Hoje é aquele dia entalado entre o confirmado novo Papa e o provável novo campeão de futebol. Entre duas coroações, o seu coração tem espaço para política? Se sim, não faça greve e leia por aqui abaixo
QUEM TEM BOCA VAI A FÁTIMA. Os diretos das televisões e das redes sociais são o novo barroco. Se no Séc. XVI foi através da exuberância e intensidade emocional do barroco que a Igreja Católica quis travar a perda de fiéis para o Protestantismo, a eleição do novo Papa transformou-se num espetáculo global, longo, multivisionado e multipartilhado, que move e comove muitos milhões. Nada contra. A não ser contra quem se aproveita para fazer o seu negócio: os vendilhões do templo, como conta a Bíblia; ou os alojamentos locais de Roma que aumentam meteoricamente os preços nesta altura, por exemplo; ou os políticos candidatos a uma eleição qualquer, quem sabe em Portugal. Ter Deus como apoiante é do domínio do imbatível.
Mas em quem vota Deus?
“Eu acredito que Deus me colocou neste lugar neste momento”, André Ventura, maio de 2021
“Fui salvo por Deus para fazer a América grande outra vez” Donald Trump, Janeiro de 2025
“Eh lá, viemos a Fátima e há fumo branco (…) Parece de propósito mas é premonitório. Esta coincidência, enfim... dirá qualquer coisa. Não sei o que é. Mas a fé também tem este lado misterioso.” Luís Montenegro, maio de 2025
E, dito isto, Luís Montenegro arrancou para Santarém que já se fazia tarde. Três porcos a rodar no espeto depois, que se iam acamando às fatias em sandes embrulhadas em guardanapos, o líder da AD atirou-se aos grevistas da CP e aos grevistas da memória.
PELA BOCA MORRE O PEIXE. Mas agora, responda por favor a esta pergunta:
O cenário é bem diferente, mas por vontade do poder vigente, as greves faziam-se simbolicamente, sem incomodar muita gente, enfim, uma greve que fosse como uma frase que André Ventura usou muito nas eleições do ano passado mas este ano trocou por outras frases-feitas: uma greve melhoral, não faz bem nem faz mal.
A memória e o Google traíram Pedro Nuno Santos, que já ia lançado para aproveitar o maior erro de Luís Montenegro até agora nesta campanha: o de criticar o direito à greve admitindo indiretamente uma mudança constitucional.
A não ser que não tenha sido um erro, antes eleitoralismo para beneficiar da simpatia dos que sentem antipatia pelos trabalhadores da CP por causa do transtorno das greves. Com o país a virar à direita, é carregar nas privatizações. E na alteração da Constiruição.
RESPONDA VOCÊ MESMO. Por nenhuma boca passou até hoje querer acabar com as greves. Mas já passou o acabar com as greves… em períodos eleitorais. Ora responda lá:
A questão é relevante. Não é a primeira vez que governantes criticam greves, tentando sobretudo puxar a opinião pública para o seu lado – será mais difícil a sindicatos manterem greves quando a opinião pública não entende as suas razões ou, entendendo-as, reconhece falta de proporcionalidade entre as causas defendidas e o impacto causado pela greve.
Mas há outra questão ainda mais importante nesta campanha, e que já aqui foi notada pelo Filipe Santos Costa: a alteração à Constituição da República.
QUEM QUER MUDAR A CONSTITUIÇÃO? Sim, é mais uma pergunta.
Montenegro admitiu agora mudar a Constituição por causa da greve. André Ventura já defendeu várias vezes mudar a Constituição para reduzir o número de deputados, rever a sua imunidade e retirar a palavra “fascismo” do preâmbulo. Rui Rocha quer apagar a palavra expressão “socialismo”.
Por acaso, nem "fascismo" nem "socialismo" estão assim escritos na constituição. A palavra "fascista", essa sim, aparece três vezes: no preâmbulo por enquadramento histórico de que o 25 de abril "derrubou o regime fascista"; no Artigo 46.º para dizer que "não são consentidas (...) organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista", que já foi usado para tentar ilegalizar o Chega, o que o Tribunal Constitucional não consentiu; e no Artigo 160.º, para dizer que podem perder o mandato deputados que sejam judicialmente condenados "por participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista", o que também nunca aconteceu.
Já a palavra que a expressão IL que tirar da Constituição é o anacronismo do preâmbulo que prevê "abrir caminho para uma sociedade socialista"
A Constituição é de 1976, foi alterada sete vezes, a última das quais há 20 anos. As alterações foram, no início, sobretudo para reduzir a carga ideológica e permitir maior liberdade económica (como as reprivatizações), depois para conciliar tratados europeus e instituições internacionais, e a última para reforçar os poderes das Regiões Autónomas.
Em 2010, uma equipa liderada por Paulo Teixeira Pinto preparou, para Pedro Passos Coelho, uma reforma da Constituição que chegou a dar entrada na Assembleia mas acabou na gaveta. A proposta tinha dois pontos muito polémicos: um, que trocava a expressão “tendencialmente gratuito” no acesso à saúde e educação por “nenhum português pode deixar de ter acesso à Saúde e à Educação por insuficiência de meios económicos”; e outro, por trocar a proibição de despedimento “sem justa causa” por “sem razão legalmente atendível”.
Foi tanto o burburinho que o PSD enterrou a proposta na praia antes de sair para o mar da campanha eleitoral de 2011, que venceu.
Agora, Luís Montenegro já tocou na possibilidade de reformar a Segurança Social, alterando o seu modelo de financiamento, o que pode implicar uma revisão constitucional. Mas disse também que não o fará na próxima legislatura nem sem explicitar uma proposta para tal numa campanha eleitoral.
Tendo em conta que há sondagens que admitem que a direita tenha mais de dois terços dos deputados, o que possibilita uma revisão da Constituição, proponho que Luís Montenegro responda à seguinte pergunta:
Se alguém lhe puder fazer esta perguntinha, ficamos agradecidos. E mais informados.