá-la para os nossos dias?
Não queremos, ao transpor uma obra clássica para os nossos dias, cair num espelho literal da sociedade. Isso não nos interessa. Interessa-nos potenciar essa realidade como se fosse um elástico, que puxamos e puxamos, para ver até onde é que ele consegue ir. Isso também tem a ver com a forma como nos posicionamos perante coisas que há uns anos pareciam impensáveis - como direitos mínimos que estavam salvaguardados e que agora percebemos que são tão frágeis. É uma democracia tão frágil que, ao mínimo abalo, ao mínimo sinal de populismo, é muito fácil regredirmos, voltarmos atrás e ter de começar tudo de novo.
E se Shakespeare se sentasse na plateia do vosso espetáculo, o que o chocaria mais: as alterações que os Silly Season fizeram à obra ou a sociedade em si?
Shakespeare era visto como alguém muito generoso, muito humilde, provavelmente ia estar a borrifar-se para o facto de um grupo como o nosso estar a destruir a obra dele. Ou então, se calhar, seria um tirano e não ia ter esta sensibilidade em relação ao que as novas gerações têm a dizer sobre os conceitos da obra. Uma coisa é certa: se estivesse sentado na plateia, ia ter uma intervenção. O espectador sabe que, connosco, o teatro – plateia incluída - nunca é um lugar confortável. Não íamos perder a oportunidade o espicaçar um bocadinho.
Macbeth é sobre um homem que se torna rei. Neste mundo de ecrãs e redes sociais, os 'likes' são as novas coroas?
São coroas de gelo, que vão derretendo. Esta sede, esta ânsia de constante visibilidade, de querer aparecer, é completamente desesperante e agonizante. E eu também a sinto.
E a ambição? Alguém que não mostre ser ambicioso é automaticamente um falhado?
Não sei se será automaticamente um falhado, mas a mim, pelo menos, sempre me foi incutido que a ambição era uma coisa boa. Havia a ideia de que ambição te faz chegar mais longe, te permite alcançar os teus objetivos. O que sinto hoje é que há aqui um sistema, enraizado também nas políticas de trabalho: ambicioso é sinónimo de produtivo. Tens de produzir, mas nunca é suficiente. Faças o que fizeres, nunca é suficiente. Isto leva a um desgaste.
E nesse sistema só é possível ser-se bem-sucedido se estivermos a ser vistos por alguém?
Sim. Embora eu não acredite nisso, tudo o que fazemos tem de ter uma prova, tem de ser visto, validado. É um circuito altamente destrutivo e cansativo, porque estamos sempre à espera de validação. Se fizeres algo e não tiveres uma câmara ligada, muito dificilmente vais ter essa validação. Já não nos interessa o exercício introspetivo de nos validarmos a nós próprios. Estamos num sítio que é [pensado] para o outro, num exercício em que nos tornamos servos do outro que nos valida, que nos diz, por exemplo, se uma fotografia que publicámos é digna de partilha ou comentário.
Macbeth mata pelo acesso ao poder. Acredita que chegaremos a um ponto em que vamos matar por 'likes', seguidores, influência?
De alguma forma, já estamos a viver essa morte de uma forma metafórica. Não quero ser moralista, mas o imperativo de estarmos sempre online dá-nos uma ideia de que fazemos parte da vida do outro, e vice-versa. Noutro dia cruzei-me, na rua, com uma pessoa que costuma aparecer no meu feed e com quem troco mensagens. Fiquei altamente envergonhado, não sei explicar. Há uma vida online que estamos a viver, que criamos, onde nos mostramos confiantes, empoderados, donos de nós próprios. E depois há o encontro ao vivo - e é como se já não soubéssemos lidar com o outro. Isso, para mim, não deixa de ser uma morte simbólica, uma morte da comunicação real, com o olhar.
E, se antes falávamos de 15 minutos de fama, agora temos uma vida inteira em direto.
Esta ideia dos 15 minutos de fama foi um pequeno vício que nos criaram, porque os 15 minutos agora já não chegam. Queres sempre mais visibilidade, mais aparato. E é um círculo vicioso em que estamos todos: se não publicarmos, se os outros não viram, é como se não tivesse sido uma experiência que aconteceu - e boa. Por exemplo, já não conseguimos ir de férias sem mostrar, quando supostamente a ideia das férias era tu conseguires desligar-te. É como se tivéssemos de provar aquela ficção, aquele sonho, aquele destino paradisíaco.
E o espetáculo também adota esse mecanismo, transformando o espetador num 'voyeur' e fazendo-o perceber que é parte do problema?
Enquanto seres democráticos, acreditamos que todos somos parte integrante de um problema. E também podemos ser parte integrante de uma solução. É isso que tentamos convocar neste espetáculo. O espectador também é Macbeth. Ao negligenciar certos acontecimentos, que asfixiam e oprimem minorias, se o espectador não se posiciona, está a ser Macbeth: está a deixar que matem, nem que seja simbolicamente, outras narrativas.
E como é que o espetáculo faz a ligação com o atual panorama político?
Tentamos, como referi, não fazer um retrato figurativo da realidade. No espetáculo, somos vários Macbeth e todos temos poder. De repente, estamos numa corrida desenfreada para ver quem tem mais poder. Seria mais fácil se todos governássemos e conseguíssemos coexistir com isso. Mas o que acontece é que o sistema está montado de tal forma que é muito difícil alguém conseguir fazer diferente.
Macbeth torna-se rei, o líder político máximo no regime monárquico. E nos nossos dias, os políticos têm de governar ou de produzir conteúdos para serem bem-sucedidos?
Será que hoje se conseguiria governar sem produzir conteúdos? O poder é uma ficção, o dinheiro é uma ficção, governar é uma ficção. E as ficções têm de ser mostradas, projetadas. Quanto mais ficcionares e mostrares ao outro que votou em ti (e mesmo ao que não votou), mais credibilidade vais ter. Estamos na era da produção desenfreada de conteúdos e muitos políticos, claro, aproveitam-se disso, porque estamos todos viciados em ficções. Se tens um político que se põe ao teu lado, que diz que usa os mesmos meios, as mesmas redes, as mesmas aplicações, então é um par. Está a criar identificação. E isso é mais um veículo de manipulação.
Há sempre conteúdo novo, a grande velocidade. Isso também é meio caminho para esquecermos rapidamente os escândalos que, outrora, seriam motivo para uma vergonha prolongada?
Completamente. Na peça dizemos que, se queres que esqueçam um crime que fizeste, comete outro pior. Se fizeste algo mau, faz algo muito pior a seguir, porque vai anular o feito anterior. É tudo uma questão de lançar informação. Esta informação acelerada, de alguma forma, também cria aqui uma alienação. O poder político percebeu que, nesta ideia de informação desenfreada, consegue criar uma certa alienação. Sem essa ideia de comunidade, os políticos sabem que conseguem governar mais e durante mais tempo.
Esta peça está em cena no Capitólio de 21 a 25 de julho, num período de verão, onde o público já não está tão acostumado a ir ao teatro. Que convite gostaria de deixar a quem nos lê?
Com este espetáculo, os Silly Season estão a aprimorar uma linguagem que temos vindo a testar, que é da relação do teatro com o vídeo, da ideia da imagem multiplicada. É algo que se está a enraizar no teatro, não há como fugir. Venham, que a sala vai estar a uma temperatura agradável. Se preferirem o conforto, de ficarem sentados a contemplar uma coisa, podem ficar em casa no sofá, que está tudo bem. Se quiserem ser questionados e ir para casa a fazer mais perguntas, então venham ter connosco.
