CRÓNICA || Domínio portista começou a secar quando dois lenhadores tiveram de sair ao intervalo. A partir daí o Benfica acreditou, mas talvez não chegou para tudo aquilo que queria desta noite
Antes de mais, dizer que o Estádio da Luz foi palco, este domingo, de um grande jogo de futebol. Num Clássico nem sempre bem jogo, mas sempre eletrizante, Benfica e FC Porto deram um grande espetáculo, numa partida que deixou tudo na mesma para os três grandes, mas com a diferença de haver menos uma jornada, pelo que os dragões saem como os vencedores da jornada.
A precisar de ganhar, o Benfica entrou dificuldades em perceber como parar o FC Porto, que ia conseguindo sair de todas as formas na primeira parte. Foi assim que não conseguiu parar a mais típica das jogadas dos dragões, que ao minuto 10 inauguraram o marcador, com Victor Froholdt a aproveitar uma má abordagem de Anatoliy Trubin para fazer o primeiro.
Grande jogada do FC Porto, com Deniz Gül a aparecer bem como apoio para que Alan Varela visse o jogo de frente. E o que viu foi a parelha de meio-campo, o loiro dinamarquês, a irromper com tudo na defesa benfiquista, já então totalmente partida.
Começava também aí um jogo menos bom de Nicolás Otamendi, que nunca conseguiu acertar quando lhe foi pedido.
O Benfica reagiu e procurou ter mais posse de bola, mas sempre com o FC Porto aparentemente confortável e sem grande perigo na área.
E os dragões não só estavam à vontade a defender, como conseguiam encontrar formas de sair com perigo. Faltou o critério em muitas das vezes, ou o FC Porto teria tido mais oportunidades, mas aos 40 minutos serviu: grande passe de Gabri Veiga a descobrir Oskar Pietuszewski, que aos 17 anos fez de Nicolás Otamendi, de 38, gato-sapato.
Que serpentear do polaco, que partiu autenticamente os rins ao defesa adversário, de tal forma que até o guarda-redes do Benfica pareceu atarantado. Feito o segundo golo, o Benfica tinha toda uma montanha para escalar na segunda parte.
Com Gabri Veiga e Pepê amarelados, Francesco Farioli decidiu tirá-los logo ao intervalo, fazendo entrar Seko Fofana e William Gomes. E a saída do primeiro é particularmente crucial, porque o FC Porto nunca mais teve toda a capacidade que tinha demonstrado para ter bola e respirar com ela.
No sentido contrário, o Benfica carregou, colocando em campo Dodi Lukebakio, que veio ligar os encarnados à corrente, incluindo o colega do outro lado do campo, já que Andreas Schjelderup apareceu endiabrado na segunda parte.
Não por acaso, foram eles mesmos a fabricar o 1-2, que aos 70 minutos fez sonhar a Luz. Grande remate do belga e recarga competente do norueguês, claramente os dois mais esclarecidos dentro de campo, ao contrário de colegas como Rafa ou Vangelis Pavlidis, que estiveram quase sempre fora dela.
O jogo, mais que o resultado, explica-se também por aí, já que homem a homem quase todos os jogadores do FC Porto foram melhores que os do Benfica, talvez com a exceção dos alas - Andreas Schjelderup igualou Oskar Pietuszewski e Dodi Lukebakio fez mais sozinho que Pepê e William Gomes juntos.
E perante essa insistência, com o FC Porto novamente perdulário a desperdiçar vários momentos em que uma melhor decisão teria dado o 1-3, o Benfica conseguiu chegar ao golo mesmo a bater os 90. Mais uma vez uma jogada pela esquerda, onde a partir da entrada de Francisco Moura e a saída de Martim Fernandes, que também coincidiram com a entrada de Dodi Lukebakio, o Benfica foi sempre mais perigoso.
Nem foi o belga a cruzar, mas Franjo Ivanovic, aquele que é ponta de lança, mas José Mourinho gosta de colocar nas alas. Bola para o meio da área e Leandro Barreiro, que até terá deixado saudades durante o tempo em que esteve fora de campo, a finalizar para o 2-2.
O Benfica ainda acreditou no 3-2 e na reentrada definitiva na luta pelo título, mas não conseguiu, ainda que mantenha aspirações claras de chegar ao segundo lugar, dependendo apenas de si para isso mesmo, já que falta a visita a Alvalade.
No fim do dia, tudo igual na frente da Liga, mas com menos uma jornada por jogar e com o FC Porto a já ter o calendário contra os grandes despachado. Tem de ir a Braga - onde Sporting acabou de tropeçar -, é certo, mas fica agora com uma folga de dois empates ou uma derrota para o Sporting, ficando a sensação de que dificilmente o Benfica ainda consegue chegar ao primeiro lugar.
Francesco Farioli, que levou um machado para acabar com o campeonato e conseguiu utilizá-lo durante 45 minutos, acabou a rachar a lenha molhada do Benfica, que foi cortando, cortando, mas acabou por nunca cair, até que a árvore se levantou da crença para conseguir o empate.