António José Seguro sai da primeira volta como vencedor e como favorito para ganhar a segunda, depois de ter vencido 18 dos 20 círculos eleitorais. Mas antes de ser bem-amado por 31% dos votos foi mal-amado por parte do próprio partido
Começou quase como um nome lançado aleatoriamente para o ar ainda em 2024, mas agora avança como o nome mais provável para ser o próximo Presidente da República, de acordo com as sondagens que traçaram cenários de segunda volta e que davam António José Seguro a vencer todos os confrontos, especialmente contra André Ventura.
Por outro lado: António José Seguro acaba de conseguir a maior vitória da esquerda desde que o PS ficou sem… António Costa.
A demissão de António Costa, o homem que derrubou Seguro da cena política em 2014, acabou por se tornar o catalisador, ainda que com muitas entrelinhas, para a vitória de António José Seguro em 225 dos 308 concelhos de Portugal na primeira volta destas presidenciais - ou 18 dos 20 círculos eleitorais.
Fechadas as contas nacionais, foram 31,21% dos votos. É a pior vitória numa primeira volta presidencial, sim, mas também é o melhor resultado que alguém ligado ao PS pode apresentar desde 2022 - salvo uma exceção -, quando os portugueses deram maioria absoluta a António Costa.
Como Seguro chegou aqui
Não será ensejo inglês, mas o mapa é novamente cor de rosa em Portugal. Dizer isso em presidenciais não era possível desde 2001, quando Jorge Sampaio foi reeleito à primeira volta, antes de sair para 20 anos de Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa.
Mas como chegámos aqui? O Comparómetro da CNN Portugal - que vai voltar na segunda volta em formato ainda mais evoluído - ajuda a perceber tudo: o segredo esteve onde Marcelo Rebelo de Sousa ganhou, onde a Aliança Democrática (AD) de Luís Montenegro ganhou e até onde o Chega de André Ventura ganhou. Se tomarmos por comparação as últimas legislativas, muitos desses terrenos viraram este domingo para o lado socialista.
É caso assente em todo o lado, tirando três casos com razões diferentes: Évora é socialista e já o era antes; Faro era do Chega e aí venceu André Ventura; Madeira era da AD e lá ganhou André Ventura.
Contas feitas, o candidato apoiado pelo PS, partido que em maio último tinha vencido apenas um dos 20 círculos eleitorais nacionais, conseguiu ganhar em 18 desses mesmo círculos, perdendo apenas para André Ventura em Faro e na Madeira.
Apesar de ser o pior vencedor de sempre da primeira volta, António José Seguro também consegue o melhor resultado de um socialista desde Jorge Sampaio. Entre os dois estão candidaturas apoiadas pelo PS totalmente falhadas, como a de Mário Soares em 2006 e a de Manuel Alegre em 2011. De lá para cá, com António Costa ao leme, decidiu não se apoiar ninguém, até porque a convivência com Marcelo Rebelo de Sousa sempre foi proveitosa.
Quem "lixou a vida ao PS"?
Da maioria absoluta de António Costa para cá, e depois da queda dessa mesma maioria e da entrada de Pedro Nuno Santos em cena, foi sempre a somar derrotas, com a exceção de uma vitória tangencial. Logo nas legislativas de 2024 houve uma descida do PS para 28,66%, que um ano e um mês depois se transformaram em 23,38%, o pior resultado de sempre do PS em eleições para o Parlamento e que ditou a ultrapassagem do Chega e o fim do bipartidarismo.
Salvou-se a candidatura de Marta Temido às eleições europeias, que em 2024 conseguiu 32,08% e uma vitória no limite sobre a candidatura social-democrata liderada por Sebastião Bugalho.
Há poucos meses, as autárquicas confirmaram um país mais virado para o laranja, com o PS a não ir além dos 28,55% nacionais, perdendo as cinco câmaras mais importantes do país para o PSD.
Miguel Sousa Tavares tinha prenunciado logo no dia 18 de maio de 2025, na TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), que Pedro Nuno Santos tinha cometido um erro ao fazer cair o governo: "Por 30 dias de CPI, Pedro Nuno Santos lixou a vida ao PS por quatro anos".
António José Seguro veio pôr um travão a isso. E Pedro Nuno Santos teve renitentemente uma mão nisso.
Como Ventura chegou aqui
No Comparómetro da CNN Portugal encontramos respostas diferentes: André Ventura chegou aqui a vencer onde já tinha vencido, como Faro, mas também a conquistar terreno novo, como é o caso da Madeira, histórico bastião do PSD.
Apesar de ter perdido, em relação às legislativas, os distritos de Portalegre, Setúbal e Beja, o candidato apoiado pelo Chega alcança uma vitória superior em percentagem - 23,52% contra 22,76% -, ainda que ficando mais de 100 mil votos atrás.
É o paradigma de Faro, por exemplo, onde André Ventura venceu mas não sem perder cerca de oito mil votos face aos resultados que o partido que lidera conseguiu naquele distrito em maio.
Se a comparação for feita em relação às presidenciais de 2021, em que André Ventura já era candidato, a subida é esmagadora: quase um milhão de votos a mais e uma percentagem que não tem nada que ver, já que há cinco anos foram apenas 11,9%, o que nem chegou para ficar à frente de Ana Gomes.
Havia um "bom candidato", depois havia Seguro
Os resultados das autárquicas e as sondagens que foram aparecendo, além da própria força dos nomes, iam dando a entender isso mesmo para as presidenciais. Luís Marques Mendes era um nome experimentado e que há muito se preparava para isto, enquanto o PS se dividia entre os vários nomes que podiam aparecer - Mário Centeno, António Vitorino, Ana Gomes?
O melhor deles? Mário Centeno, um “bom candidato” a Presidente da República, disse Pedro Nuno Santos em entrevista à CNN Portugal no início do mês de outubro de 2024. Nessa mesma entrevista, ainda que sem muita convicção, o nome de António José Seguro também foi atirado para cima da mesa.
Também era um bom nome, defendia o então secretário-geral do PS, longe de imaginar que estaria ali a lançar o candidato que, a aparente contragosto de pelo menos parte do partido - as declarações de Augusto Santos Silva que o mostrem -, os socialistas acabaram por ter de apoiar.
Como Cotrim chegou aqui
Não há como não pensar que resultados podia ter a Iniciativa Liberal se ainda fosse liderada por João Cotrim de Figueiredo. O primeiro deputado que o partido conseguiu colocar no Parlamento, ainda em 2019, continua a ser uma espécie de D. Sebastião liberal.
Em 2022 conseguiu fazer saltar a votação para 4,91%, alcançando os oito deputados que a Iniciativa Liberal repetiu em 2024, menos um que os nove conseguidos agora em 2025, resultado dos 5,36% obtidos nas legislativas.
Não é mau, mas é francamente abaixo dos 16,01% obtidos por João Cotrim de Figueiredo este domingo, numa demonstração de que o candidato pode ser maior que o seu partido. Aritmeticamente isso é indiscutível: vale mais de 10 pontos percentuais que o partido e mereceu a confiança de quase três vezes mais que os eleitores da Iniciativa Liberal em maio.
Um resultado que é ainda mais curioso por outro facto: João Cotrim de Figueiredo chegou aqui sem vencer qualquer concelho - até Luís Marques Mendes o conseguiu fazer -, mas obtendo grandes resultados nos locais mais populosos do país.
Com apenas 9,55% em Beja - o pior resultado nos 20 círculos -, conseguiu 19,30% e 17,50% no Porto e em Lisboa, respetivamente, ficando mesmo em segundo lugar nos concelhos que são capital de distrito, vencendo até em freguesias como Belém ou Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.
Uma estratégia alterada
“Muito sensibilizado” com o que disse Pedro Nuno Santos, António José Seguro confirmou que estava a “ponderar” essa mesma candidatura, mesmo sabendo que o candidato da direção socialista era outro. “A direção do PS tem um candidato, António Vitorino”, admitiu no espaço Liberdade, que durante meses manteve na CNN Portugal.
“Há uma alteração de estratégia”, sugeria António José Seguro, referindo que o PS costumava esperar para ver que candidatos se alinhavam e só depois decidir.
Só que um não quis, outro não esteve para isso e lá foram saltando nomes até ficar o último do pote. O PS, já com José Luís Carneiro, lá teve de apoiar o mal-amado António José Seguro, que conseguiu convencer pelas “provas dadas no serviço aos valores democráticos”.
Gouveia e Melo perdeu contra... Gouveia e Melo
Vários candidatos foram apontados, cada um no seu tempo, como prováveis vencedores destas eleições. Se não isso, pelo menos presenças óbvias na segunda volta.
Primeiro foi Henrique Gouveia e Melo, que, saído da popularidade que o seu trabalho a coordenar a vacinação da covid-19 lhe deu, ganhou um balão eleitoral que o colocou durante meses como favorito a ser o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém.
Depois chegaram os debates e as sondagens foram dando uma queda mais e mais acentuada. Na tracking poll da CNN Portugal isso foi-se vendo, com o almirante a cair de semana para semana.
Sem comparação possível com resultados eleitorais passados, Henrique Gouveia e Melo acaba por só se poder comparar consigo mesmo. E perde, já que em outubro de 2025, numa sondagem feita para a CNN Portugal, estava a bater nos 30%.
No fim dia acaba com cerca de um terço dos votos. São 12,32% e cerca de 700 mil votos. Bom resultado para um quarto lugar, mau para quem todos chegaram a achar que seria primeiro de caras.
Houve alguém que sempre soube
Se formos ao Instagram de Pedro Nuno Santos, a primeira imagem que vamos encontrar é de António José Seguro. Não é festejo, mas antes um apoio. Chegou tarde? Talvez, já que foi o próprio que, ainda como secretário-geral do PS, atirou o nome para cima da mesa.
Só que a menos de uma semana das eleições, Pedro Nuno Santos quis dedicar um longo texto a esclarecer que apoiava mesmo o socialista. "Sempre defendi que o PS devia apoiar um candidato nas eleições presidenciais. Em eleições passadas não o fizemos e isso só beneficiou os candidatos da direita. Fico, por isso, contente pelo facto do PS apoiar oficialmente um candidato", pode ler-se.
E fica ainda mais contente, escreve ainda Pedro Nuno Santos, que esse candidato seja António José Seguro.
Fecho de ciclo e, para surpresas de todos, ou talvez de nenhuns, o homem que ninguém queria apoiar saiu apoiado por todos, mesmo sem precisar deles, até porque teve sempre a intenção de manter uma distância mínima para o PS - há aquela entrevista ao Público -, acaba por sair vencedor acima de tudo, mesmo de Augusto Santos Silva, que acabou por decidir que era este o candidato mais qualificado.
Marques Mendes contra o vento
Corriam os ventos do PSD a favor e, talvez até por isso, o homem que mais se preparou para estas eleições, com anos a trabalhar para isto mesmo, sai como o grande derrotado da noite.
O primeiro-ministro não o quis deixar cair, mas a derrota de Luís Marques Mendes é em toda a linha, sobretudo comparando com os resultados de... Luís Montenegro.
Até seria injusto fazer essa comparação com Marcelo Rebelo de Sousa, que neste ponto está noutro campeonato, mas almejar parecido com o que o seu partido vai obtendo era um desígnio natural.
Só que os 11,3% - a rios de distância dos 31,21% obtidos pela AD nas últimas legislativas - de Luís Marques Mendes não sequer parecidos com nada que o PSD tenha feito na sua história. É o pior resultado de sempre de qualquer eleição social-democrata, seja ela presidencial, legislativa ou autárquica.
Ainda venceu em Boticas e Sernancelhe, onde o PSD vence sempre, e também na sua casa, Fafe, mas três concelhos em 308 é manifestamente pouco para o candidato apoiado por um partido que venceu em 136 municípios em maio.
Nota ainda para os outros derrotados da noite. Ou derrotado. Ou derrotada, até. É a esquerda à esquerda do PS, que tem o pior resultado de sempre. Catarina Martins e António Filipe ficaram a léguas do que outros candidatos apoiados por Bloco de Esquerda e CDU já tiveram, enquanto Jorge Pinto, apoiado pelo Livre, não conseguiu sequer ficar à frente de Manuel João Vieira.
Sem medo, com esperança
Último a falar na noite eleitoral, como mandam as regras, Seguro tem pela frente André Ventura, que já pediu uma união de todas as fragmentações da direita para, como Mário Soares fez à esquerda em 1986, poder derrotar o seu adversário.
Seguro reagiu a isso nas Caldas da Rainha, onde fez o discurso de vitória da primeira volta: "Este é o momento de derrotarmos o medo e erguermos a esperança. A nossa vitória do dia 8 de fevereiro será a vitória de Portugal. A vitória de todos os portugueses que amam a liberdade e que amam a democracia".