CRÓNICA || Jogo memorável e épico em Alvalade que podia ter acabado 6, 7, 8 ou mais a 0. Ficou "apenas" 5, com direito a prolongamento, mas chegou para algo que não se via há 43 anos
Noite mágica em Alvalade: depois do 3-0 na Noruega, o Sporting deu um autêntico amasso ao Bodo/Glimt, num jogo que podia facilmente ter acabado com um resultado mais desnivelado, tal foi a superioridade dos leões, que acabam de fazer história e conseguir o primeiro apuramento para os quartos de final da Liga dos Campeões neste formato, apenas o segundo em toda a história, se contarmos com a campanha de 1982/83 na Taça dos Campeões Europeus.
Foi como se os papéis se tivessem invertido no jogo de fim de tarde em Alvalade, com o Bodo/Glimt a ser totalmente amassado pelo Sporting, que há uma semana tinha levado um banho de bola no Círculo Polar Ártico.
Desta vez percebeu-se logo que não seria assim. Haveria banho de bola, sim, mas no outro sentido, com o Sporting a carregar com tudo perante um adversário que vinha com o conforto e com a noção do perigo que pode causar em contra-ataque - que o diga o Inter de Milão -, algo que acabou por não se ver, já que Rui Silva foi um espectador durante quase todo o jogo.
Primeiro foi Francisco Trincão, depois foi Luis Suárez e as oportunidades iam aparecendo de todo o lado, como se o Sporting tivesse sido afetado por uma faísca eletrizante que empurrava a equipa para a frente. A palavra faísca não é utilizada à toa, já que a tradução para norueguês é, imagine-se, glimt…
E foi esse glimt que o Sporting teve, com o ponto alto a chegar de canto, com Gonçalo Inácio a cabecear para o 1-0 aos 34 minutos. Estava feito o primeiro, talvez o mais difícil, pelo menos para dar alento e crença.
Os leões continuaram por cima, mas o Bodo/Glimt lá tentar algo, criando de canto um calafrio de todo o tamanho, com a bola a beijar a barra de Rui Silva e a ficar teimosamente na área durante vários segundos, até que lá acabou por sair. Foi isso e pouco mais, já que os noruegueses nem conseguiram aplicar as saídas que já se tinham visto em estádios como San Siro.
Se ao intervalo estivesse mais do que 1-0 ninguém estranharia, mas a eficácia não permitiu, nomeadamente porque jogadores como Francisco Trincão - parece desaparecer muitas vezes nos jogos mais difíceis - e Luis Suárez continuam a evidenciar sinais claros de fadiga acumulada. Pedro Gonçalves também tentou, mas só conseguiria fazer a diferença mais à frente.
Com uma entrada menos impetuosa na segunda parte, o Sporting revitalizou-se com o 2-0 aos 61 minutos. Grande jogada e finalização fácil de Pedro Gonçalves, ele que tanto tinha tentado até ali.
A partir daí reapareceu o autêntico rolo compressor do Sporting, que acabou por conseguir empatar tudo depois de um penálti que ainda precisou de intervenção do VAR.
Eliminatória empatada e ascendente dos leões, que carregaram tanto que a partida podia ter ficado resolvida logo ali. Com efeito, se o fim do jogo nos mostrasse no placar algo como um 6-0 ou 7-0 - foram 35 remates contra apenas 5 em 90 minutos! -, ninguém poderia estranhar.
Nuno Santos rematou ao poste, Francisco Trincão disparou um tiro e ainda houve vários lances de Geny Catamo, que conseguiu acertar em todo o lado menos na baliza. Só essa ineficácia impediu que a coisa não ficasse logo resolvida, tal era o passeio do Sporting em campo.
E se havia o temor de uma possível quebra física no prolongamento, foi Maxi Araújo a mostrar que o pulmão estava vivo - que energia inesgotável do uruguaio, que saiu estourado já ao minuto 110. 4-0 logo a abrir os últimos e derradeiros 30 minutos, com o Sporting a ficar pela primeira vez na frente da eliminatória.
O resto do prolongamento foi quase como se não existisse, com o Sporting a colocar o jogo no congelador e o Bodo/Glimt sem qualquer capacidade de reagir ao poderio do adversário. Deu ainda tempo para, já para lá dos 120, Rafael Nel também molhar a sopa, numa grande recuperação alta que permitiu ao avançado acabar com as dúvidas, selando o resultado nuns expressivos, mas também merecidos e até lisonjeiros 5-0.
Segue-se agora o Arsenal e uma cara bem conhecida. É verdade, Viktor Gyökeres está de regresso a Alvalade, enquanto o Sporting procura reeditar a eliminatória da Liga Europa da época 2022/23, em que eliminou os Gunners nos penáltis.
Ainda que se note a falta de frescura numa unidade ou outra, o Sporting mostrou esta terça-feira uma energia fora do comum. Foi o tal glimt.
