Cartas, denúncias e um plano secreto. A guerra entre dois milionários que fez cair o Grupo Espírito Santo

16 out 2024, 07:00
Ricardo Salgado e Pedro Queiroz Pereira
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Pertenciam a duas das famílias mais ricas do país e que eram parceiras há 80 anos. Mas tudo foi posto em causa por um plano de Ricardo Salgado para alegadamente tentar apropriar-se da Semapa, a empresa mais valiosa dos Queiroz Pereira. A consequência disso impulsionou a derrocada do BES

A sociedade chamava-se Mediterranean Strategical Investments, estava registada no Luxemburgo, e Pedro Queiroz Pereira não sabia muito sobre ela. Não sabia quem a controlava, tal como não sabia as razões por detrás do investimento que estava a fazer em duas das empresas da sua família. Desde 2003, sempre que tocava nesse assunto com Ricardo Salgado recebia a mesma resposta. “São discretos”, “são investidores que não querem ser conhecidos”, são “ingleses e noruegueses”.

Esse investimento na Sodim e na Cimigest, sociedades que controlavam a Semapa, do universo Queiroz Pereira, foi sendo cultivado por mais de uma década. Até que em junho de 2012, o industrial, na véspera da assembleia-geral de uma dessas empresas, deu um murro na mesa e anunciou que recusava que aquela sociedade misteriosa tivesse alguém nos órgãos de gestão. A decisão precipitou uma outra: o Grupo Espírito Santo anunciou que ia adquirir a Mediterranean. Para Pedro Queiroz Pereira, como contou numa entrevista ao Público nessa altura, esse anúncio traduziu uma verdade concreta: era “um plano” secreto para dominar a Semapa, a maior empresa do grupo.

E o plano teria como eixo as irmãs de Queiroz Pereira, a quem Salgado comprou as posições, e que se encontravam em litígio com o empresário por alegarem que este queria concentrar todo o poder em si próprio. “Esse comportamento, para além do prejuízo que me causa, vai frontalmente contra o maior legado que o meu pai (Manuel Queiroz Pereira) nos deixou”, disse Maude Queiroz Pereira ao Expresso em agosto de 2013.

Estalou aí uma guerra entre dois titãs que desfez laços familiares e lançou uma onda de choque tão devastadora que levou à queda total de Ricardo Salgado e à derrocada do BES. O impacto de Queiroz Pereira nesta equação é tão grande que o próprio tribunal pediu que o seu testemunho, dado em 2018 antes de morrer, fosse preservado e mostrado na próxima sexta-feira, durante a quarta sessão de julgamento do caso onde o ex-banqueiro é acusado de mais de 60 crimes.

Quando Queiroz Pereira deu "o corpo ao conflito"

Pedro Queiroz Pereira morreu a 20 de agosto de 2018, em Ibiza 

Salgado, por seu lado, sempre negou querer apoderar-se do grupo Semapa, mas é certo que, na acusação do Ministério Público, essa pretensão é revelada, mostrando como o ex-líder do BES tentou sorrateiramente assumir o controlo parcial do império Queiroz Pereira para fazer face aos problemas de liquidez que o GES se deparava em 2013. E tudo isso acaba por desembocar numa assembleia-geral da Espírito Santo Control (ESC), a empresa que dominava o universo GES e da qual Queiroz Pereira detinha 7% do capital social.

Em junho de 2013, quando os administradores da ESC se reuniram para aprovar contas, Pedro Queiroz Pereira recusou-se a fazê-lo. Disse nessa reunião, onde estavam Salgado, o primo Manuel Fernando e o contabilista Francisco Machado da Cruz, que não só não tinha sido convocado para as quatro reuniões anuais anteriores, como não percebia a razão pela qual ninguém lhe sabia responder sobre o porquê de as contas anuais da ESC não estarem depositadas no registo comercial do Luxemburgo.

Assim, opôs-se à aprovação das contas da ESC desse ano, levando à suspensão da assembleia-geral e ao marco de uma fase estruturante para o destino do BES. "Pedro Queiroz Pereira dava, por essa via, corpo a um conflito que deliberadamente conduziu contra Ricardo Salgado, destinado a impedir que entidades do Grupo Queiroz Pereira pudessem vir a contar com posições concertadas do GES”, segundo o MP. Foi um dos primeiros golpes após saber do plano de Salgado para tentar controlar a Semapa. 

Este conflito, acrescenta o Ministério Público, “colocou em evidência a prática ilegal do GES em relação às holdings de topo domiciliadas no Luxemburgo que, diferentemente do que era imposto pelo normativo desse país, e normas comunitárias, não apresentavam demonstrações financeiras consolidadas, sujeitas à revisão por auditor externo”. 

A equipa de 16 advogados e as contas que não batiam certo

E havia alegadamente uma razão para essas contas não serem apresentadas. Ao mesmo tempo, Queiroz Pereira contratou uma equipa de 16 advogados para investigar o que na altura ninguém ainda sabia: que as contas do Grupo Espírito Santo estariam a ser manipuladas com “números mágicos” - adjetivação do MP -, especialmente no que tocava à valorização dos seus ativos. 

Em Lisboa, numa nova reunião da cúpula do BES, no dia 14 de junho de 2013, Queiroz Pereira voltou a recusar-se a validar as contas da ESC, mas desta vez veio munido de informação e de muitas questões: Entre elas, qual era o critério que permitia contabilizar os ativos do grupo em 351 milhões de euros? Porque é que as contas diziam que as ações da Espírito Santo Financial Group estavam avaliadas em 22,53€, quando as mesmas estavam cotadas em bolsa a 5,28€? 

O contabilista terá respondido apenas que “a lei luxemburguesa não lhe impunha que se realizasse um controlo efetivo das contas”. O pouco esclarecimento que obteve levou Queiroz Pereira a avançar, cerca de um mês depois, com uma ação contra o Grupo Espírito Santo por suspeitar que as contas não estavam a bater certo, especialmente as da Espírito Santo International - a holding que mais tarde foi revelado ter contas adulteradas em quase 2,5 mil milhões de euros. 

Ricardo Salgado no primeiro dia de julgamento do caso BES/ LUSA

Na ação que moveu contra o Grupo Espírito Santo no Luxemburgo, apresentou também um parecer de uma sociedade de revisores oficiais de contas portuguesa. Esse parecer indicava que as ações da Espírito Santo Financial Group deveriam ter sido contabilizadas com base na cotação de mercado. E que o não cumprimento dessa norma levava à conclusão de que tanto a Espírito Santo International, como a Espírito Santo Control teriam capitais próprios negativos, revelando uma situação financeira mais frágil do que o reportado.

Ricardo Salgado, por seu lado, chamou a si Francisco Cary, na altura membro da Comissão Executiva do BESI, para assessorar o relacionamento entre os dois e encontrar uma solução que desfizesse as posições cruzadas em que se encontravam. Ao mesmo tempo, em e-mails obtidos durante a investigação das autoridades às contas do BES, constava uma troca de informação entre uma funcionária que disse ter conseguido justificar o valor de 21€ por ação através da avaliação da seguradora Tranquilidade (que pertencia ao banco) em 838 milhões de euros. E-mail esse enviado a seguir de um outro em que a mesma funcionária apontava que, “mesmo assim”, para atingir o valor pretendido, “ainda teve que aumentar um pouco o valor do BES”.

Salgado e Queiroz Pereira voltariam a reunir-se mais uma vez em novembro de 2013. O industrial apresentou ao banqueiro as suas conclusões e o banqueiro apresentou ao industrial um documento elaborado pela E&Y Portugal que, na ótica, do grupo continha um “argumentário que sustentava a contabilização do valor das ações”.

Foi a gota de água entre Queiroz Pereira e Ricardo Salgado. O industrial, não concordando com elas, acabou por retificar as contas e a 29 de novembro apresentou a sua demissão do Conselho de Administração da ESC. A cisão marcou um fim da ligação de 80 anos das duas famílias que foram parceiras em vários negócios, incluindo a criação do Hotel Ritz, em Lisboa - a mando de Salazar.

No final desse ano, Queiroz Pereira enviou uma carta ao Banco de Portugal a denunciar todas as situações que tinha descoberto: que existia sonegação de contas na empresa de topo do GES e que a possibilidade da Espírito Santo Internacional estar falida poderia ter consequências “devastadoras”, “até mesmo pelo peso que o GES tem na economia portuguesa.

A troca de acusações sobre as irmãs

A rutura entre dois dos representantes de duas das famílias mais ricas de sempre e a denúncia entregue no final de 2013 acabou por espoletar a investigação do Banco de Portugal que, irremediavelmente, levou à destruição do BES. Na orquestra de acontecimentos, Queiroz Pereira contou também com uma série de outros intervenientes que foram responsáveis pela queda do ex-Dono Disto Tudo - José Maria Ricciardi, que atacou o primo incessantemente; Fernando Ulrich do BPI que fez pressão ao ex-ministro das Finanças Vítor Gaspar para agir; e até Passos Coelho que rejeitou o último pedido de amnistia a Salgado. 

Mas foi Queiroz Pereira o primeiro violino nesta composição de acontecimentos. Já mais tarde, tanto Salgado como o empresário viriam novamente a trocar acusações, mas desta vez de uma forma muito mais pública, durante o inquérito parlamentar ao banco em 2015. 

Durante a ocasião, Salgado sublinhou que, em 2001, o Grupo Espírito Santo adquiriu as ações de Margarida Queiroz Pereira na Sodim e Cimigest com o objetivo de ajudá-la. E que, mais tarde, em 2013, planeava fazer o mesmo com Maude Queiroz Pereira, já que ela também demonstrava interesse em vender as suas participações. “As irmãs de Ricardo Salgado ficam a fazer bolos para vender em restaurantes e [ele] nunca as defendeu”, o que “demonstra bem a hipocrisia”, respondeu então Queiroz Pereira.

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